Diogo da Costa Ferreira: “O futuro de Mafra passa pela Cultura – Chegou o momento de avançar” (Cap. 3)

Palácio Mafra - ph. CMMafra

 

Fotografia: CMMafra

 

O mafrense Diogo da Costa Ferreira é, entre outras coisas, compositor premiado, professor e investigador CESEM – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/UNL & Escola Superior de Música de Lisboa/IPL. Num texto publicado em três partes distintas (pode ler aqui o cap. 2), exalta como desígnio a centralidade que a Cultura deve ocupar no concelho de Mafra e a necessidade de desenhar e executar uma estratégia clara – e assente em vectores racionais – para este território diversificado e pleno de potencial.

 

5.

E agora? Nesta reflexão, onde está Mafra?

Em que ponto estamos? O que é preciso fazer?

Na última década, em Mafra, assistimos a um crescimento significativo da oferta cultural no concelho e do investimento público na área da Cultura: hoje, a realidade é bem diferente do que era há dez anos.

Ao longo da última década, foram tomadas diversas medidas que, valorizando a Cultura como parte importante do desenvolvimento, têm conseguido promover e consolidar o progresso do nosso concelho em diferentes dimensões.

Todavia, agora, estamos num momento crítico, numa encruzilhada: ou ficamos por aqui ou avançamos. E é preciso decidir, é preciso fazer escolhas.

A escolha é simples: manter e estagnar ou transformar e evoluir

Considerando o percurso feito nos últimos dez anos, o concelho de Mafra conseguiu construir e consolidar uma estrutura de acção, um modo de fazer: uma visão de desenvolvimento cultural. O território conseguiu, de facto, numa década passar da insuficiência para a abundância, quer ao nível da quantidade, quer ao nível da qualidade da oferta cultural.

Mafra conseguiu atribuir à área da Cultura a relevância merecida, e conseguiu fazê-lo com muito sucesso. Agora, é preciso dar um passo em frente.

É preciso alertar para o seguinte: neste momento estamos prestes a atingir um ponto de saturação. Os modelos de intervenção que nos trouxeram – com grande sucesso – até aqui estão inevitavelmente a ficar esgotados: cumpriram o seu propósito e a sua função, mas é altura de renová-los.

Esta grande etapa de uma década está cumprida, e bem cumprida: já atingimos todas as metas que esta estratégia nos permite atingir, já esgotámos todas as suas potencialidades. E esta situação traz consigo um perigo: a estagnação. Se não avançarmos para a próxima etapa e insistirmos em ficar num ponto de saturação, o resultado final é apenas e só a estagnação.

A escolha é simples: manter e estagnar ou transformar e evoluir. Ou olhamos para este ponto de saturação como um problema ou encaramo-lo como uma oportunidade de evolução.

Não se pense que é possível sair de um contexto de saturação apenas diversificando respostas, reformulando medidas, reconvertendo prioridades ou transformando ofertas: é preciso um novo paradigma, é preciso uma nova estratégia. O modelo que existe está estruturalmente esgotado, e não nos permitirá avançar para o próximo nível – já nos deu tudo o que tinha a dar.

Temos de implementar um novo paradigma

Se analisarmos o actual contexto de forma rigorosa e profissional, percebemos que, de facto, o concelho de Mafra precisa de construir uma nova visão estratégica – transdisciplinar e inter-sectorial – que assuma a Cultura e as Indústrias Criativas como motor de desenvolvimento local e de coesão sócio-territorial: esta é a próxima etapa, este é o passo seguinte.

Temos de implementar um novo paradigma que integre novas ferramentas metodológicas validadas e que nos permita fazer uma gestão estratégica eficiente das políticas públicas municipais para a Cultura.

Temos de adoptar modelos que promovam a diferenciação de programas e projectos em convergência com as idiossincrasias do território.

Temos de criar novas redes de cooperação entre os diferentes stake holders locais.

Deixando de parte outras dimensões e desafios mais complexos – que, de facto, existem no território –, permitam-me ilustrar uma “simples” problemática actual com um breve exemplo: a questão da programação cultural (e outros projectos).

Existem questões imprescindíveis que precisam ser respondidas

Se questionarmos “Quais foram as razões que levaram à escolha da programação X?”, “A escolha dessa programação teve por base que tipo de dados e critérios?”, “Quais são os objectivos e metas dessa programação?” ou “Qual é a política de captação e formação de públicos em vigor?”… Não conseguiremos obter uma resposta minimamente válida, pois não existe ainda um diagnóstico participativo rigoroso do território (com métodos próprios) nem estão institucionalizadas as ferramentas metodológicas anteriormente referidas.

Ora, as freguesias da Ericeira e do Milharado são iguais? E a freguesia da Encarnação é igual à da Malveira? Os territórios e as comunidades têm as mesmas características? Apresentam as mesmas necessidades e os mesmos desafios?

Efectivamente, quem conhece o território do concelho de Mafra sabe que, na verdade, entre uma dimensão mais rural e uma dimensão mais urbana, temos vários territórios dentro do mesmo território, várias comunidades unidas numa mesma identidade concelhia: é imprescindível, assim, diferenciar as respostas, os projectos e a programação de acordo com as características e as prioridades da respectiva “zona” do território. Desta forma, conseguiremos fazer uma gestão mais eficiente e mais dirigida dos recursos, obtendo melhores resultados e ampliando o impacto das diversas medidas.

Fará sentido conceber uma programação municipal que não tenha em conta as especificidades do território (com base num diagnóstico prévio)? Fará sentido conceber uma programação que contemple o combate ao isolamento social e a promoção do envelhecimento activo para as zonas mais rurais do território? Fará sentido estabelecer linhas orientadoras transversais para a captação e formação de públicos?

Estas perguntas são essenciais. Existem questões absolutamente imprescindíveis que precisam ser respondidas (com dados válidos) mas, se não tivermos ao nosso dispor os instrumentos necessários para obter as respostas que procuramos, será completamente impossível construir soluções minimamente consistentes, duradouras e sustentáveis – uma estratégia sólida depende disso.

É preciso um Conselho Municipal de Cultura que promova a implementação de um Plano Estratégico Municipal para a Cultura

É preciso conceber – através de processos comunitários participativos – e implementar um Plano Estratégico Municipal para a Cultura

Temos de avançar. Temos de dar o passo em frente. Temos de passar para o nível seguinte. Precisamos de um novo paradigma.

É preciso conceber – através de processos comunitários participativos – e implementar um Plano Estratégico Municipal para a Cultura que defina uma visão estratégica de médio-longo prazo para o território: partindo de um diagnóstico participativo consistente, estabelecem-se metas, objectivos e estratégias diferenciadas. Este é o instrumento fundamental – e imprescindível – para conseguirmos dar o próximo passo.

É preciso criar e institucionalizar um Conselho Municipal de Cultura que promova o diálogo, a reflexão e a cooperação dos diversos stake holders em torno da implementação de um Plano Estratégico Municipal para a Cultura no nosso território.

Perante a escolha a fazer, escolha-se o futuro

Esta deve ser a prioridade fundamental: construir as fundações de um novo paradigma, de uma nova visão estratégica para o presente e para o futuro.

Apenas depois – e somente depois – conseguiremos tomar uma posição séria e devidamente fundamentada sobre questões mais concretas e operacionais: da programação cultural aos investimentos públicos.

Avancemos para a próxima etapa: sem medo e com convicção. Perante a escolha a fazer, escolha-se o futuro.

Aprofundemos o caminho do desenvolvimento sustentável no nosso território com a Cultura e com as Indústrias Criativas: da transformação urbana à coesão sócio-territorial, do ordenamento do território à preservação ambiental.

Revelemos o enorme potencial da Cultura enquanto motor de desenvolvimento local, de coesão e de inovação.

Avancemos, com convicção. É preciso dar um passo em frente

O concelho de Mafra tem potencialidades únicas: temos todas as condições para nos afirmarmos na Europa e no Mundo com um verdadeiro centro de criatividade e de inovação cultural, como um território que reconhece a Cultura e as Indústrias Criativas como importantes mais-valias para enfrentar os desafios do presente e do futuro.

Fica um apelo deste mafrense: avancemos, com convicção. É preciso dar um passo em frente.

Mafra: em direcção ao futuro.

Como disse Fernando Pessoa: “É a hora”.