“Por que não me devolvem os livros?”

Livros - ph. DR

 

Texto: Joana Martins | Fotografia: DR

 

Eu, culpada, me confesso.

No que respeita a bens materiais, não me considero alguém egoísta (espero que outras opiniões o possam corroborar…). Gosto de dar, de dividir, de ver o outro tirar benefício de algo, como eu, em igualdade. Partilhar e dar coisas dá-me muito prazer. Fico mesmo feliz quando consigo proporcionar a alguém um momento bom – sem que isso me leve muito do que é meu. Como se conseguisse acrescentar no outro sem nada diminuir em mim.

Mas com os livros não é assim. Levam-me os livros e estremece alguma coisa em mim que não posso identificar. Mas é profunda, acreditem!

Contudo, não me sei proteger deste meu penar quando o antevejo. Devia pois ser mais razoável e fazer uso da descrição! Ora, se quando leio um livro de que gosto, ‘um bom livro’, sinto a urgência de o partilhar, de dizer «tens de ler» e faço competentemente o meu papel de convencer alguém a lê-lo, provando por argumentos diversos que é tempo bem empregue – o que posso esperar que aconteça depois?

vou passando junto às estantes e vejo a fenda entre os livros, que os desequilibra, que os faz diagonais na arte do disfarce, a lembrar-me do que falta

– “Tens o livro?” A pergunta chega e a angústia começa a desenhar-se algures no meu corpo.

– “Tenho.” Não posso mentir a um amigo. E se num instante estou feliz por partilhar uma descoberta tão preciosa, no instante seguinte já não estou (peco, na certa). O meu livro vai ser levado e não sei quando o volto a TER. Ter é a palavra. Quero TÊ-LO na minha estante, num instante, que é afinal o lugar mais certo onde aquele livro deve estar.

E a situação ainda pode piorar: “já li o teu livro, tenho de t’o trazer”. A educação aceita, “sem problema” vocifera, mas a verdade diz “já devias ter trazido!”. E esta conversa pode repetir-se inúmeras vezes. Se já leu o MEU livro, por que não o traz? Se o propósito de o ter levado já foi cumprido, a situação inicial deve ser reposta. É que a sensação que tenho é que realmente algo está mal – urge devolver o livro ao seu lugar. Permanecerá um sentimento de falta até chegar o alívio que emerge da composição devida da ordem das coisas.

E pior ainda: o beneficiário de tamanho privilégio lê e, na sua organização, na sua arrumação do espaço, junta aquele livro precioso à massa indiferenciada de livros da sua estante… Mas se precisamente o livro devia gerar essa desordem nas coisas, pois que ele não pertence àquele ecossistema! Se se funde com esse outro corpo de títulos, posso jamais conseguir resgatá-lo do esquecimento. E, com vergonha admito, não poucas vezes o pudor me impede de pedir o que é meu.

Vou passando junto às estantes e vejo a fenda entre os livros, que os desequilibra, que os faz diagonais na arte do disfarce, a lembrar-me do que falta.

Continuarei a emprestar pelo bem que fazem, mas devolvam, que me falta o ar.