A Ericeira pelos Olhos de Paulo Galvão

 

Fotografia: DR

 

Paulo Galvão

44 anos

Locutor na Antena 1

a Ericeira é a minha casa

Paulo Galvão é membro da Filarmónica Cultural da Ericeira há longos anos.

 

A Ericeira é a minha casa. Apesar de ser saloio do Seixal (da estrada para cima é tudo saloio), foi na Ericeira que fiz sempre a minha vida. Apesar de passar muito tempo em Lisboa, aos fins-de-semana vou sempre à vila dar aquela voltinha (saloia).

 

O que mais ama e menos gosta na Ericeira?

Gosto de ir à praça comprar legumes à Natália e depois passar pela Loja da Amélia, que é a única do país com aquelas coisas boas que estão para lá. Gosto de comer uma bola de Berlim da Veneza (são as melhores) e também gosto dos bolos do Salvador. E da Pastelaria Saloia e da Casa Gama… Ou seja: a Ericeira tem quase tudo bom e é por isso que há muitas pessoas que aqui vão de outros locais do país de propósito, apenas para comer e passear.

O que menos gosto: não existem espaços verdes, à excepção do Parque de Santa Marta; e a falta de estacionamento no Verão.

os próximos tempos vão ter de ser cada vez menos de puxar a brasa à minha sardinha

Quais são as suas principais preocupações no presente e para o futuro da Ericeira?

O volume de construção. Alguém devia fazer alguma coisa a este PDM a tempo de salvar o que resta da vila. Muito arranjada no centro e muito feia à chegada. As encostas da freguesia (como o Alto da Forca, por exemplo) estão a ficar cheias de prédios e vamos chegar a uma altura (no Verão, principalmente) em que vai ser um inferno passar férias na Ericeira. Os últimos anos antes da pandemia já tinham revelado o excesso de visitantes e moradores nos períodos de Verão, o que reduz a qualidade das férias de quem escolhe a Ericeira como destino. Pode ser bom para a restauração e para os negócios do surf, mas vai ser preciso arranjar um equilíbrio ou corremos o risco de transformar isto num sítio apetecível, mas com muito pouca qualidade.

O Parque de Sta Marta está desadequado aos tempos que vivemos e às necessidades da vila. Falta sombra, falta abrir o parque às Furnas, sem muros. Devia ser repensada a possibilidade de voltar a haver ali um campo de futsal – não faz sentido nenhum não haver um campo de futebol neste parque e depois existirem dois campos de ténis, com uma utilização muito limitada. Falta um local para concertos e para espectáculos e onde estão os courts de ténis podia ser construído um anfiteatro coberto, virado a Sul, para ser ocupado no verão.

 

O que é ser Jagoz?

É conhecer as pessoas que vivem lá ao Norte, as famílias de pescadores (sou meio saloio e não sei bem quem são), mas ter um pé na vila e ver com orgulho o que tem para mostrar. E não é só surf: é também ir ver ao Sábado de manhã os treinos do Ericeirense, que faz um trabalho espectacular com centenas de crianças; é ver que existe um corpo de bombeiros muito competente que tem o carinho da população e é, por exemplo, ter orgulho na Filarmónica, que com todas as dificuldades conhecidas vai representando com toda a dignidade a Ericeira onde quer que se apresente. Talvez falte aos Jagozes o que se vê em tantas outras terras aqui à volta: união. Talvez por a Ericeira ser uma terra cada vez com mais gente acabe por se dispersar aquilo que podia ser o maior motor da terra. A Junta de Freguesia e a Câmara Municipal não podem fazer tudo e a ideia que passa é que falta à população mobilizar-se para uma série de coisas. E os próximos tempos, com o que estamos todos a viver, vão ter de ser cada vez menos de “puxar a brasa à minha sardinha”.