A Ericeira pelos Olhos de: José Salvador

 

Fotografia: DR

 

Bilhete de Identidade

José Joaquim Dias Gomes Salvador, ou ‘Zé Inglês’ para os sô’primos

Nascido a 27 de Maio de 1957 na Ericeira

Director Hoteleiro e empresário

a Ericeira é saudade que nunca sai e que dói quando se está longe

A Ericeira é História, é cheiro a mar, é muito mar lindo em qualquer época do ano, é cheiro estrangeiro, é cheiro dos de fora, é cheiro dos de cá, é tudo o que a vida pode mostrar: do sossego à euforia, do descanso ao cansaço, do bronze que não sai ao branco da espuma; é saudade que nunca sai e que dói quando se está longe.

 

O que mais ama e menos gosta na Ericeira?

O ar, o céu, o mar, a cor, o nevoeiro, o cheiro das ruas, as gentes da terra, a azáfama do Verão assim como o sossego do Inverno. O que menos gosto é o calor a mais quando vem.

a única coisa que nos resta é sempre a nossa história e a nossa memória

Quais são as suas principais preocupações no presente e para o futuro da Ericeira?

É realmente preocupante a quantidade de carros e alguma falta de visão para resolver essa situação. Há supermercados a mais e árvores a menos, falta pelo menos um outro jardim. A falta de comunicação dos governantes com a gente da terra para que possam ouvir o que sentem sem políticas e interesses, enfim, coragem em debater para melhor compreender a situação actual e programar um futuro melhor para bem de todos e da Vila da Ericeira. A falta de cuidado para com o mar e a sua arte e a riqueza que nos traz e que nos pode trazer. A falta de organização de verdadeiras normas da prática do Surf e a falta de outros desportos: noutros tempos havia futebol de salão, já houve basketball, hóquei em patins, provas de natação no mar, vela…

Não há planeamento para o futuro nem defesa dos locais, os pequenos negócios existentes irão ser engolidos pelos supermercados gigantes feitos à pressa, enfim tudo bem, mas a Ericeira é ou não diferente de outras terras do concelho? Não quero ofender ninguém, mas a Ericeira não é rural e o resto do concelho poderá ser considerado como tal, portanto, seguindo esta lógica penso que a Ericeira terá que ser vista de uma forma diferente (nunca melhor nem pior) das restantes vilas do concelho, com intervenções cuidadosas para que no futuro se possa proteger esta terra e as suas gentes, mantendo-se assim alguma tradição. Tenho absoluta consciência que o tempo não volta para trás, mas podemos aprender o que não se deve fazer vendo os outros de mente e coração abertos para não cometermos os mesmos erros – eles estão aí para toda a gente ver! Vivi mais de 27 anos no estrangeiro, em vários países, sei como estão agora vilas e aldeias a perderem a sua identidade e história em nome do progresso e da ilusão de se viver melhor. A única coisa que nos resta é sempre a nossa história e a nossa memória.

ou és Jagoz ou nunca irás sê-lo

O que é ser Jagoz?

“To be or not to be”, eis a questão. Sinto-me confuso em responder a esta vossa pergunta: “o que é ser Jagoz?”… bem, para mim é a melhor coisa do mundo, pois já corri mundo – os que me conhecem sabem disso e não tenho necessidade de mentir, pois a mentira é a arma dos fracos e os jagozes nunca foram fracos, foram é sempre diferentes devido à sua capacidade de serem humildes e orgulhosos ao mesmo tempo, de serem trabalhadores e calões ao mesmo tempo, de serem rudes e alegres ao mesmo tempo, de criarem amizades e invejas ao mesmo tempo, enfim… ser Jagoz é complicado, mas é muito bom, ou seja, “ser ou não ser”, eis a questão, ou és Jagoz ou nunca irás sê-lo.

 

Considera-se Jagoz?

Claro que sim, por tudo o que disse anteriormente e porque a minha família está cá registada desde 1700, mais ou menos, pois o primeiro registo da família Salvador (que veio de Palmela para a construção naval existente na Ericeira na altura) é de 1732: o meu avô materno morreu afogado, pois era pescador e o barco virou quando entrava na Praia do Peixe; as minhas duas avós eram vendedoras de peixe na praça local, a minha avó paterna era parteira e a maior parte dos jagozes da minha idade foram trazidos à luz do dia pela avó Graciosa, que também me ajudou a nascer há 63 anos em Santa Marta, Ericeira. Acho que isto explica o porquê de eu me considerar Jagoz de alma e coração. Sempre respeitei e hei-de respeitar quem respeita a terra onde nasceu e foi criado.

O empresário vive em Tyumen há sete anos.