Texto: Miguel Arsénio | Fotografia: Johnny Clarke / Instagram
Embora o concelho de Mafra seja, à partida, tão permeável às transições nas tendências musicais como qualquer outro, há uma certeza que se mantém presente desde há sensivelmente vinte e cinco anos: esta zona do país tem uma tradição já significativa no que toca a receber óptimos concertos Reggae. Recordemos, por exemplo, a histórica actuação de Toots & the Maytals na praia de Ribeira d’ Ilhas ou as passagens de nomes consagrados como Horace Andy ou Barrington Levy por um festival que, até há bem pouco tempo, decorria na Ericeira. O reggae esteve entre nós, ameaçou ficar longe, mas agora regressa com vitalidade no Boa Onda Festival, que traz alguns nomes sonantes do género até à Quinta Vale d’Água, na Azueira, concelho de Mafra, entre os dias 2 e 4 do mês de Agosto.
As energias, tal como os próprios festivais de música, renovam-se numa sucessão em que umas dão lugar a outras; porém, a essência do reggae é uma força musical que, com o tempo, tem visto partir algumas das suas principais figuras (há apenas alguns anos partiu deste mundo o genial pai Lee “Scratch” Perry). É por isso que temos de considerar uma tremenda sorte podermos ter tão perto um dos representantes ainda vivos do verdadeiro roots reggae: Johnny Clarke, que surge no dia 3 do Boa Onda acompanhado pela Dub Asante Band e a secção de sopros Matic Horns.
Clarke impressiona por uma fluidez extremamente natural nos seus diferentes álbuns e canções
Muito haveria a dizer sobre Johnny Clarke, mas o que a AZUL propõe é uma pequena viagem pela extensa e diversa obra deste grande senhor (nascido na própria capital do reggae, Kingston, em 1955), através da escuta de quatro das suas faixas. Clarke gravou com produtores de excelência como Bunny Lee, King Tubby ou Prince Jammy e, com a ajuda desses e outros mais, alternou muito fluidamente entre singles (formato importantíssimo para a disseminação dos êxitos na Jamaica) e álbuns (alguns desses gravados durante um período bem fértil na Front Line, subsidiária reggae da gigante Virgin). Clarke muitas vezes impressiona precisamente por essa tal fluidez extremamente natural que demonstra nos seus diferentes álbuns e canções. Descemos na sua companhia este rio feito de quatro faixas antes de irmos dar ao Boa Onda.
“Repatriation” é uma daquelas faixas que poderia durar para sempre, relembrando que o Dub é das mais prazerosas maneiras de distorcer a noção do tempo. JohnnY Clarke, aliado à produção de Mad Professor, no bem amplo disco “Give Thanks” lançado pela Ariwa, prolonga um pouco mais as palavras cantadas aqui (naquele vibrato característico do roots reggae) e o resultado é só mesmo um pequeno milagre de reggae dub.
Permitam-me a fixação por este disco de 85, que Clarke lança na Ariwa de Mad Professor, já que é neste contexto reggae dub (que se permite a todo o tempo do mundo para as canções progredirem) que mais gosto de ouvir o intérprete jamaicano. “Give Thanks & Praise” coloca Clarke mais próximo do registo cerimonial de alguém que canta a sua dedicação a Jah, fazendo contudo crer que podemos todos estar um pouco mais perto da crença Rastafari desde que nos rendamos a mais um riddim irresistível do laboratório Ariwa – que viu também nascer dois brilhantes discos de Ranking Ann, entre outros tantos lançamentos merecedores de atenção.
“Authorized version”, um dos discos de Clarke na Front Line, é uma prova bem clara de como o roots reggae mais dubby tem uma capacidade extraordinária para nos colocar em transe. O fluxo do disco nunca sofre sobressaltos (para isso muito contribui que a voz de Clarke seja muito mais suave que eloquente ou teatral) e o disco percorre-nos os ouvidos como um rio. Aqui e quase sempre a imagem do rio bem presente. Podemos ouvir “Cry Tough” para entender tudo isso um pouco melhor.
É útil e esclarecedor escutar a versão que Johnny Clarke faz de uma faixa tão célebre como “No Woman no Cry”, nem que seja para a compararmos com o original de Vincent Ford universalmente reconhecido como tema de Bob Marley. Se na versão ao vivo, que já teremos ouvido centenas de vezes, quase parece que o carisma possui a voz do próprio Bob Marley, Clarke surpreende por interpretar uma canção algo dramática no seu habitual registo de contenção e elegância.
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