“Jagozes — Continuidade e Resistência” vai ser apresentado na Ericeira

 

Fotografia: Nuno Rocha

 

O livro documental “Jagozes — Continuidade e Resistência”, que retrata a comunidade piscatória da Ericeira, vai ser apresentado Sábado, dia 27 de Junho, pelas 15 horas, na Casa de Cultura Jaime Lobo e Silva.

Após 18 meses de acompanhamento no porto de pesca da Ericeira, os fotógrafos Nuno Rocha e Pedro dos Reis lançam uma obra de capa dura que regista o quotidiano, os gestos e as transformações da comunidade piscatória local.

Nuno Rocha: Voltei ao porto com fotografias que tinha feito antes. A partir daí, fui ficando. O trabalho construiu-se com o tempo

Desenvolvido a partir de uma presença contínua e próxima junto da comunidade, o projecto acompanha a actividade no mar e em terra, incluindo a preparação do pescado, a venda na lota e os momentos de convívio e partilha associados à vida marítima da vila.

Este trabalho com 208 páginas documenta igualmente a transição dos barcos de madeira para as embarcações de alumínio e as mudanças introduzidas nos modos de trabalho, num território onde a ligação ao mar continua a marcar profundamente a identidade local.

Integra ainda momentos de forte significado simbólico e comunitário, como a procissão das Festas em Honra de Nossa Senhora da Boa Viagem, revelando a relação entre tradição, memória e continuidade.

Sem recorrer a encenação, o projecto construiu-se a partir da observação directa e da proximidade com os protagonistas, reflectindo uma realidade em transformação, mas profundamente enraizada no território e na sua cultura marítima.

o mar faz parte da nossa memória colectiva, do património humano, da nossa cultura e da forma como o território se construiu ao longo de gerações

Editado pela Câmara Municipal de Mafra, este table book (230 x 260 mm) resulta de uma candidatura apoiada pelo Portugal 2030, integrando uma estratégia de valorização do património cultural, identitário e humano associado ao mar e às comunidades piscatórias do Concelho.

Nas palavras de Hugo Moreira Luís, Presidente da Câmara Municipal de Mafra, “O mar faz parte da identidade de Mafra e da Ericeira. Faz parte da nossa memória colectiva, do nosso património humano, da nossa cultura e da forma como o território se construiu ao longo de gerações. Ao apoiar esta obra, o Município de Mafra reafirma o compromisso na valorização da cultura, da memória e das comunidades locais, reconhecendo a importância de preservar e documentar realidades que constituem parte essencial da identidade do Concelho”.

De acordo com José Bértolo, “As fotografias alternam entre o alto mar e a terra, acompanhando o ritmo natural de uma actividade que navega entre um meio e o outro. No mar, captam-se os pescadores em pleno exercício do seu labor, mas também os elementos naturais que os rodeiam — o céu, o sol, a água em permanente movimento —, dando a ver a ancestral tensão entre a presença humana e a imensidão da natureza. Os instrumentos de trabalho, as embarcações, os próprios peixes, emergem nestas imagens como personagens secundárias (porém, importantes) de uma narrativa em que cada elemento tem o seu papel na economia simbólica da pesca. Em terra, o olhar detém-se na preparação dos barcos, na praia como espaço de transição, nas vendas matinais de peixe que antecedem a distribuição pelos mercados e restaurantes, documentando a continuidade de um ciclo económico que se repete há gerações.

O carácter documental destas fotografias manifesta-se na atenção ao trabalho enquanto categoria central da actividade humana. Os retratos captados em acção, nunca em pose, apontam para uma ética da autenticidade. Nos planos aproximados das mãos em trabalho, a câmara revela a sabedoria acumulada nos gestos, a destreza adquirida através de anos de prática, a beleza do trabalho braçal numa época em que a tecnologia tende a invisibilizar ou a substituir o esforço humano.”

No entender deste fotógrafo e professor universitário – nas áreas de Literatura Comparada, Estudo Portugueses, Fotografia e Estudos Cinematográficos -, “Ressalta ainda a dimensão comunitária deste friso. Ela surge, fulgurante, nas imagens de almoços, de festividades religiosas, da procissão nocturna com uma embarcação que primeiro desfila pela praia e depois se aventura no mar com as luzes acesas, gerando fotografias de grande valor estético, mas sobretudo simbólico. Momentos como este revelam que, para além de uma actividade económica, a pesca é um modo de vida que estrutura toda a organização social desta comunidade.

Entre uma abordagem mais estritamente documental e momentos de maior expressividade poética, as fotografias constroem uma narrativa que oscila entre o registo objectivo e o olhar contemplador. A escala de cinzentos, relativamente neutra, mas assinalável na sua riqueza tonal, permite que cada imagem respire, oferecendo ao olhar uma gama de texturas e contrastes que enriquecem a experiência de observar as imagens. A presença dos animais — peixes, gaivotas, um cão… — introduz uma nota de vida selvagem que contextualiza o trabalho humano numa escala maior. Por seu turno, as paisagens ocasionais concedem ao livro momentos de pausa que deixam respirar a sua dimensão puramente documental.”

este trabalho fotográfico (…) torna visível o que estava oculto, eleva e sublima o trabalho destes homens, restituindo-lhe a dignidade e o reconhecimento merecidos

“As imagens diurnas e nocturnas testemunham a circularidade de um trabalho que não obedece aos horários convencionais, sugerindo que a pesca constitui menos um emprego do que uma forma de vida. O movimento omnipresente, por vezes sublinhado por um efeito de flou, transmite a energia e a urgência de uma actividade em que o tempo é sempre escasso e precioso. Significativamente, as pessoas fotografadas nunca olham para a câmara, criando uma impressão de invisibilidade dos fotógrafos. Esta invisibilidade da câmara revela uma qualidade essencial da fotografia enquanto forma de registo: a sua capacidade de fixar práticas e saberes que, de outro modo, permaneceriam no domínio do efémero, entregues ao desaparecimento. Comemos o peixe sem conhecer as mãos que o pescaram, ignoramos os riscos enfrentados, desconhecemos os saberes transmitidos de geração em geração. Este trabalho fotográfico funciona, assim, como uma revelação, no sentido etimológico do termo: torna visível o que estava oculto, eleva e sublima o trabalho destes homens, restituindo-lhe a dignidade e o reconhecimento merecidos.

O livro de fotografia concretiza-se aqui como uma forma física, material, transmissível, que se lança ao futuro, votando estas existências à posteridade. Num tempo em que as comunidades piscatórias tradicionais enfrentam pressões económicas e ambientais crescentes, estas imagens assumem uma dimensão quase arqueológica, preservando para o futuro todo um microcosmo cultural e simbólico. Este é, também, um livro com algo de duplamente ritualístico — porque documenta os rituais da comunidade piscatória ao mesmo tempo que revela o próprio ritual fotográfico da observação paciente e atenta. Ele reveste-se assim de uma componente religiosa, porque propõe uma re-ligação entre gentes. É um livro que vem em bom tempo: o mundo está a precisar da fotografia como prática quase religiosa, de um humanismo sério e desinteressado.”, conclui José Bértolo.

SOBRE OS AUTORES

Nuno Rocha

Nascido em Lisboa em 1975, Nuno Rocha é fotógrafo e artista visual, desenvolvendo trabalho nas áreas da fotografia, som e vídeo. A sua prática artística explora a relação entre imagem, percepção e realidade, tendo já apresentado diversos projectos em Portugal e no estrangeiro.

Pedro dos Reis

Nascido em Lisboa em 1975, Pedro dos Reis desenvolve trabalho nas áreas da fotografia, filme, vídeo e música, cruzando igualmente a escrita crítica e a produção de exposições no contexto da arte contemporânea