Pescadores Artesanais da Ericeira: António Franco Alberto

 

Texto: Filipa Teles Carvalho | Fotografia: Sérgio Oliveira

 

«Há homens que andam no mar como se andassem na rua» – Carlos Drummond de Andrade

 

A sua “cabana de pescador” é, vista de dentro, uma moldura para o mar. O barco (Toni Fernando) recebeu-o do pai, Mestre (Francisco Alberto) que chegou a andar no Creoula, “ao bacalhau”. Chama-lhe herói e manifesta-lhe devotada gratidão por valores como a honestidade e humildade – que lhe transmitiu. Estão juntos todos os dias. Além da alcunha (Porras) passou-lhe o leme e a vida da pesca que também herdou de várias gerações. António Franco Alberto aceitou-os com seriedade e compromisso. Nunca lhe falta a fé, a pressa, uma boa palavra, um sorriso puro ou um gesto bonito. É um pai e marido orgulhoso e gosta de um bom “beca-beca”. Chegou a ser o mais jovem mestre do país – entrevistado como tal para um programa televisivo dedicado à pesca. Às crianças gosta de oferecer búzios.

Tenho sempre Deus comigo

Identidade Marítima

António Francisco da Luz Franco Alberto, também conhecido como ‘Porras’ ou ‘António Porras’

Nascido a 28 de Novembro de 1968 em Lisboa, São José, Santa Bárbara, Freguesia da Pena.

“Ao mar” desde: Desde pequeno que venho para aqui, desde a barriga da minha mãe. Na altura das festas, os barcos daqui iam sempre à Assenta, às festas de São João. A minha mãe ia grávida e eu ia lá dentro. Mas desde pequeno que me lembro, com os meus cinco, seis anos, que vinha trazer aqui (ao porto) café ao meu pai e depois ia para a escola. Aqui efectivo estou desde os 12 anos. Era moço aos 12 e aos 14 já tinha cédula e já andava ao mar.

Nome do seu barco: Toni Fernando – o melhor do mundo! (risos). Poderá haver melhores e maiores, mas este é o que me leva e traz todos os dias com Deus.

Função que desempenha: Mestre.

A pesca é: Para mim é tudo. E é o que eu gosto de fazer, dá-me entusiasmo – estando bom tempo não me ralo de ir para o mar todos os dias e estar sempre a trabalhar – apesar de a gente saber que só ganha consoante o que apanha… Mas a pesca é mesmo a tradição aqui da nossa vila… é a Pesca – não é mais nada.

A Companha do Toni Fernando orgulhosa da pescaria. A fotografia foi tirada em pleno mar pelo mestre do barco, António Franco Alberto.

Qual é a importância da pesca artesanal para a Ericeira?

A Pesca já foi uma coisa muito importante para a Ericeira; este chegou a ser um dos maiores portos… Ao longo dos anos tem vindo a degradar-se tudo, mas a pesca é muito importante para esta vila. O dia em que acabe aqui a pesca isto morre tudo. Acaba-se a essência da Ericeira. Acabou. Estes barcos, seja os de madeira, seja os de fibra, a malta andar pra baixo e pra cima, esta azáfama, tirar redes, descarregar o peixe, as gaivotas, isto tudo, faz tudo parte… quando e se acabar, morre tudo.

 

Como é que acontece a sua ligação à pesca?

A minha família é toda do mar; tanto da parte do meu pai como da minha mãe. Desde os bisavós aos tetra-avós… sempre foi tudo ligado ao mar, todos! O meu bisavô do lado do meu pai era mestre de embarcações; o meu avô ouriço também… toda a minha família é ligada à pesca. Alguns já não estão, outros são mais velhotes, mas somos uns quantos…

De boné e à direita do pai (o mestre Francisco Franco Alberto – Xico Porras), a faina começou cedo na vida de António Franco Alberto.

Avô Ouriço?

Avô Galdéra era o pai do meu pai e avô Ouriço o pai da minha mãe.

 

Em que outros barcos andou?

Eu tenho a sorte que o meu pai já era dono de um barco e nunca saí daqui, andei sempre neste barco. Andei noutros para desenrascar malta, mas o barco que eu sempre andei desde miúdo foi a Chata do meu pai (Mar Lindo) e depois este maior (Toni Fernando).

 

Quais são as principais diferenças entre a pesca artesanal e os outros tipos de pesca?

A pesca artesanal são estes barquinhos aqui da gente – até aos nove, onze metros –, mas, independentemente do tamanho do barco, é uma pesca que é: ir – a gente sai daqui de madrugada – chega-se e o peixe é sempre do dia… (não está três ou quatro dias…), trabalha-se com três, quatro pessoas – antes trabalhava-se com mais mas agora há pouca gente… mas no fundo é isto a pesca artesanal.

Aqui novamente ao lado do pai, descalço e com um cão ao colo. «Recordo-me de em miúdo pensar: Eu quero ser mestre de um barco.»

E por que é que há pouca gente a andar ao mar?

Aqui, temos pouca gente a andar ao mar porque as condições são poucas; não temos um porto em condições, passamos muitos dias sem poder sair – e a malta tem coisas para pagar; há a renda da casa, há isto, há aquilo… e se não se for não se ganha nada… e agora chega o Inverno, temos muitos dias em que temos que estar em terra… não dá. A ausência de um porto seguro continua a ser a causa. Fizeram algumas melhorias mas tem que se manter… Desde que deixaram de dar a manutenção… Isto precisava de um molhe sul. Resolvia muito. Mas não fazem – não sei porquê. Se não quisessem fazer um molhe sul, fizessem um paredão em pedra daqui da lage grande caminho fora – que é uma coisa relativamente barata e não parte – porque é a direito. Deixaram de fazer manutenção à praia e tirar a areia – em Outubro – não a tiram, a areia não tem mais para onde ir, entra aqui nesta praia e entra muita. A praia já não leva mais areia – não é tirada; dantes era sempre tirada em Outubro, sempre e às carradas. E era assim que era feito todos os anos, essa manutenção; deixaram de fazer isso, o porto está nesta miséria.

 

Ou seja, agora seria de fazer essa manutenção mais vezes, pelo menos?

Eu não estou contra que isto seja praia… os barcos andavam ao mar antigamente e eu andava lá ao banho… dêem-nos é condições. Agora, deixem levar a areia daqui para fora como era feito… se assim fosse nunca se dava este caso que se está a dar aqui. Temos que andar sempre a pedir à Câmara e à Docapesca em conjunto com mais alguém para limpar ali a rampa ao menos, para a gente poder sair – que é um dos piores pincéis que a gente tem…

 

Maiores alegrias e sustos no mar?

Já apanhei um susto bom, já.

Cacau (à esquerda, da companha e companheiro de muita faina) e António Franco Alberto, o mestre do Toni Fernando. Assegura que cumpre regras e medidas ligadas à preservação das espécies: “A gente tem que deixar isto para outros que hão-de vir” e acredita que o mar também compensa essas atitudes. Esta grande raia não o desmente.

Um susto bom?

Pois, quer dizer que é um susto grande (risos). Apanhámos uns mares… só parámos aqui no cais com o barco atravessado. Aquilo foi Deus. Foi Deus que teve com a gente.

 

Mas como é que foi isso?

O mar tinha um toque bom (quer dizer que o mar já não era manso). Foi na altura em que até o paredão tava partido… dava a sensação que estava bom para entrar. Entrámos e formou-se três mares que já não dava para nada; nem para virar pra trás nem para nada… ficámos ali, depois viemos pra dentro, o mar depois apanhou a gente – por acaso estamos cá todos – mas íamos à frente do mar atravessados. Há aí fotografias disso.

 

Foi um susto para quantos minutos?

Não sei. Eu recordo-me de pensar isto: “Epá, que monte de mar que vem aí… e de pensar: vou tirar a roupa… ainda tirei, olhei para trás e pensei vou-me agarrar aqui à borda para ter força no leme – para o barco quando virar ter força… quando o mar parte… só com o vento, o que estava em cima no barco voou tudo, foi tudo disparado de escantilhão… depois quando o mar chegou a pegar no barco lembro-me de ter uma branca total… recordo-me que o barco guinou todo para o norte e eu puxei o leme todo, cerrei tudo para o barco endireitar… mas não me lembro de nada mais; éramos três, eu, o Quim e o Toino – recorda-me de vir à frente do mar, viemos atravessados… e do rapaz me dizer assim: o motor está parado, mete o motor a trabalhar… e eu lembro-me de dizer, epá tá tudo vivo, tamos aqui todos… e o motor tá à força toda… e o barco realmente até tava parado… Aquilo foi Deus, que pôs a mão no barco quando viemos atravessados… Tínhamos um bocado de água dentro, perdemos umas coisas, mas correu tudo bem – atracámos o barco… houve montes de pessoas que viram isso… depois nos dias seguintes veio mau tempo; quando saía à ponta do molhe de noite com o mar roleiro… aquilo era… é uma facada, o coração vai apertado. Depois começa a passar, com o tempo. Com o tempo vai passando.

Aqui de cana em punho, com o pai e o irmão.

As alegrias…

O pescador é assim: não tá a dar nada, depois começam a entrar uns peixinhos já está todo contente, esquece tudo; fala-se em muita coisa e brinca-se… é a nossa alegria; mas também tive uma alegria no mar: o nascimento da minha filha. Na altura era camarada e não havia telemóveis – era pelo rádio. Foi a minha mãe ao rádio: Olha, era para dizer que a tua filha já nasceu! Foi uma grande alegria naquele dia.

Estes barcos… a malta andar pra baixo e pra cima, esta azáfama, tirar redes, descarregar o peixe, as gaivotas, faz tudo parte… quando isso acabar, morre tudo.»

 

Ainda existe boa quantidade de peixe e de qualidade na nossa costa?

Quando era miúdo a gente dizia: quando chegar aquela hora, tá cá aquela teca (quantidade) e com poucas redes. E era. Hoje o peixe é menos, mas trabalha-se com mais artes e ultimamente temos apanhado mais; quando era miúdo nunca apanhei 200 quilos de linguado. E este ano, graças a Deus, cheguei a apanhar. Trabalha-se com mais redes. Também funciona por fases: há anos que há mais, outros menos… mas têm que pôr a mão a certas coisas – senão qualquer dia não há mesmo nada. Já há regras e a malta tem que cumprir porque a gente tem que deixar isto para outros que hão-de vir.

 

O que é o mar para si?

O mar é a minha grande paixão. E sinto-me bem no mar. É de lá que vem o sustento para mim e para a minha família e o que eu gostava era que toda a gente preservasse o mar. E não estou a brincar; eu tento respeitar tudo e não estou a falar da boca para fora. Tou a falar de coração.

O sorriso do presente de quem está bem na sua pele, mesmo em tempos muito desafiantes.

E tem uma rotina quando trabalha no mar? Como são os seus dias?

É sair de casa no máximo às quatro da manhã, preparar as coisas para ir para o mar, depois navega-se – onde o peixe estiver é onde a gente vai; navega-se hora e meia, duas, é alar as redes, depois é vir para a terra, escolher o peixe, depois para a lota; e, se houver trabalho em terra, é as horas que houver – que a gente não tem hora nem de começar nem de largar. Há sempre qualquer coisa a fazer.

 

Há uma linguagem própria entre os pescadores – vocês às vezes falam com palavras que as outras pessoas não conhecem…

Há aquelas palavras que dizemos… que a gente sabe o que é que aquilo quer dizer.

 

Algum exemplo além dos já utilizados nesta entrevista?

Se eu disser assim: a água vai abaixo – por exemplo. A malta já sabe que a água vai ao Sul.

 

Mas há outras… “empachado”?

Um gajo “empachado”- quer dizer que a coisa não tá a correr bem… por exemplo, se disser “olha tou ficho”, quer dizer que a rede que a gente está a alar está ficho no fundo.

 

Fixo?

Ficho. Se eu disser: “pera, já falo contigo que agora tou ficho, quer dizer que tou a tentar desprender qualquer coisa. Os jagozes são conhecidos logo pelo falar aqui na região toda.

 

Tem alguma relação com a política ou ideais?

Os meus ideais é que seja qual for o político, que ajudem aqui o Porto de Pesca e que façam qualquer coisa para isto não acabar e poder andar tudo a trabalhar. Porque eu tenho despesas como os outros e pago a mesma coisa que um barco de 30 ou 40 metros. Só que eles vão mais vezes ao mar do que eu. Mas é preciso lembrar que muitas vezes são estes barcos pequenos que conseguem manter a qualidade do peixe e também a oferta em tempos piores. De resto, em termos de ideais acho que as pessoas deviam de se respeitar todas umas às outras.

 

Qual é a sua relação com o divino ou com a espiritualidade?

Tenho muita fé e sou iluminado por Deus; graças a Deus, tudo quanto faço tenho tido sorte. Não é a gente estar sentado e esperar que Deus nos ponha as coisas à frente, temos que ir à luta – mas que ele ajuda a gente, ajuda. E eu sou um desses afortunados, tenho sempre Deus comigo.

 

O pescador assume o papel de predador; mas há pescadores que têm simultaneamente um grande amor e respeito pela Natureza. Como é que vive essa relação?

Sou um predador… largo redes e artes de pesca para apanhar peixes… mas isso não é ser um predador, é a lei da vida, é o meu sustento. Mas tento preservar o mais que posso. Respeito as medidas dos peixes. Dentro dos alcatruzes, polvos, lavagantes ou outros que venham com ovas eu lanço ao mar. Tudo o que não tenha medida, no meu barco vai ao mar. E se alguém duvidar podem ver alguns vídeos que eu tenho feito sobre isso. Eu e a minha Companha – não sou só eu. Às vezes chega-se a mandar um pregadinho com meio quilo, quatrocentas gramas: “- Vai, vai viver!”. Passado um bocado encontra-se outros com três, quatro quilos. Acontece isso tanta vez… O mar compensa a gente.

Com Carta de Mestre e também de Contramestre, aqui com um lavagante digno de registo fotográfico.

Que memórias guarda dos antigos e dos tempos antigos da Ericeira?

Eu lembro-me de ser miúdo e estar ali na “Rebeira” – chamam-lhe a Praia do Peixe mas pra mim é sempre a “Rebeira” e recordo-me de estar tudo cheio de barcos. E malta a remendar redes. Quando era meio-dia, dezenas e dezenas de pessoas: era uma fábrica. Eu ainda apanhei isso em miúdo. E também apanhei estar a remendar – sei remendar… às vezes era chato, estar ali quieto a segurar nas redes e ver a malta ao banho e eu ali… Era uma azáfama aqui, depois com a rampa – ainda havia uns 60 barcos – uns pra baixo outros pra cima… redes no chão, lota, tudo. Hoje é um bocado mais morto, porque a gente não tem condições para andar ao mar… Lembro-me da malta do mar usar outras roupas mais antigas, do tipo de barcos antes destes, também de madeira mas de outro tipo. Lembro-me disso tudo… O meu pai sempre teve esta vida e andou por todo o lado e fez tudo o que tinha de fazer; eu recordo-me de em miúdo pensar: Eu quero ser mestre de um barco. Sempre. E graças a Deus consegui. Sempre quis isso, não tinha outro desejo. Na escola e tudo, lembro-me de pensar isso. Tanto que aos 18 anos já tinha a Carta de Mestre.