Padre Tiago Fonseca: «Poder ir todos os dias às ribas ver o mar e rezar é um privilégio»

 

Texto: Hugo Rocha Pereira | Fotografia: AZUL

 

Em Julho de 2016, apenas duas semanas depois de ter sido ordenado padre, Tiago Fonseca foi nomeado vigário paroquial para a Ericeira e Carvoeira. A entrada na paróquia apenas se consumaria em Setembro, mas já antes se começava a anunciar um ano em cheio de acontecimentos e Fé, que passamos em revista nesta conversa: da experiência marcante com as festas em Honra de Nossa Senhora da Nazaré à sua relação com a Ericeira e os jagozes, faz-se um balanço deste período e deixam-se algumas pistas para os próximos tempos.

este ano foi cheio de acontecimentos marcantes que nos ajudaram a caminhar na fé

Está quase a completar um ano de Ericeira. Que balanço faz?

A nível pessoal, o balanço deste primeiro ano de padre aqui na Ericeira é muito bom. Na verdade, tenho noção de que tenho aprendido a ser padre – a ter os mesmos sentimentos de Jesus – com o Cónego Armindo [Garcia] e também com todos os paroquianos e todas as pessoas da Ericeira e da Carvoeira. E devo-vos muito por isso. Gosto muito de cá estar e vejo como há tanto que fazer para Deus chegar a todos, desde as crianças do Centro Social aos mais velhos nos Lares. Estar ao serviço de Deus e da Igreja é realmente entusiasmante! A nível paroquial, este ano, com a visita pastoral dos Bispos, a visita dos missionários e a presença de Nossa Senhora da Nazaré, foi um ano cheio de acontecimentos marcantes que nos ajudaram a caminhar na fé.

admiro a coragem dos homens do mar, a sabedoria dos mais velhos e a generosidade de tantos!

Antes de ser pároco na Ericeira já conhecia a vila?

Não conhecia bem. Lembro-me vagamente de ter passado um fim-de-semana em casa de amigos há muitos anos e de ter passeado mais umas poucas vezes por cá e ainda vim com o Padre Pedro e alguns do Seminário dos Olivais. Só quando o senhor Patriarca me nomeou vigário paroquial para a Ericeira e Carvoeira (no princípio de Julho de 2016, logo duas semanas depois de ter sido ordenado padre) é que comecei a reparar em todas as setas que nas estradas e auto-estradas apontavam para a Ericeira e a ansiedade por começar era grande. Ainda vim discretamente em Agosto, na noite da procissão da Nossa Senhora da Boa Viagem, mas na altura os meus planos de passar despercebido fracassaram e o Padre Armindo fez logo questão que eu fosse na procissão, mas a entrada na paróquia foi só no dia 10 de Setembro. Mas devo dizer que ao fim de quase um ano, ainda não conheço bem a vila. Sempre que chego a casa e conto ao Pe. Armindo alguma coisa nova que descobri, ele diz-me sempre: “a Ericeira demora mais de três dias a atravessar”!

Gosto deste ambiente familiar nas ruas

O povo jagoz tem-no surpreendido?

O povo jagoz tem-me acolhido muito bem e tem sementes de fé visíveis até nas ruas da Ericeira, embora em alguns esteja adormecida a ligação à paróquia. E esses que não vêm à paróquia fazem-nos falta! Tenho tido a graça de acompanhar muitas famílias com crianças no princípio da vida nos baptizados e outros jovens a tomar a decisão de casar e outros já no final da vida aqui na Terra, a caminho do Céu – sim, estamos todos aqui de passagem –, e muitos outros com as suas alegrias, tristezas, preocupações e projectos de vida e comove-me ver como muitos reconhecem em mim não apenas o Tiago, mas o padre, em nome de Jesus. Surpreende-me a “lata” das crianças que me tratam por tu e admiro a coragem dos homens do mar e a sabedoria dos mais velhos e a generosidade de tantos!

vejo um perigo na Ericeira

O que mais gosta na Ericeira? E o que poderia ou deveria ser melhorado?

Gosto deste ambiente familiar nas ruas, em que muitas pessoas se conhecem umas às outras, e acho piada que cada um tenha a sua alcunha (não sei qual é a minha… ou talvez seja melhor não saber!). Poder ir todos os dias às ribas ver o mar e rezar é um privilégio que faz bem à alma e gosto especialmente de ir conversando e andando até junto dos pescadores e dos barcos na praia. Mas vejo um perigo na Ericeira: nestes últimos anos, com o boom do turismo e do surf, a Ericeira cresceu e é visitada por muita gente, que importa acolher bem, mas sem nos “vendermos”. Este será um desafio: mantermos a nossa identidade sempre com hospitalidade. E para manter a identidade, não podemos apagar a memória da terra nem a ligação ao mar: os mais velhos têm de ter lugar na nossa Ericeira, temos de manter a hospitalidade com aqueles que nos criaram!

para manter a identidade, não podemos apagar a memória da terra nem a ligação ao mar

Entrou numa fase muito especial: o início das comemorações de Na. Sra. da Nazaré. O que mais o tocou no modo como a população vive esta devoção?

Nunca tinha participado nas festas em honra de Nossa Senhora da Nazaré, nem aqui nem noutras freguesias. Logo na primeira semana fui a uma reunião da comissão de festas e tomei mais consciência do impacto que tem a presença da Imagem de N. S. da Nazaré cá na Ericeira. Aliás, impressiona-me o empenho e a dedicação da nossa querida comissão de festas, que tem trabalhado tanto em honra de Nossa Senhora da Nazaré. A viagem desde S. Pedro da Cadeira e aquelas dezenas de milhares de pessoas no caminho e já na Ericeira embelezada à chegada de Nossa Senhora da Nazaré em Setembro de 2016, as procissões, alguns autênticos milagres e as confissões e conversões que foram acontecendo este ano, as visitas de Nossa Senhora aos pescadores e a Fonte Boa dos Nabos, a devoção dos mais velhos nos lares e das crianças no centro social, tudo isso me fez compreender como somos interpelados por Nossa Senhora para crescer na fé simples, no sentido de pertença à Igreja e no sentido de missão de anunciar Deus a todos e a todos servir.

Padre Tiago Fonseca - ph. AZUL

Por cá nunca é muito fácil angariar fundos para as festas, seja a Nossa Senhora da Nazaré ou da Boa Viagem. Por que será?

Não tenho experiência de outros anos, mas o que posso dizer é que este ano houve várias iniciativas apoiadas pela paróquia e realizadas por parte da comissão de festas ou dos escuteiros e jovens, para angariar fundos, e tiveram muito boa adesão! Concordo que até é um dos pontos em que podemos melhorar enquanto paróquia: proporcionar mais momentos de convívio entre todos. Este ano, devido às obras no salão paroquial, não tivemos tantas possibilidades, mas contamos em breve aproveitar o salão também para esses e outros programas.

tomei consciência do impacto que tem a presença da Imagem de N. S. da Nazaré cá na Ericeira.

Este ano será a despedida de Nossa Senhora da Nazaré. Aguardam-se certamente momentos muito marcantes no final de Agosto e início de Setembro…

Sim, as Festas da Despedida são sempre marcantes, até porque só teremos novamente em 2033! Este ano apostámos em aprofundar o sentido destas festas com duas conferências do Provedor da Santa Casa da Misericórdia da Ericeira (João Pedro Gil) na igreja da Misericórdia: uma sobre Na Sra da Boa Viagem, e outra sobre Na Sra da Nazaré. Já tivemos as festas Na Sra da Boa Viagem, padroeira dos pescadores e da Ericeira. Nas festas em honra de N. S. da Nazaré teremos animação e música, comida, fogo-de-artifício e muita festa (vejam o programa!), bem como a oração de Vésperas, o Terço e a Missa diária, uma procissão das velas e a visita do nosso querido Cardeal Patriarca, que vem celebrar a Missa e presidir à procissão no dia 27. Finalmente, no dia 9 de Setembro teremos a visita de toda a paróquia à Nazaré, acompanhando a imagem de Nossa Senhora. São muitos dias de festa mas queremos que todos aproveitem bem!

O dom da palavra tem muito de inspiração de Deus

Embora seja uma vila relativamente pequena, na Ericeira existem diversas igrejas devotas a outros tantos santos, o que não será assim tão comum em terras com dimensão semelhante. Encontra alguma explicação para tal?

Bom, ao longo deste primeiro ano tenho procurado também conhecer mais a história da Ericeira e as suas tradições. A Ericeira não é assim tão pequena e chegou mesmo a ser concelho! Estas igrejas – S. Marta, S. António, S. Sebastião, S. Pedro e ainda a igreja de Fonte Boa dos Nabos – mostram a vitalidade da fé cristã aqui ao longo de muitos séculos e também as incompreensões e perseguições sofridas. Aliás, o esforço de recuperação desse património é um dos propósitos da paróquia! Essas igrejas e esses santos patronos são uma boa provocação visível para todos nós porque colocam em questão até que ponto a fé em Deus e em Jesus ainda é – ou deveria voltar a ser – o motor central das nossas vidas, como era para esses e muitos dos nossos antepassados.

o Evangelho mostra-nos como é urgente reconhecer que somos pequenos e precisamos de Jesus e dos outros

Na Ericeira consideram que o Padre Tiago Fonseca tem o dom da palavra. Quais são as suas inspirações, os seus oradores de referência?

Obrigado pela simpatia! O dom da palavra tem muito de inspiração de Deus e por isso procuro rezar pedindo luz ao Espírito Santo, antes de cada Missa ou pregação, para perceber o que Jesus quer que eu diga. Com o Cón. Armindo costumo falar sobre isso e procuro ouvi-lo também. E depois a família, o tempo de seminário e os padres que fui conhecendo deixam marcas em nós: ouvi muitos ensaios de discursos do meu pai e da minha mãe, homilias do Pe. Mário Rui, do Pe. Pedro Quintella, do Pe. Ricardo Neves, de muitos outros… Mas consola-me saber que Deus age não apenas em quem fala mas também em quem ouve: às vezes até acho que a homilia não saiu “lá grande coisa” e pode ser essa a homilia mais tocante para alguém porque Deus faz a Sua parte!

o Pe. Armindo diz-me sempre: “a Ericeira demora mais de três dias a atravessar”!

Proferiu um excelente discurso no Clube Naval quando a Na Sra da Nazaré foi visitar os pescadores. A Palavra continua a ser uma importante fonte de ânimo, força e esperança?

A Palavra de Deus, o Evangelho, não é coisa do passado. Deus continua a falar-nos hoje e por isso precisamos de nos “colocar a jeito” para O ouvir! E o Evangelho mostra-nos radicalmente como é urgente reconhecer que somos pequenos e precisamos de Jesus e dos outros. Há uma passagem do Evangelho de que gosto muito em que Jesus faz um discurso sobre Si mesmo que muitos ouvintes não compreendem e começam a ir embora chateados. Nessa altura, Jesus vira-se para os apóstolos e pergunta se eles acreditam nEle ou se também querem ir embora e Simão Pedro responde: «A quem iremos, Senhor? Só Tu tens palavras de vida eterna» (leiam Jo 6)! Esta Palavra de Deus deixa-nos mais livres e animados porque sabemos que estamos nas mãos de Deus e que, aconteça o que acontecer, Deus está connosco, dá-nos mais vida e aponta o caminho para a frente!

 

Gostava de continuar pela Ericeira durante vários anos?

Claro que sim! Mas sei também que o meu dever e a minha vontade é estar onde o senhor Patriarca me pedir!