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O mafrense Diogo da Costa Ferreira é, entre outras coisas, compositor premiado, professor e investigador CESEM – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/UNL & Escola Superior de Música de Lisboa/IPL. Num texto que iremos publicar em três partes distintas exalta como desígnio a centralidade que a Cultura deve ocupar no concelho de Mafra e a necessidade de desenhar e executar uma estratégia clara – e assente em vectores racionais – para este território diversificado e pleno de potencial.
1.
A Cultura é, de facto, um importantíssimo motor de desenvolvimento e de coesão sócio-territorial, assumindo-se como uma dimensão fundamental para o progresso e para a sustentabilidade dos territórios e das comunidades locais.
É preciso ter uma visão estratégica para a Cultura, porque pensar a Cultura é necessariamente pensar o desenvolvimento local e reflectir sobre o território: devemos investir em políticas públicas para a Cultura que adoptem uma visão transdisciplinar e inter-sectorial, promovendo uma relação estratégica com todas as dimensões do desenvolvimento, nomeadamente nos âmbitos económico, social, educativo, comunitário, ambiental, entre outros.
É preciso ter uma visão estratégica para a Cultura, assente numa pespectiva sustentável de desenvolvimento que, partindo das idiossincrasias e dos recursos do território, seja também dirigida para a promoção da coesão sócio-territorial e do sentimento de pertença (diminuindo as assimetrias territoriais, aproximando as pessoas e fortalecendo as comunidades), dos processos comunitários participativos (dando voz aos cidadãos e envolvendo os stakeholders locais), da inclusão social (combatendo as desigualdades e o isolamento), do sucesso educativo e da inovação pedagógica (consolidando aprendizagens curriculares e competências fundamentais), assim como do empreendedorismo – captando investimento e criando empregos altamente qualificados.
Estes desígnios são fundamentais, e, quando estão em causa contextos locais (e regionais), este tipo de visão estratégica torna-se completamente vital e imprescindível: os municípios são – devem ser – a grande força motriz capaz de revelar o enorme potencial da Cultura para o desenvolvimento.
não bastam boas políticas públicas para a Cultura a nível nacional
2.
Em Junho do ano passado, o Encontro Anual da Rede de Cidades Criativas da UNESCO, que se realizou em França, teve como tema central “Cultura e Inteligência Artificial: Moldar o Futuro das Cidades Criativas”, reflectindo sobre a integração da Inteligência Artificial (IA) nos sectores culturais e criativos, assim como a sua influência na gestão e organização dos territórios, tendo sido partilhados exemplos de como as cidades-membro (Cidades Criativas da UNESCO) estão a utilizar a IA para promover a inovação cultural e a inclusão, assim como para apoiar a transformação urbana sustentável. Uma reflexão fundamental – e actual – sobre o papel da IA nos ecossistemas sócio-culturais a nível local e regional.
Um pouco depois, no final de Setembro, realizou-se em Barcelona o MONDIACULT 2025 – Conferência Mundial da UNESCO de Políticas Culturais e Desenvolvimento Sustentável, o maior e mais importante fórum mundial de políticas culturais.
Neste contexto, foi lançado, pela primeira vez, o Relatório Global de Políticas Culturais da UNESCO – uma análise global sem precedentes sobre como a Cultura promove e potencia o desenvolvimento –, sendo também de destacar o painel intitulado “Cidades Criativas, Futuros Sustentáveis: Inovação Local para um Impacto Global”, onde foram apresentados e discutidos exemplos concretos que demonstram o papel e o potencial da Cultura na promoção do desenvolvimento sustentável dos territórios.
Ficou bem patente que não bastam boas políticas públicas para a Cultura a nível nacional, emanadas das estruturas do Estado central: as políticas culturais locais consistentes são absolutamente indispensáveis e imprescindíveis para o país, pois conseguem, por um lado, sustentar o desenvolvimento local e regional, e, por outro lado, produzir um impacto global que transpõe as fronteiras locais.
Todavia, a grande reflexão deste fórum mundial centrou-se na necessidade da Cultura emergir enquanto Objectivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) autónomo na Agenda Pós-2030 da ONU, reconhecendo-se a Cultura como uma dimensão global fundamental para o desenvolvimento: esta é uma reflexão que deve merecer – continuamente – a melhor atenção de quem desenha e operacionaliza as políticas públicas (quer a nível local, quer a nível nacional).
é a nível local que conseguimos ter mais impacto e obter melhores resultados
3.
Ora, falar de Cultura – pensar a Cultura – é isto mesmo: é falar de criatividade, é falar de inovação, é falar de desenvolvimento.
Reflectir sobre políticas públicas locais para a Cultura é, fundamentalmente, pensar o presente e o futuro do território e das comunidades, reconhecendo o inegável poder transformador da Cultura face aos desafios actuais e futuros. Algo menos do que isto é claramente insuficiente.
Quem achar que ter uma estratégia para a Cultura – e ter uma visão estratégica através da Cultura – é simplesmente preservar o património e promover uma série de concertos, de exposições ou de ateliers está completamente enganado. Podem ser realizadas centenas de iniciativas, eventos ou projectos, podem ser investidos milhões de euros: uma visão estratégica vai muito – mesmo muito – além disso.
Neste sentido, reduzir uma estratégia local para a Cultura ao típico binómio “fruição” (exposições, concertos, etc.) e “preservação” (património, etc.) – sem que exista qualquer plano estratégico – é claramente insuficiente e não promove o enorme potencial desta dimensão fundamental para o desenvolvimento. Pelo contrário: acaba, sim, por promover a estagnação e potenciar uma gestão ineficiente dos recursos.
Este binómio é imprescindível, sim: mas não chega. É preciso mais, muito mais. De facto, uma estratégia sólida, mais do que responder à questão “o quê?” (o que fazer), deve em primeiro lugar procurar responder consistentemente às questões “porquê?” (fundamento), “para quem?” (público-alvo) e “como?” (plano de acção): com conhecimento, com método, com estrutura.
Os municípios assumem, aqui, um papel fundamental, pois são as políticas locais e regionais para a Cultura as que têm um maior impacto no desenvolvimento dos territórios e as que produzem melhores resultados junto das comunidades: os melhores exemplos e as acções com maior sucesso – quer a nível nacional, quer a nível internacional – foram implementados e desenvolvidos a nível local. Reiterando uma das máximas abordadas no fórum mundial da UNESCO: “Inovação local para um Impacto Global”.
São os municípios – as políticas culturais locais – que estão na dianteira do que de melhor se faz em Portugal e no Mundo, sendo um óptimo exemplo disso a Rede de Cidades Criativas da UNESCO, que se tem afirmado como uma das estruturas que mais tem potenciado a inovação, o desenvolvimento e a sustentabilidade: as cidades (municípios) que dela fazem parte, nomeadamente em Portugal, têm demonstrado e comprovado o poder transformador da Cultura e das Indústrias Criativas.
Os municípios precisam, assim, de construir e de implementar – com método e com as ferramentas adequadas – uma visão estratégica para o território que assuma a Cultura como dimensão fundamental do desenvolvimento local, uma vez que é a nível local que conseguimos ter mais impacto e obter melhores resultados: uma intervenção assente na proximidade e no profundo conhecimento das idiossincrasias do território.