Camané: “Um dos sítios mais bonitos que temos é a Ericeira”

 

Texto: Hugo Rocha Pereira | Fotografia: AZUL

 

Na Segunda-feira, véspera de feriado, Camané actuou na Ericeira. Após o ensaio de som realizado à tarde, no palco montado mesmo no centro da vila, a AZUL conversou na Casa de Cultura Jaime Lobo e Silva com um dos maiores nomes do Fado contemporâneo. Nesta entrevista começou por falar-se sobre a Ericeira (onde, aliás, reside José Manuel Neto, guitarrista que o acompanhou no concerto) e gostos pessoais, na escrita e na música, havendo ainda oportunidade para entrar noutros territórios, dentro e fora da Canção Nacional.

 

Esta será a sua estreia artística na Ericeira, certo? Pessoalmente, já se tinha cruzado com esta terra? Quais são as suas impressōes sobre a vila?

Sim, penso ser a minha primeira vez a actuar aqui na Ericeira. Conheço bem esta terra, venho muitas vezes à Ericeira. Acho que a vila, que é lindíssima, está fantástica. Um dos sítios mais bonitos que nós temos é a Ericeira.

Conheço bem esta terra, venho muitas vezes à Ericeira.

O José Manuel Neto, que o acompanha regularmente, vive na Ericeira há alguns anos…

Tocamos juntos há 22 anos. Já tenho vindo cá ter com ele, jantar aqui. De vez em quando ele encomenda uns percebes e tal… [ndr: antes do concerto no Jogo da Bola, Camané foi jantar a casa de José Manuel Neto, virtuoso guitarrista que nos últimos anos escolheu a Ericeira para viver quando não se encontra em digressão com os principais fadistas portugueses.]

 

O Fado tem dado voz aos grandes poetas portugueses. Quais sāo os seus favoritos, de hoje e de sempre?

Há alguns de que gosto muito, entre os poetas populares: o Henrique Rego, o Linhares Barbosa, o Carlos Conde. Também gosto muito dos poetas mais eruditos do Fado, ou que também escreveram ou foram adaptados para Fado, como o David Mourão-Ferreira, o Fernando Pessoa. A Manuela de Freitas foi a pessoa que mais escreveu para mim em todo o meu percurso. É uma actriz (não era letrista nem poetisa) que ao longo do meu percurso e da minha carreira tem escrito fados lindíssimos para mim.

Concerto Camané - ph. AZUL

O Camané tem gostos variados, eclécticos e nāo é raro encontrá-lo em concertos doutros géneros musicais. Que concertos lhe encheram as medidas recentemente?

Aqui há dias, em Nova Iorque, vi um concerto do Father John Misty num barracão em Brooklyn e adorei esse concerto! Tenho visto imensos concertos de que gostei bastante: no ano passado fui a Amesterdão ver o Paul Simon, que há dois anos tinha visto a tocar com o Sting em Paris. Gosto imenso de ver concertos. Cá em Portugal também frequento muito os festivais: NOS Alive, Super Bock Super Rock, Misty Fest…

 

Que artistas ouve mais por esta altura?

Gosto de ouvir música e não gosto de ficar centrado num único género. Claro que a minha música é o Fado, que adoro ouvir, mas também gosto muito de ouvir outros estilos musicais. Desde miúdo que oiço, cresci a ouvir diversas bandas… e estão sempre a acontecer coisas novas. Por acaso, este ano não tenho ouvido assim tantas coisas novas. Oiço muito Jazz e música brasileira: Tom Waits, Chet Baker, Frank Sinatra, Bill Evans…

O Fado vive da empatia e da troca

Já participou em projectos musicais pop/rock. Via-se a fazer carreira exclusivamente fora do fado?

Não. Esses projectos tratam-se de coisas pontuais. Nos Humanos fizemos um disco e quatro concertos. Cada um tinha os seus projectos pessoais e ficámos por ali. Não me via a fazer nada sem ser Fado. Tenho feito outras coisas, gravei o disco de homenagem ao David Bowie, em que cantei a “Space Oddity”, cantei com os Xutos & Pontapés, com os GNR. Muitas vezes convidam-me por causa da minha forma característica de canto. Quando fui para a EMI, estavam lá imensos outros artistas portugueses e, de repente, começámos a ligar-nos um pouco através de brincadeiras e colaborações que acabaram por dar alguns frutos.

 

As linhas da vida, especialmente as curvas mais apertadas, sāo fundamentais para tecer um Fado autêntico e profundo?

O Fado vive da empatia e da troca. As pessoas precisam de se rever nos sentimentos, rever a sua vida e o seu quotidiano no que estão a ouvir. Há sempre uma identificação forte com os sentimentos e o quotidiano presente nos fados. E é isso que é importante. O Fado é uma música que vive duma verdade e duma grande autenticidade e isso toca as pessoas.

Ensaio Camané - ph. AZUL

Como é ter irmāos fadistas? Já pensaram gravar ou actuar a três?

Não, são coisas completamente diferentes. Eles têm percursos diferentes do meu. Claro que começaram a cantar por causa de mim, muito depois de mim. Até os meus pais começaram a cantar depois de mim, eu é que influenciei toda esta geração de família para o Fado. Os meus pais eram amadores. Os meus irmãos estão a fazer o percurso deles e têm que fazer o caminho deles. Talvez mais tarde… não gosto de dizer que não se faz: já fizemos uma vez um concerto privado, em que tocámos os três.