Fotografia: Bosc d’Anjou
O Palácio Nacional de Mafra possui uma das mais importantes bibliotecas portuguesas: as suas estantes rococó guardam aproximadamente 30 mil volumes, compostos muitos deles por quase 100 livros, que percorrem uma vasta área de conhecimentos, desde história e arquitectura passando pela astronomia, poesia e literatura de viagens, até à biologia, astrologia e esoterismo, num arco temporal entre o século XV e o século XIX, na sua maioria devidamente encadernados a pele com inscrições a dourado. O jornal Público publicou recentemente um artigo referente à chamada Casa da Livraria de Mafra, que faz parte da jóia arquitectónica e cultural mandada construir pelo Rei D. João V.
“A biblioteca de Mafra é como uma bolha no tempo, está circunscrita, congelada”, afirma Mário Pereira, o director do Palácio. E isso é um ponto muito positivo, uma vez que as obras não são manuseadas a sua organização mantém-se igual ao longo dos séculos, numa disposição quase planificada dividida em dois andares de estantes, com um varandim dos dois lados e no topo, conservadas com a ajuda de morcegos que se alimentam dos insectos responsáveis pela degradação do papel e da madeira.
Aqui se reúnem algumas pistas e curiosidades sobre a Biblioteca de Mafra, que se associa presentemente às comemorações do tricentenário do Palácio Nacional com uma série de visitas guiadas e conferências, iniciativas já iniciadas e que se prolongam até ao final do ano.
Pistas do passado
Esta biblioteca permite-nos, através duma viagem no tempo, aceder ao modo de pensar e ao “estado da arte” do conhecimento na primeira metade do século XVIII, percorrendo várias áreas científicas e do saber.
É possível, também, determinar este aspecto pelos livros em si. Muitas das obras mostram marcas de uso, sejas elas pingos de cera, notas à margem ou conteúdo sublinhado, em contraste com outros que parecem ter acabados de sair da caixa.
“A biblioteca de Mafra é como uma bolha no tempo, está circunscrita, congelada”
Um Rei com um gosto requintado (e caro!)
A bibliotecária Teresa Amaral explicou ao Público que se Mafra inscreve num movimento europeu de constituição de bibliotecas com directrizes muito específicas em documentos que referem os temas imprescindíveis e os autores de referência que se devem comprar. Um Rei como D. João V não queria apenas o que era bom, mas sim o que era melhor. “O rei manda cartas a vários dos seus embaixadores para se informar como estão a ser feitas bibliotecas noutros países e depois ordena que se compre o que de melhor há nos grandes mercados livreiros da época, em França e na Holanda, países onde são leiloadas bibliotecas inteiras com fundos importantes e onde os negociantes têm acesso a verdadeiras raridades.”.
A verdade é que este monarca era exigente (e competitivo), fosse em relação à edições, escultura ou arquitectura. D. João V encarava as encomendas internacionais praticamente como um recurso diplomático que servia para enaltecer e promover Portugal perante as outras cortes europeias.
O Índex
Se a maioria dos volumes que repousam nas históricas estantes da biblioteca Joanina cobrem as mais variadas áreas do conhecimento, outros – mais precisamente 85 estantes no piso superior e 54 no inferior – orientam-nos para temas censurados pela inquisição, os chamados livros proibidos. Ao todo são cerca de 800 volumes, condenados pelo Índex, uma lista de livros que tinha a sua circulação limitada e controlada pela Santa Inquisição.
Embora os livros proibidos estejam presentes em todas as grandes bibliotecas da época, ter a autorização papal para incluí-los nas colecções significava um sinal de grande prestígio, explica Teresa Amaral em relação à bula de Bento XIV de 1754, o motivo pelo qual a biblioteca actualmente apresenta estes livros nas suas estantes. O temas são variados, desde astronomia, astrologia e alquimia à cosmologia e aos ditos “heréticos ou de controvérsia”.
Mafra reúne um espólio incalculável de conhecimento que resistiu à extinção de ordens religiosas, invasões e à República. Acredite ou não, há mais livros nesta biblioteca do que estrelas visíveis no céu.
Pode ler o artigo integral no website do Público.
