Texto: Ricardo Miguel Vieira | Fotografia: Hick Duarte
Ao longo da última década, o colectivo Buraka Som Sistema cunhou um movimento de música dançante que nasceu num quarto nos subúrbios da Amadora e se expandiu pelo globo. Com uma construção sonora eminentemente urbana e integradora, o grupo de Branko, Kalaf, Blaya, Conductor e RIOT tornou-se no centro de um universo orbitado pelos ritmos quentes e fervilhantes que se escutavam nas ruas dos mais diversos destinos tropicais: do zouk das Antilhas ao kuduro angolano, das experiências electrónicas peruvianas aos ritmos afavelados do Brasil. A característica agregadora do conjunto que se despediu de actividades por tempo indeterminado no passado sábado com um Globaile em Lisboa é hoje importante para a reflexão sobre o legado cultural que deixaram em Portugal e no mundo, e que até tem o seu marco particular na história recente da Ericeira. É que, na primeira noite da 8ª edição do Sumol Summer Fest, que encerrou há uma semana, o palco Remix Sound Academy foi pisado por uma série de artistas que emergiram precisamente da esfera de influência dos Buraka Som Sistema: para além de RIOT, que é um quinto dos Buraka, apresentaram-se Rastronaut, que integra o plantel da editora Enchufada, dirigida por Branko e Kalaf, e o Princípe Nigga Fox, que destacámos aqui. E entre estes artistas portugueses, emergiu igualmente a dupla carioca Marginal Men, projecto abrigado pela casa Enchufada.
“O nosso som é uma mistura de baile funk brasileiro com bass music global que acreditamos que é divertida”, descreveram à AZUL-Ericeira Mag os DJs Gustavo Elias e Pedro Fontes, para quem o Sumol Summer Fest foi especial, já que assinalou a estreia de ambos enquanto Marginal Men num festival fora do Brasil. “O que nos atrai é poder aproximar o som do Brasil com as batidas de lugares geograficamente distintos que, ainda assim, podem conversar através da música.”
Provenientes do caldeirão cultural do Rio de Janeiro, os Marginal Men surgiram em meados de 2012 enquanto concorrentes de uma competição de mixtapes promovida pela turma da Tranquera, uma festa pioneira na divulgação do género musical dubstep produzido no Brasil. A dupla posicionou-se no segundo lugar do concurso, embora a conquista maior tenha sido a formação em definitivo de um projecto Do It Yourself dedicado a “fazer as pessoas dançarem”.
No seguimento da competição, o duo carioca tornou-se residente da Wobble, apelidada de “melhor festa do Rio de Janeiro” por Chico Dub, uma autoridade na divulgação da música bass, designação que absorve estilos como o trap, dubstep, grime, entre outros. A iniciativa divulgava não só os registos emergentes do Brasil como ainda acolhia as prestações de artistas que se posicionaram como autênticas referências nos desenhos sónicos que traçavam – casos de elementos da turma Teklife erigida por DJ Rashad e pioneira no género footwork, do havaiano Mr. Carmack, do uruguaio Lechuga Zafiro e também de Branko.
No mesmo ano da explosão Wobble, os Marginal Men alicerçaram a sua evolução em festas de rua que os próprios promoveram em diferentes pontos do Rio de Janeiro. “As festas de rua foram muito importantes para a nossa formação como DJs”, recordam. “Começaram como uma série de festas na Praia do Leme, todas elas memoráveis. Mas a mais marcante aconteceu em Outubro de 2013, quando o Gustavo se casou numa festa numa rua sem saída na Vila Mimosa, num antigo centro de diversões adultas próximas do Centro do Rio.”
Fora dos palcos, o portfolio de estúdio dos Marginal Men foi-se reforçando com remisturas de faixas produzidas, em grande parte, por músicos brasileiros, particularmente MCs como Brinquedo ou Bin Laden, devotos do baile funk. “Crescemos a ouvir baile funk, foi o primeiro género de música electrónica com que tivemos contacto”, sublinham. “Dentro do Brasil, parte do nosso objectivo é buscar o reconhecimento do funk como música electrónica original do país, algo que ainda sofre muita resistência devido ao forte preconceito de classe no Brasil.”
As reinterpretações de Marginal Men, que assumem compassos dubstep ou trap absolutamente electrizantes, podem ser invisíveis no Brasil, mas estão a céu aberto na Internet, em plataformas como o SoundCloud, uma espécie de livraria musical com um arquivo infinito. Os cruzamentos de faixas, chegaram, eventualmente, até Branko, que os recrutou para a turma Enchufada e o nome Marginal Men passou de desconhecido a destaque, por exemplo, em edições da Hard Ass Sessions, a residência da editora na discoteca Lux Frágil, em Lisboa. A emancipação deu-se com a presença em eventos exclusivos da divulgadora Boiler Room e nas páginas da academia Red Bull Music, após figurarem na lista de colaboradores do disco Atlas, registo de estreia a solo do produtor dos Buraka editado no ano passado. “A colaboração com Branko e a aproximação à Enchufada foi a concretização de um sonho”, explica a dupla que, em entrevistas no passado, enfatizou a correlação genética entre o funk brasileiro e o kuduro de Angola preconizado por Branko e pelos Buraka. “Estamos gratos pelas coincidências que nos levaram a essa conexão e estamos muito motivamos para no futuro aproximarmos ainda mais a nossa cena no Brasil a Portugal, e vice-versa.”
Os Marginal Men registaram um acontecimento singular nas suas carreiras com a chegada ao Sumol Summer Fest. Munidos de ritmos estridente, conquistaram o público pela ousadia das experiências que rodam regularmente nos sistemas de som. Quando a AZUL lhes perguntou o que esperavam alcançar na Ericeira, não podiam ter sido mais gráficos na definição da música que espalham pelo globo. “O principal objectivo do que fazemos é sempre levar as bundas ao chão.”