«Três dias, três estilos musicais, três países»

 

Texto: Hugo Rocha Pereira | Fotografia: DR

 

Com a edição inaugural do Ericeira Mundo de Música (EMM) à porta, fomos conversar com a organização deste evento musical que vai trazer uma tripla de concertos com géneros artísticos distintos à Casa de Cultura Jaime Lobo e Silva. Falámos com António Dias, Director da Crowd Agency (empresa instalada na Mafra Business Factory) e Programador do EMM 2018, sobre vários aspectos relacionados – mais ou menos directamente – com o festival que tem início marcado já para Sexta-feira.

 

Falem um pouco sobre cada uma das propostas apresentadas nesta edição inaugural do EMM.

Nesta primeira edição quisemos manter o conceito simples: três dias, três estilos, três países. Foi quase intuitivo começar por Portugal e começar pelo Fado e assim chegámos à fadista Liana, uma artista fenomenal, com um timbre que tem apaixonado milhares em todo o mundo. Para além de cantar desde os 9 anos e ter percorrido vários países como fadista, a Liana vai lançar este ano um novo álbum e estreia em exclusivo no EMM novos temas deste trabalho, o que é para nós motivo de orgulho.
No segundo dia, temos os Manouchka, que são um extraordinário exemplo de jazz manouche, fiel à música de Django Reinhardt, que “incendiava” os bares franceses nos anos 30 e 40. Nós queríamos essa energia, queríamos trazer isso para a nossa primeira edição e felizmente conseguimos.
Para fechar o EMM 2018 não temos só um estilo diferente, temos um instrumento diferente – o Chapman Stick -, um instrumento recente (a sua criação é de 1969 por Emmet Chapman, nos Estados Unidos) e cujo som parece resultar da combinação de um piano, uma guitarra, um contrabaixo e uma harpa. Rodrigo Serrão é um virtuoso stickista, um dos maiores representantes em Portugal, e é um músico muito talentoso.
Mas nesta combinação de artistas, diferentes nos seus géneros, há uma base comum: a qualidade, genuinidade e a capacidade de interacção com o público. Vamos certamente ter momentos em que a nostalgia nos invade e momentos em que a adrenalina nos fará saltar das cadeiras. Estamos seguros da qualidade que propomos e dos espectáculos que vamos oferecer.

Vamos ter momentos em que a nostalgia nos invade e momentos em que a adrenalina nos fará saltar das cadeiras.

Fado, Gypsy Jazz e Chapman Stick: quem viajar por este Mundo de Música poderá alargar horizontes musicais sem sair da Ericeira?

Sim, sem dúvida. Esse é o principal objectivo do EMM 2018, podermos ser transportados e viajar pelas músicas, senti-las verdadeiramente. O Fado é o estilo musical mais conhecido apresentado no festival, no entanto a Liana é uma artista muito completa, que comunica e cativa o público de uma forma muito especial, que coloca a alma no seu canto e toca as almas de quem a escuta. O som dos Manouchka transporta-nos repentinamente para os bares boémios de Paris, e a energia das músicas faz-nos querer dançar ou pular das cadeiras. Finalmente, com o Rodrigo Serrão, um contador de histórias que através das canções e peças instrumentais, com as quais rendilha os seus espectáculos, navega constantemente entre a tradição e a modernidade. Serão garantidamente muitas viagens num só lugar.

Eu vejo no futuro do EMM uma oferta vasta a nível cultural

Por que escolheram a Ericeira para um festival de músicas do mundo?

Historicamente, as primeiras partilhas musicais aconteciam presencialmente (muito antes de qualquer gravação), em locais onde várias culturas se juntavam, como os portos mercantis. Um porto é uma ligação com o mundo. Então a primeira etapa foi simples, queríamos encontrar um local com ligação ao mar. Lisboa, Cascais e Sintra são locais onde existe já uma densa oferta cultural, que nem foram considerados para acolher o EMM. A Ericeira corresponde ao primeiro requisito e está intrinsecamente ligada ao mar, mas também tem tudo o que é necessário para acompanhar o sonho que temos para o Ericeira Mundo de Música. Eu vejo no futuro do EMM uma oferta vasta a nível cultural, com concertos no auditório, nas igrejas, nas praças, no areal, com teatro de rua, teatro no auditório, workshops de músicas do mundo, enfim são ideias que foram semeadas nas nossas cabeças enquanto andamos por outros festivais do mundo e a Ericeira tem um potencial fantástico para realizar tudo isto.

 

São fãs e frequentadores de outros festivais similares com tradição em Portugal, como o FMM de Sines ou o Med de Loulé?

Somos frequentadores destes festivais, mas infelizmente não com a assiduidade que pretendemos, porque a nossa actividade profissional ocupa tanto espaço nas nossas agendas que acabamos por não ter a disponibilidade que gostaríamos. Mas conhecemos os festivais, os directores e programadores. Curiosamente, a maior parte das vezes é mais fácil encontrarmo-nos fora de Portugal, nas feiras de world music.

o nosso objectivo é fazer crescer o EMM

O que os levou a optar por este formato de festival e no final de Abril?

Como já referimos na primeira pergunta, quisemos manter o conceito simples nesta primeira edição: três dias, três estilos, três países. Mas o nosso objectivo é fazer crescer o EMM, não só com mais oferta musical, mas também envolver a vila e ter outras formas de oferta cultural. O auditório será a “casa mãe” e o local a partir do qual o festival ganha asas. O mês de Abril acabou por ser uma escolha natural, que não choca com a programação de outros festivais de música do mundo e com a própria programação da oferta cultural da Ericeira. É também no final de Abril que os dias mais amenos e o sol começam a aparecer, mas a vila ainda não está completamente cheia de banhistas, o que torna toda a experiência muito mais especial.

Queremos envolver toda a vila da Ericeira, com cor e cultura

Gostariam de fazer crescer o EMM para assumir uma dimensão mais festivaleira, ou seja, ao ar livre e com vários concertos (e mais do que um palco) em cada data do cartaz?

Sim, esse é o sonho, como já tivemos a oportunidade de referir anteriormente. Queremos envolver toda a vila da Ericeira, com cor e cultura. Mais oferta musical, em vários pontos da vila, mais oferta artística e cultural, cuidadosamente curada para que seja idiossincrática deste festival.

em 2019 queremos ter novamente o EMM

Há quanto tempo existe a Crowd Agency? Trabalhos anteriores da agência e planos para o futuro, não só durante este ano como mais para a frente?

A Crowd Agency nasceu em 2016, inicialmente pensada para fazer apenas agenciamento de artistas. No entanto, com o trabalho que temos feito com alguns artistas, rapidamente percebemos que o envolvimento teria de ser mais completo, e neste momento não só fazemos o agenciamento e gestão, mas assumimos também o papel de editora.
Ao longo destes dois anos estabelecemos relações com alguns festivais de World Music e programadores de todo o mundo e agenciámos concertos em França, Espanha, Reino Unido, Roménia, Turquia, Finlândia, Suécia; e fora da Europa já levámos os nossos artistas à China, à Austrália, e julgo que fomos a primeira a agência a programar uma tour no médio oriente com concertos consecutivos no Líbano, Dubai e Bahrain. Vamos ter dois lançamentos de disco até ao fim do ano, o que nos dará bastante para fazer ao nível da gestão e agenciamento destes artistas, e em 2019 queremos ter novamente o EMM, ampliar a nossa equipa de trabalho e, possivelmente, iniciar um outro festival em Outubro.

 

Como tem sido a vossa experiência na Mafra Business Factory?

O projecto da Business Factory é muito interessante e, para além de oferecer um espaço físico onde nos estabelecemos e onde é a nossa base, promove também partilhas e sinergias. Temos os serviços essenciais para a exploração da nossa área de negócio e existem muitas iniciativas de valor da parte da Câmara Municipal de Mafra e dos Territórios Criativos para alavancar as empresas e as ideias dos empreendedores. Muitas vezes acabamos por não conseguir usufruir de todas as iniciativas porque passamos muito tempo “na estrada”.