Texto: Hugo Rocha Pereira | Fotografia: DR
Aquilo que, originalmente, seria um artigo com diversas perspectivas sobre as comemorações dos 40 anos do 1º Campeonato Nacional de Surf, realizado em Ribeira d’Ilhas, acabou por se tornar numa entrevista individual que teve por base a mesma efeméride. Felizmente, a única resposta ao repto lançado pela AZUL aos participantes chegou de João Moraes Rocha, Campeão da prova realizada em 1977 e profundo conhecedor (e estudioso) das raízes do Surf Nacional – é, inclusivamente, autor do incontornável livro “História do Surf em Portugal As Origens”. Aqui se desfiam memórias duma “época dourada” e se reflecte, de forma crítica e sustentada, sobre o percurso que desenhou os tempos actuais, neste estilo de vida e na nossa vila.
Que recordações guarda do campeonato de 1977?
Guardo muitas recordações desse primeiro campeonato: a organização do mesmo, a competição, os intervenientes, o próprio dia e as ondas, os festejos que se lhe seguiram, as consequências imediatas. Enfim, um pouco de tudo porque tive interferência directa em todo ele.
só uma comunidade que tem consciência da sua história é verdadeiramente adulta
E quais são as suas impressões sobre as recentes comemorações dos 40 anos desse marco do surf nacional?
A comemoração dos 40 anos do 1º campeonato é uma prova da maturidade do surf nacional. Só uma comunidade que tem consciência da sua história é verdadeiramente adulta, só as crianças e os pobres de espírito não têm consciência da história que os precedeu. Parece ser o caso da Federação Portuguesa de Surf, que se alheou vergonhosamente do evento. Pese o facto de muitos dos intervenientes no 1.º campeonato terem falecido, foi muito agradável rever pessoas que não via desde 77, alguns nem os reconhecia. Foi bom ver que muitos deles ainda fazem surf e que todos gostaram do evento.
cada vez que entro dentro de água levo perto de 50 anos de surf a reboque…
O que representava para si o surf em 1977?
Para mim o surf já vinha desde os inícios de 1970, por isso via nele um desporto arriscado mas algo de absolutamente novo e com grande futuro. Por comparação com os estrangeiros, o nosso surf já justificava competição e presença dos melhores nos eventos internacionais. E tal foi comprovado com os campeonatos internacionais que lhe seguiram.
O que é para si o surf actualmente?
Hoje é uma actividade física especial, cada vez que entro dentro de água levo perto de 50 anos de surf a reboque…
A Ericeira da década de 70 do Século XX não tem nada a ver com a de hoje
Que recordações guarda da Ericeira, no que toca ao surf e não só?
A Ericeira da década de 70 do Século XX não tem nada a ver com a de hoje, nem Ribeira [d’Ilhas] é igual… Hoje tem gente a mais, embora as ondas guardem o seu encanto. Em 70, se houvesse ondas eu estaria dentro de àgua a surfar, hoje não é assim: se estiver cheio de gente, prefiro pegar o meu Kayak K1 e deslizar só…
Em Portugal não se pensa a médio e longo prazo, há que esgotar as galinhas de ovos de ouro o mais depressa possível.
Como vê a evolução da Ericeira e de Ribeira d’Ilhas nestas quatro últimas décadas?
Pobre Ribeira d’Ilhas. Em 70 os bifes chamavam-lhe Little Hawaii, hoje evitam-na com campeonatos a mais e escolas de surf a toda a hora. O free surf está a entrar em crise. Aqui deveria perguntar-se pelo tipo de turismo de surf que se pretende e que escolas de surf são comportáveis. Em Portugal não se pensa a médio e longo prazo, há que esgotar as galinhas de ovos de ouro o mais depressa possível.

