A renovação da tradição do Dia da Espiga

 

Texto: Carina Steinhauser| Fotografia: AZUL

 

Durante um dia em cada primavera, Ericeira regressa às suas raízes e celebra o espírito de partilha e harmonia. Este ano, o Dia da Espiga realiza-se na quinta-feira, 14 de maio.

O Dia da Espiga é uma tradição secular em algumas regiões portuguesas. Quarenta dias após a Páscoa, coincide exatamente com o Dia da Ascensão. No entanto, não é um feriado religioso, mas sim um ritual antigo profundamente ligado à terra e ao ciclo da natureza.

uma verdadeira experiência bonita

Miguel Arsénio cresceu em Ericeira como Jagoz e celebrou este dia durante toda a sua vida. “Para mim, é um sentimento tradicional muito forte.” Na sua primeira memória tinha entre dez e onze anos e acampou na Quinta dos Leitões com um grupo de amigos, começando na noite anterior ao Dia da Espiga. “É uma verdadeira experiência bonita, estar lá fora a olhar para o céu estrelado, a cozinhar a própria comida, a dormir ao lado dos amigos e a ter as primeiras conversas sobre raparigas”, recorda. No dia seguinte passaria com a sua família a partilhar refeições e a jogar jogos.

Tradicionalmente, as pessoas passam este dia nos campos, longe do mar. É um dia de repouso solene, passado com família e amigos em caminhadas, piqueniques e churrascos. O costume terá origem numa tradição pagã e representa a gratidão pelas primeiras colheitas, assim como a transição das dificuldades do inverno para o repouso e a fertilidade do Verão.

À medida que foi crescendo, as noites começaram a transformar-se cada vez mais em festas centradas em churrascos e no consumo de álcool. Até aos dias de hoje, continua a ser uma prática comum entre os jovens da região. Em redor da Ericeira, as pessoas costumam reunir-se na Foz do Lizandro, no Parque de Campismo da Ericeira, na Abadia, no Forte de Milreu ou na Quinta dos Leitões.

O Dia da Espiga é um feriado municipal. Os habitantes locais não têm de trabalhar e costumam passar o dia com os seus entes queridos: família e amigos. Quando Miguel era criança, a Ericeira transformava-se numa cidade fantasma neste dia. As lojas e supermercados fechavam, e as pessoas deixavam o seu quotidiano para trás para se aproximarem da terra e das primeiras colheitas da estação.

Ao longo dos anos, à medida que mais pessoas de fora se mudaram para a Ericeira — que foi crescendo cada vez mais — as coisas começaram a mudar. Ao mesmo tempo, o Espiga tornou-se cada vez mais popular. Para Miguel Arsénio, isto também teve um lado negativo: “Fez-me sentir um pouco alienado e até um pouco triste por dentro ver este evento puro transformar-se numa coisa de negócio, em que as pessoas abriam cafés e bares apenas para obter lucro.”

Parte da tradição consiste também em recolher espigas de trigo e flores silvestres como papoilas ou calêndulas, bem como ramos de oliveira, alecrim e videira. Cada ramo tem o seu próprio significado e deve ser pendurado em forma de coroa, o “Ramo da Espiga”, por trás da porta de entrada como símbolo de sorte e prosperidade na casa.

Os Jagozes continuam profundamente orgulhosos do Espiga

Miguel utiliza a sua garagem no centro da Ericeira como um espaço para desenvolver a sua paixão pela pintura e pelo desenho. Diz que os Jagozes continuam profundamente orgulhosos da tradição da Espiga. Para eles, trata-se de uma reconexão anual com as raízes e a natureza da região, transmitida de geração em geração. O grupo de pessoas com quem ele passa o Espiga reúne-se apenas uma vez por ano. São os seus “amigos da Espiga”.

O Dia da Espiga é um dia de partilha, de desacelerar e simplesmente estar junto. “Hoje em dia as pessoas estão tão ligadas e presas aos seus dispositivos que acabam por se esquecer de que também precisam de tempo de lazer, de descanso e simplesmente de aproveitar”, diz Miguel. Ele acredita que, nos dias de hoje, esta data pode ser mais importante do que nunca.

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