Comunhão Alternativa para uma imensa minoria

 

Fotografia: AZUL

 

No Expresso / Blitz já lhe chamaram “concerto do ano”, embora ainda estejamos a mais de nove meses do final de 2026. Exagero? Força de expressão ou reacção a quente de Paulo André Cecílio aka PAC?! É o que veremos nos próximos parágrafos e, obviamente, ao longo dos meses vindouros.

Em 2011 entrevistei para o Bodyspace, site de música onde o mesmo PAC afiou a sua escrítica, Guillermo de Llera (à data o único membro “sobrevivente” da formação original de Primitive Reason, banda com raízes em Cascais) e Abel Beja. Curiosamente, naquele ano da segunda década do Século XXI, o núcleo criativo de uma das formações musicais mais criativas e marcantes da última década do Sec. XX português já se havia mudado de armas e bagagens para o concelho de Mafra… e o fundador considerava a vila dos ouriços «um sítio a entrar em ebulição”, com “uma energia tipo faroeste, a cena da última fronteira, que é boa para a arte – e a Ericeira lembra-me um bocado essa energia que havia em Cascais: “vão acontecer aqui coisas, isto está a mudar, há possibilidades”.»

este não foi apenas mais um concerto, mas algo bastante especial e único

Os Primitive Reason celebraram Sexta-feira, no Lisboa ao Vivo (LAV), mais do que os 30 anos do lançamento de “Alternative Reason”. Eles, os fãs de sempre (como eu, que acompanho a banda desde a primeira actuação ao vivo, no Ruína Bar, a 11 de Setembro de 1993) e alguns neófitos comemoraram também uma carreira musical ímpar.

O álbum de estreia e a banda cruzam, de forma original e fluida, géneros musicais, misturando ritmos tribais, ska, punk/hardcore, afro, metal, rock alternativo e outras tendências que sempre os tornaram difíceis de rotular, convocando adeptos oriundos das mais diversas origens mais ou menos marginais. Música (experimental) para uma imensa minoria, portanto.

A Guillermo e Abel juntaram-se em palco Brian Jackson (o vocalista vindo dos Estados Unidos da América não poupou mimos aos “Nazi Trumps”), o baterista Jorge Felizardo e o saxofonista Mark Cain – apenas o guitarrista Mikas não compareceu à chamada.

Se o concerto arrancou bem, com “Bobo Grey” e “The Mind (Nature and Nurture)”, a dinâmica do mesmo revelou-se imparável. Além de terem tocado na íntegra “Alternative Prison”, com malhões como “The X in X” ou “Hipócrita” para vibrar, pular, fazer crowd surf, andar numa roda viva de corpos aos encontrões e dançar – não só mas também “Seven Fingered Friend”, o hit dos hits -, ainda colocaram no alinhamento originais e versões mais ou menos obscuras, como “Hip” ou “Yellow Submarine” (sim, essa dos Beatles), que apenas terei ouvido no ano da graça de 1993. O inevitável encore inclui um momento que define a comunhão da noite: Jorge Felizardo abandonou a bateria para durante uma música ir para o meio do público com o microfone, numa perfeita simbiose em movimento entre quem estava no palco e aqueles que conseguiram bilhete para um gig “Sold Out”, outro dos temas que provocaram um sismo na capital portuguesa.

Concerto terminado, a banda chegou-se à boca do palco, juntando-se para uma sucessão de vénias ao público, que a brindou de forma grata e calorosa. O que tínhamos acabado de presenciar não foi apenas mais um concerto, entre as centenas que deram ao longo de mais de três décadas, mas algo bastante especial e único.

Vimos brilho nos olhos de todos os membros da banda e êxtase em muitos rostos do público, com uma corrente inesgotável de energia a circular pelo LAV nesta Sexta-feira 13 de óptima memória. “Concerto do ano” é algo obviamente subjectivo, mas uma coisa é certa: para quem fez parte desta celebração a ocasião será irrepetível e o espectáculo difícil de superar. Não só em 2026 como durante muuuito tempo – ou talvez não…

Enquanto escrevo este texto dou por mim a pensar em como a memória é curta quando se considera a época actual uma espécie de pináculo da música portuguesa em termos de criatividade, qualidade e variedade: com “Alternative Prison” os Primitive Reason ganharam os principais prémios de música nacionais da altura (promovidos pela Blitz) para melhor banda revelação e melhor single – por “Seven Fingered Friend”, pois claro. Além de terem representado uma autêntica pedrada no charco do panorama musical português, que outra banda groundbreaking conciliou de tal forma uma visão artística com forte identidade com amplo reconhecimento da crítica especializada e sucesso comercial?!

Como partilhou Guillermo na tal entrevista de 2011, estamos perante “uma banda que teve sorte de estar no mainstream mas sendo uma banda artística e não uma banda de produto.” O segredo não passa apenas por misturar – ou baralhar – e voltar a dar.