Texto: Carina Steinhauser | Fotografia: Pedro Machado
Já passa das 23 horas estou à porta de um quarto a discutir com uma mulher adulta semi-nua, e pergunto-me o que é que estou aqui a fazer. Nesta altura já devia estar sentada num Uber com os outros voluntários, a caminho de um bar.
Pela segunda vez consecutiva estou a trabalhar como voluntária num surf camp na Ericeira. Pouco depois de me despedir do meu emprego, no ano passado, consegui passar aqui quatro meses e apaixonei-me. Não por um homem, isso nunca me passaria pela cabeça, mas pelo camp, pela Ericeira e pela vida que este lugar me oferecia.
a mulher está deitada numa cama onde não deveria estar, com o edredão puxado até às axilas
Este ano [ndr: 2025] consegui tirar dois meses e meio para voltar ao meu sítio preferido. Quando regressei tudo continuava lá: o quarto dos voluntários, com seis camas, onde o ressonar e os despertadores mandam nas horas do dia, o grande lagarto chamado Gregory que vive debaixo do frigorífico exterior e o cozinheiro que abastece o camp com boa comida e palavras de sabedoria.
Os voluntários trabalham cinco horas por dia, seis dias por semana, e em troca recebem alojamento, refeições e material de surf. As tarefas vão desde preparar o pequeno-almoço e limpar casas-de-banho até cortar a relva ou organizar um torneio de beer pong. Nunca é aborrecido. Mas, mesmo trabalhando num sítio de férias, os problemas do dia-a-dia não ficam em casa.
A mulher está deitada numa cama onde não deveria estar, com o edredão puxado até às axilas. Ela está a irritar-me, mas mantenho-me cordial. Este quarto, na verdade, pertence ao Ole, um hóspede que chegou há apenas uns minutos. A mulher decidiu ocupar o quarto dele porque gostou mais dele do que do seu antigo lugar para dormir. Claro que este é mais caro e ela não o pagou. Mesmo quando o novo hóspede se junta à nossa discussão, ela recusa-se a mudar de cama.
Enquanto voluntária, estou sempre disponível para falar com os hóspedes, mas isso normalmente resulta em boas conversas e ligações inesperadas. Quando preciso de um pouco de paz, tenho de sair do camp e escolher entre as possibilidades infinitas da Ericeira: caminhar pelas falésias até à praia de São Julião, remar mar adentro no Atlântico ou sentar-me num dos pequenos cafés do centro da vila a ver a vida a passar sobre a calçada.
este lugar apresentou-me uma sensação única que me vai trazer sempre de volta
Na Ericeira tudo é um pouco mais lento, um pouco mais cool e mais azul. É claro que é fácil romantizar a vida aqui, já que não tenho de ganhar a vida com um salário português nem pagar renda. Mas, estando eu neste momento a viver o Inverno alemão, apreciaria de certeza mais horas de luz e uma brisa do oceano.
O Ole, já totalmente em modo de férias, acaba por me salvar ao oferecer-se para dormir noutra cama nessa noite. Com ele a juntar-se ao grupo, seguimos finalmente para o bar Neptuno. Todos pedimos uma bebida, sentamo-nos numa mesa redonda e começamos a jogar às cartas. É uma boa noite. Rimo-nos, competimos e entornamos uma cerveja.
Esta memória resume bem o meu tempo como voluntária na Ericeira. Lidar juntos com situações caóticas e, a seguir, beber uma cerveja. Este lugar apresentou-me a uma comunidade incrível, novos amigos dentro e fora do camp e uma sensação única que me vai trazer sempre de volta.
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