Fotografia: DR
José Maria Pyrrait lançou um desafio a si próprio. Em 30 dias, quer percorrer toda a costa portuguesa numa prancha de stand-up paddle. Aos 60 anos e a viver com diabetes tipo 2, o treinador de surf de classe mundial está determinado a mostrar que nada o consegue parar. No total, Pyrrait irá passar entre 7 a 10 horas por dia na água. Levará snacks consigo na prancha para ajudar a regular os níveis de açúcar no sangue. Nesta entrevista à AZUL – Ericeira Mag, José Pyrrait fala sobre o percurso que o levou até este projecto e partilha os seus pensamentos antes do início da aventura.
Como começaste a surfar?
Sempre tive uma ligação muito forte ao oceano. Quando tinha nove anos, a minha família mudou-se para o Rio de Janeiro, no Brasil. Cheguei ao Rio no dia 22 de Dezembro e, no Natal, o meu tio ofereceu-me uma pequena prancha. Comecei a usá-la no próprio dia e, em Agosto (do ano seguinte), comprei a minha primeira prancha de surf. Comecei a surfar e nunca mais parei.
Porque decidiste mudar-te para a Ericeira e ficar lá?
Em 1982, comecei a vir à Ericeira para surfar. As ondas aqui são incríveis. Comecei a trabalhar como fotógrafo na área do jornalismo e fui para Angola cobrir a guerra civil. Mais tarde mudei-me para os Açores, onde vivi durante seis anos, casei e tive o meu filho mais novo. Tenho dois filhos do meu primeiro casamento, por isso decidimos voltar para Portugal continental para que os meus filhos pudessem crescer juntos. Sempre disse que, se voltasse ao continente, só me conseguiria imaginar a viver na Ericeira.
Treino a minha mente para continuar quando me sinto cansado
Como entrou o stand-up paddle na tua vida?
Há cerca de 20 anos, o pessoal da Semente, o Nick Uricchio e o Miguel Katzenstein, começou a fabricar pranchas de stand-up paddle. Eles deram-me uma para experimentar e comecei logo a gostar. Para a condição física é muito bom, é um exercício bastante completo. É uma forma diferente de surfar. Estás sozinho contigo próprio, a observar o oceano, tudo à tua volta é branco. É incrível. Consegues ganhar muita velocidade e surfar as ondas em mar aberto. Antes de descobrir o stand-up paddle, nunca surfava em dias de vento. É uma forma diferente de continuar em movimento no oceano.
Porque surgiu a ideia de percorrer toda a costa portuguesa?
Gosto do desafio. Acho que é muito importante sair da zona de conforto. Passei a vida inteira a fazê-lo porque é assim que aumentas a tua zona de conforto. E eu adoro o meu país. Adoro Portugal. Adoro a costa portuguesa e acho que isto pode ser muito interessante.
Como te estás a preparar?
Tenho-me preparado a vida toda. Comecei nas artes marciais aos cinco anos. Tenho uma boa formação militar e sempre tive uma disciplina muito forte. Treino todos os dias. Acordo, faço algum exercício e surfo sempre que posso. Por isso, acredito que não precisas de uma preparação específica. Ao longo da vida, tens de estar preparado para tudo. E a mente é algo muito importante. Podes ter a melhor preparação do mundo, mas se a tua mente for fraca, nunca vais conseguir alcançar nada. Treino a minha mente para continuar quando me sinto cansado.
O que será mais difícil: o desgaste físico ou mental?
É realmente um equilíbrio entre o corpo e a mente. Porque sei que, a certa altura, o meu corpo vai sentir-se muito fraco. E, às vezes, a tua mente é tua amiga, mas outras vezes é tua inimiga. Vai começar a dizer: “Por favor, desiste. Podes parar agora. Vai relaxar. Volta para a tua família, para a tua zona de conforto. Come um grande bife.” Às vezes, no meio do oceano, falo comigo próprio e digo: “Cala-te, pá. Não quero ouvir essa treta.” Por isso, a mente e o corpo têm uma ligação muito forte. Como dizem os gregos: corpo forte, mente forte.
Em que pensas enquanto estás sozinho na água durante tanto tempo?
Acho que o tempo que passas sozinho é muito importante. Eu adoro isso. Quando estou a remar, estou focado no oceano. Às vezes tenho medo porque vou muito longe da costa. Mas quando começo a sentir medo, mudo a minha mentalidade. Porque de que é que tens realmente medo? Medo de morrer? Porquê? Toda a gente vai morrer. Então, às vezes olho à minha volta e penso: “Este é um lugar incrível para morrer.”
Quando é que vais comer? Onde vais dormir?
Vivo um dia de cada vez. Para já, vou dormir numa caravana. Mas estou aberto ao apoio de restaurantes e bares de praia.
Se lutares contra o oceano, perdes
O que é que a tua família acha do projeto?
A minha mulher vive comigo há 35 anos. Ela conhece-me. Às vezes não gosta muito das minhas ideias, mas respeita-as sempre e dá-me o apoio de que preciso. Os meus filhos apoiam-me sempre, os meus pais acham sempre que sou maluco.
Que partes do percurso serão as mais desafiantes?
Acho que as zonas mais difíceis são os cabos. Cabo Mondego, Peniche, Cabo da Roca, Cabo Espichel e Sagres. Quando passas as falésias, podes ficar muito longe de terra e há sempre ressaca do mar. Quando estou cansado, isso torna-se pesado. Mas mesmo que a ressaca me empurre demasiado, ou que uma corrente me leve para fora, eu volto. Se lutares contra o oceano, perdes.
As aulas de surf gratuitas para pessoas que não têm acesso ao mar fazem parte do projeto. Porquê?
O surf é um desporto muito elitista. Não é para toda a gente. Só certas partes da sociedade têm esse privilégio. Quero trabalhar com um grupo de estudantes que não pode pagar aulas de surf. Espero que, um dia, consiga ajudar uma destas crianças a viver do surf e a tornar-se um grande campeão.
O que gostavas que as pessoas aprendessem ao acompanhar este desafio?
Os limites existem para serem ultrapassados. Não acredites quando as pessoas dizem que algo é impossível.
Do que é que estás mais ansioso?
Tudo. Quero começar. Quero passar por isso. Quero terminar. Estou curioso para saber o que vou sentir.
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