Texto: Ricardo Miguel Vieira | Fotografia: Rita Quelhas
Uivo é uma curta-metragem que retraça a presença de um passado numa casa da serra de Sintra. É o espelho subjectivo de um antigamente visível nas pegadas, na natureza mística da serra, nos elementos que são testemunho material das vidas que por ali se escreveram e que põem em perspectiva um sentimento de perda. Sentimento esse entregue ao instinto de dois caninos, por entre os sopros, silêncios e reminescências de um universo já não existente, embora corporizado pelo cinema.
Durante quatro meses, a cineasta Rita Quelhas trabalhou no documentário onde cabem várias décadas de vidas. A dela inclusive. A casa que empresta cenário a Uivo é herança familiar e são incontáveis as tardes de brincadeiras naquele ambiente natural e novamente imesuráveis os minutos em que ali parou apenas para observar, para contemplar, para reflectir no que foi e no que é aquele espaço na serra de Sintra.
O resultado dessas observações está naquele que é o primeiro filme da realizadora natural de Lisboa, e com fortes ligações à Ericeira, a chegar ao grande ecrã. Uivo integra a secção Verdes Anos do Festival de Cinema Documental de Lisboa (DocLisboa), em projecção amanhã, às 14 horas, no Cinema S. Jorge. A AZUL trocou umas palavras com Rita Quelhas para saber um pouco mais sobre esta produção e de que modo a Ericeira a influencia enquanto realizadora de cinema.
UIVO
“O título Uivo nasceu porque é como se estivesse presente no filme, numa camada muito subterrânea; um latido que vem de muito longe e apesar de estar muito baixinho vai-se espalhando pelo filme e contagia tudo à sua volta, como o “om” do budismo e do hinduísmo. Som este – metafórica e literalmente falando – que ou apenas é reconhecido pelos cães, ou é um eco dos seus próprios latidos, ou algo mais.”
PERDA
“A perda é um tema que tem vindo progressivamente a interessar-me no seu sentido mais amplo. Não uma perda específica, mas a perda em geral, pois à medida que avançamos na vida, qualquer um de nós vai deixando camadas, pedaços e pessoas para trás, como um pequeno caminho de pedras. Mas o mais interessante nisto é que estas perdas acabam por nos transformar e não ficam simplesmente contidas no passado. Elas reflectem-se no futuro e deixam marcas que não desaparecem. Sendo este um sentimento até certo ponto universal, interessa-me bastante a potencialidade do cinema de corporizar o imaterial, daí o constante interesse em trabalhar numa vertente mais expressiva do cinema. Contudo, isto não é uma curta exclusivamente sobre a perda. Esse foi o meu ponto de partida, a sensibilidade e o ponto de vista com que parti para o terreno, mas a partir daí foram-se revelando novas relações entre as coisas e novos aspectos foram despontando, os quais prefiro deixar ao espectador para desvendar.”
REFLEXÃO
“Na verdade não sei que público a curta vai ter, uma vez que este é apenas um pequeno filme, uma pequena nota minha. Acho que o mais interessante na sua recepção, pelo menos junto de amigos que acompanharam o processo de realização do filme, é que este é susceptível de várias interpretações, estando todas elas, ao mesmo tempo, certas. Por ser um filme cheio de possibilidades, tendo um subtil fio condutor que suscita toda uma rede de ideias e sentimentos à sua volta, acho interessante como as pessoas reflectem a sua subjectividade no que vêem e conseguem chegar a um sítio muito mais longínquo e profundo do que o ponto de partida poderia ser à primeira vista.”
SIMBOLISMOS
“Os cães não simbolizam nada, eles são o que são. O que eu filmei deles é verdadeiro – eles desatam a correr do nada e param repentinamente; eles fitam um qualquer ponto desconhecido e depois adormecem; eles andam sempre à volta das casas onde estiveram pessoas. É isso que me interessa, não pretendo dar-lhes significados ocultos que eles não têm. Procurei trabalhar com o espaço e com os cães duma forma muito espontânea e genuína e o facto do filme ser um documentário de cariz expressivo não significa que esteja a criar uma teoria ou uma simbologia nas coisas. O espírito místico da serra de Sintra é inegável e a forma como os cães reagem na ausência dos seus donos é universal. Estas coisas existem, e neste caso passaram pelo filtro da minha subjectividade, mas não deixam por isso de ser menos verdadeiras. Espero que as pessoas não fiquem à procura de simbolismos, mas tentem compreender e sentir o que é aquilo que estão a ver; o que é um cão absolutamente imobilizado a olhar para o nada, o que se sente quando no meio da serra silenciosa passa uma enorme e forte brisa de vento.”
SINTRA
“Sempre fui para Sintra desde pequena e os meus sentimentos em relação àquela casa e à serra foram mudando com o tempo. Se dantes era um sítio onde me aborrecia facilmente nos tempos livres e também onde me lembro de passar muitas férias com a família toda, agora é um espaço onde posso encontrar algum sossego. Lá o tempo passa de forma diferente e sinto ter espaço para simplesmente parar e olhar e é isso mesmo que penso que também se reflecte no meu filme: uma completa imersão num espaço e numa forma inteiramente diferente de experienciar o tempo na mística da serra que parece estar preenchida de tudo o que por lá já passou e que deixa tudo à sua volta num estado estranhamente calmo e hipnotizado.”
ERICEIRA
“A Ericeira é outro sítio que, tal como Sintra, eu conheço desde pequena e onde sinto que o tempo passa de forma diferente. Apesar de ser muito diferente da mística de Sintra, também na Ericeira, ao passar pela praia e ver os senhores parados e sentados calmamente a olhar para o mar e os gatos a dormirem sem nenhuma preocupação, sinto que regresso a uma espécie de tempo completamente fluído e sem preocupações, que apenas vivemos plenamente durante a infância. E se em Sintra podemos falar das árvores, dos galhos dos ramos que parecem conduzir e pontuar o filme, na Ericeira podemos falar do mar.”
