Paula Rego foi uma das “Vinte Grandes Mulheres do Século XX”

 

Fotografia: DR

 

Marie Curie, Virginia Woolf, Coco Chanel, Agatha Christie, Frida Kahlo, Simone de Beauvoir, Bette Davis, Madre Teresa de Calcutá, Eva Perón, Sophia de Mello Breyner Andresen, Amália Rodrigues, Agustina Bessa-Luís, Marilyn Monroe e Maria João Pires são algumas das ilustre mulheres que fazem companhia a Paula Rego na capa do livro escrito por Inês Pedrosa e prefaciado por Eduardo Lourenço e editado pela Sibila Publicações em Junho de 2021, alguns meses após a morte do ilustre pensador, filósofo e ensaísta, autor entre muitas outras obras do incontornável “O Labirinto da Saudade”.

Na contracapa pode ler-se que “o Século XX marcou a entrada das mulheres na Históriae pôs fim à crença segundo a qual as mulheres «eram aquela metade de uma espécie de mamíferos que se destina aos nascimentos». Ainda estamos a sentir o impacto desta mudança profunda, que abriu às mulheres o mundo do trabalho e do poder, aos homens o mundo dos afectos, e a ambos a nova aventura da intimidade. Foram felizmente muito mais de vinte mulheres que marcaram o mundo neste primeiro século de emancipação. Muitas outras podiam ter cabido neste número redondo, que serve apenas como marco dos dezanove anteriores séculos de silêncio.”

a quinta da Ericeira era um lugar encantado

A obra de Paula Rego, provavelmente a maior artista portuguesa do Século XX e das duas décadas iniciais do actual século – nasceu a 26 de Janeiro 1935, vindo a falecer no dia 8 de junho deste ano -, irrompe contra o silêncio como um relâmpago no breu nocturno, pintando “a verdade”, como surge escrito no título do ensaio biográfico que lhe é dedicado.

Este capítulo do livro de Inês Pedrosa resume em apenas dez páginas o extenso e rico percurso biográfico e criativo de Paula Rego… o suficiente, ainda assim, para que a Ericeira surja destacada em diversas ocasiões. A sua obra “impõe-se-nos pelo indomável poder da autenticidade” e o “universo de mulheres, terno e grotesco, encantado e doloroso, onde os extremos coincidem e a verdade dura dos corpos se expõe, sem culpa nem pudor” desenvolveu muitas das suas raízes a partir desta vila à beira-mar plantada.

Filha única, em 1936 (ou seja, com apenas um ano de idade) os pais partiram para Inglaterra (onde o pai, José Fernandes Figueroa Rego – os dois últimos apelidos dão nome à quinta familiar na Ericeira), foi terminar a formação de engenheiro electrotécnico) e “Paula ficou, alternadamente, em casa dos avós paternos, que lhe davam liberdade e fantasia, e da tia materna uma mulher ressentida e infeliz que a espartilhava em regras e desalento.”

Mesmo enquanto viveu no Estoril, – em 1938 teve um princípio de tuberculose que fez os pais mudarem-se de Lisboa para a Linha, onde morou até aos 16 anos – os Verões eram passados com os avós paternos na quinta da Ericeira, “um lugar encantado com uma avó cheia de pintainhos nos bolsos, uma cozinha de histórias infinitas que exorcizavam os medos através da imaginação. E na cave dessa casa o pai de Paula fizera um cinema, onde mostrava filmes importados – do Charlot ao Rato Mickey, que deslumbrou a minúscula Paula.”

regressaria à Ericeira já na companhia de Vic Willling, com quem viria a casar em 1959

O odor vivo da maresia e o cheiro a bolor dos quartos, à chegada à Ericeira, eram o sinal do princípio do Verão. “Manuela, uma prima que lhe servia de irmã mais velha nesses Verões da Ericeira (e que lhe serviria também de modelo, para um conjunto de desenhos a tinta-da-china que fez em 1966, depois da morte do pai) lembra-se de que Paula inventava histórias de fantasmas e esqueletos, de tal forma assustadoras que nem conseguia acabá-las.”

Aos 17 anos foi estudar Artes Plásticas para Londres, onde se viria a apaixonar por Victor Willing, com quem voltaria para a Ericeira já após o nascimento da filha Caroline, que nasceu em Inglaterra. «Passávamos o tempo a trabalhar. Tínhamos lá uma adega dividida ao meio e eu trabalhava num lado, eu no outro. Eu pintava e desenhava, desenhava, desenhava, desenhava. (…) Estávamos um bocado isolados, não conhecíamos ninguém. Íamos ao hotel da Ericeira para estar com uns ingleses porque o Vic não falava português. Conhecemos até gente muito interessante. Fazíamos piqueniques, era uma vida!… Bebia-se bastante. Depois conversávamos muito, discutia-se tudo. Mandávamos vir livros de fora. Eu li todo o Dostoiévski, li o Scott Fitzgeral, li tudo nessa altura. També livros eróticos – L’Histoire d’O, Henry Miller, tudo isso… Era muito bom! E no Verão chegavam os amigos da Inglaterra.»

Assim viveram ao longo de cerca de seis anos, entre 1957 e 1963, quando Vic começou a dar aulas em Londres – durante esse período iam apenas a Inglaterra para os partos de Victoria (em 1959, ano em que o casal casou finalmente) e Nicholas, que a AZUL entrevistou em 2017.

Paula pintou em grande a mais melancólica das danças, um par vogando na imobilidade da paisagem do paraíso perdido da Ericeira

Os tempos felizes do casal e de Paula não durariam muito mais: em 1965 Vic teve um ataque cardíaco e no ano seguinte despediu-se do seu pai e do seu sogro, tendo Vic adoecido com o diagnóstico de esclerose múltipla. A década seguinte seria ainda pior: em 1975 a empresa herdada do pai foi expropriada no período posterior à Revolução de Abril; e em 1979 chegou uma machadada que a viria a marcar para sempre – “viu-se obrigada a vender a mítica casa da Ericeira, por absoluta necessidade de dinheiro.”

A Dança, 1988, Paula Rego

Em 1988, trabalhava em “A Dança” (cuja acção decorre com o Forte de Milreu como pano de fundo) quando morre o marido, que lhe havia sugerido que pintasse esse quadro, como noutras vezes acontecera quando as ideias se lhe esgotavam – «Pinta gente a dançar», dissera-lhe ele. “E Paula pintou em grande a mais melancólica das danças, um par vogando na imobilidade da paisagem do paraíso perdido da Ericeira”. Quando Vic faleceu teve de aprender a dispensar esse eco reconfortante e a acreditar mais do que nunca em si mesma e no seu trabalho.

O “paraíso perdido da Ericeira”, ao qual a vida e obra de Paula Rego se encontram ligados de forma visceral – até mais do que umbilicalmente – foi a memória mais forte que esta enorme mulher guardou até ao final da sua existência terrena… a sua Obra perdurará para lá de quem não lhe fez a devida Justiça em vida.