«Viver na Ericeira»

 

Fotografia: Immersion/Aleksandra Yurchenko

 

Sei bem que tenho uma condição de privilégio. Sei-o a cada dia que tomo as ruas desta vila, às vezes levada pelo vento, embalada pelas vozes desta gente de cara sempre virada para o Mar. Os jagozes fazem barulho quando trazem a sua presença e eu gosto disso. Parece que andam sempre de orgulho no peito, sem pejo de se afirmarem, e eu gosto disso.

Bom, mas viver na Ericeira não é gostar de uma idílica vila à beira mar plantada. É antes surfar as fintas que a meteorologia faz, trazendo o Verão no Inverno e alguma intempérie no Verão; é suportar as noites frias e húmidas o ano todo, porque haverá uma meia dúzia delas, no decurso de um ano, que vão fazer valer todos os agasalhos.

nada supera esta maresia que nos arrebata mesmo antes de poisarmos o olhar sobre o azul salgado

É deixar cair por terra qualquer planeamento de uma quinzena de praia em pleno mês de Agosto, sem pena, porque se ganham aqueles gloriosos dias de Inverno em que o céu se limpa e o Sol brilha sobre aquele mar que liberta um odor como nunca cheirei. Nunca. Em nenhum sítio onde tenha ido vi um mar que se pudesse vangloriar de ter este cheiro. Nada supera esta maresia que nos arrebata mesmo antes de poisarmos o olhar sobre o azul salgado. Talvez um dia possa encontrar um sítio que cheire assim, a mar, mas não até agora.

A repetição não desvanece o encanto. Sei lá como, ou porquê.

antes quero uma cabana com mar que um castelo sem mar

Quando, nas minhas reflexões, penso que não gostava de viver longe do mar, que antes quero uma cabana com mar que um castelo sem mar, penso também naqueles que nunca viram o mar. Há gente que nunca viu o mar, nunca sentiu o seu cheiro, nunca mergulhou nas suas águas.

Mas quem vive junto do mar e seja do tipo atento, como eu, pode ter o sortilégio de observar alguém que vê o mar pela primeira vez.

este mesmo bafejar do eterno faz-se sentir de cada vez que vejo um pôr-do-sol nesta terra hipnótica

Tratando-se de um adulto que olha o mar pela primeira vez, o deleite do observador é ainda maior: quando se vê um homem feito poisar os seus pertences pouco balneares na areia, numa excitação pouco adequada à primeira vista, virar-se para o mar imenso, encher o peito de coragem e avançar, num misto de temor e fascínio, o espanto perante a vida acontece. E avança no azul líquido e pode nadar! Num pequeno frenesim, braceja. Não sai do mesmo sítio. Manda água aos companheiros e solta aqueles risos de estupefacção misturada com nervosismo. É uma criança. Chapinha. Saiu da cronologia da sua vida e voltou a ser criança, deslumbrado. Viu o mar e banhou-se nele. Pela primeira vez. E eu sinto-me uma espécie de falsa milionária por ter visto isto. Vi e guardei no coração.

Há um traço de eternidade naquele momento de puro gozo, despido de qualquer convenção. Uma alegria tão genuína. E, sei lá como, este mesmo bafejar do eterno faz-se sentir de cada vez que vejo um pôr-do-sol nesta terra hipnótica, como se fosse a primeira vez.