Uma Espiga Diferente

 

Fotografia: Márcio Barreira

 

Tal como quase tudo o resto, também o Dia da Espiga (este ano a quinta feira da Ascensão acontece no dia 21 de Maio, ou seja, já depois de amanhã) será vivido e celebrado de forma necessariamente diferente em 2020.

Com a actual pandemia causada pelo novo Coronavírus, causador da doença Covid-19, não são apenas os eventos de cariz mais institucional (sejam eles de âmbito cultural, desportivo, recreativo, social ou religioso) que se encontram cancelados ou, pelo menos, adiados.

os ajuntamentos, ainda que ao ar livre, continuam proibidos

Também uma data festiva como a Espiga (o feriado municipal do Concelho de Mafra junta, tradicionalmente, centenas de pessoas, entre familiares, amigos e desconhecidos, num espírito comunitário ímpar) terá que sofrer as devidas adaptações e reformulações mais ou menos criativas.

Embora a Espiga seja, por excelência, um evento ao ar livre, os ajuntamentos com mais de dez pessoas continuam proibidos, sendo necessário manter o devido distanciamento social para evitar uma possível segunda vaga deste surto epidémico.

Respeitando este contexto excepcional, as comemorações do Dia do Município serão exclusivamente digitais, como é possível ver no programa da Câmara de Mafra, que arranca logo às 9 horas terminando para lá das 21:30.

Estas celebrações vão incluir, entre outros momentos e intervenções, a inauguração do Centro Cultural da Malveira, a apresentação do vídeo “Mafra, destino turístico sustentável” e ainda dois momentos artísticos, também online: um concerto de carrilhão protagonizado por Abel Chaves e um espectáculo de poesia pelo Grupo Tema.

Esta tradição que assinala a Quinta-feira de Ascenção poderá, contudo, cumprir a sua raiz, seguindo-se rituais antigos: tudo deverá iniciar-se pela manhã com um passeio para colher espigas de vários cereais, flores campestres e raminhos de oliveira (espigas de trigo ou cevada, para que não falte o pão em casa; tranquinhos de oliveira, que simboliza a paz; e raminhos de papoilas, malmequeres e alecrim que simbolizam a alegria, o amor e a vida) para formar um ramo, a que se chama de espiga. Segundo a tradição, este ramo deve ser colocado por detrás da porta de entrada, devendo apenas ser substituído por um novo no Dia da Espiga do ano seguinte.

Como referiu, recentemente, o Médico Nuno Veríssimo Silvestre à AZUL, “vamos fazer piqueniques na Espiga do próximo ano e protegermo-nos na Espiga deste ano.”

Espiga 2018 – ph. Maria Margarida Casado Gomes

O Dia da Espiga era também conhecido como o “dia da hora” e considerado “o dia mais santo do ano”, um dia em que não se devia trabalhar – era chamado o dia da hora porque havia uma hora, precisamente o meio-dia, em que tudo parava: “as águas dos ribeiros não correm, o leite não coalha, o pão não leveda e as folhas se cruzam”. Era nessa hora que se colhiam as plantas para fazer o ramo da espiga e também se colhiam as ervas medicinais. Em dias de trovoadas queimava-se um pouco da espiga no fogo da lareira para afastar os raios.

Feriado Municipal em Mafra e noutros concelhos portugueses (como Arraiolos, Marinha Grande ou Alenquer), esta continuará a ser uma data bastante especial para milhares de pessoas, ainda que este ano a respectiva celebração deva assumir outros contornos.

Recordemos, então, uma Espiga do passado recente para projectarmos um futuro com esperança e alegria.