Um Olho no Peixe, Outro no Hambúrguer

 

Texto: Felipe de Ramos | Fotografia: DR

 

Cinco anos de ovolactovegetarianismo à parte, acho que anda tudo a exagerar com essa moda do “sou fit, não posso ir ao Mac” e do “adoro bolos mas já comi o deste mês”.

Não há pachorra.

E não me refiro apenas ao culto do corpo. Refiro-me ao food shaming originado pelos movimentos fitness, pelos nutricionistas e pelos Drs. YouTubers. A alimentação tem de ser saudável e acompanhada de uma certa dose de exercício físico, é verdade, sim senhor. E é também verdade que nós, sociedade, com o passar dos anos, tivemos de aprender a criar mecanismos de defesa que prometem ajudar no combate ao cancro e a outras doenças filhas da mãe. E ainda bem!

O problema está, muitas vezes, no exagero de alguns. Esses fazem propagar na atmosfera o vírus do medo que, misturado com algumas partículas de julgamento social vindas do Oeste, nos afectam o campo de visão e fazem-nos olhar ao espelho com filtros nocivos à nossa saúde mental. Por outras palavras: quando nos vemos ao espelho, vemos toda uma narrativa e não nós mesmos. E essa narrativa – muito bem contada e recontada por intermédio de argumentos baseados no medo natural de exclusão social – contribui para um crescente sentimento de desassociação pessoal.

Trata-se de perceber a importância de conjugar um estilo de vida saudável com o dito “só se vive uma vez”

E começa o efeito dominó: se comer mais do que um pastel de nata por semana, engordo; se engordar, chamam-me gordo; se me chamam gordo, é porque engordei; se engordei, é porque sou guloso; se sou guloso, é porque tenho problemas de ansiedade ou porque venho de uma família de gordos.

Não há pachorra.

“Não devia ter vindo a este buffet chinês… Será que amanhã acrescento mais duas horas ao treino?”

A resposta a esta pergunta vem sempre diagnosticada com Parkinson. E o forte impacto dessa cultura de culpa poderá ter origem, por exemplo, na influência que certas convenções cristãs exercem na nossa sociedade. Esse hábito de pensarmos que “nós temos sempre de percorrer um calvário para alcançarmos o que desejamos” não é nem saudável, nem sustentável – principalmente no que se refere a nossa própria imagem. Ficamos tão miseravelmente frustrados por não nos encaixarmos (literalmente) nos moldes que nos esquecemos do que é realmente importante: bem-estar e amor-próprio.

Não se trata de fazermos uma passeata pelo direito a engordar. Trata-se, sim, de percebermos a importância de conjugar o dito “estilo de vida saudável” com o dito “só se vive uma vez”.

É ter um olho no pé de alface e outro no pé de porco.