Skeleton Sea: o colectivo de arte que quer salvar os oceanos

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Texto: Ricardo Miguel Vieira | Fotografia: Skeleton Sea

 

Quando visitou Bali pela primeira vez, algures na década 80, Xandi Kreuzeder estava convencido de que tinha encontrado o paraíso. “A ilha era uma autêntica pérola de águas cristalinas.” O escultor e surfista de 55 anos, natural da cidade alemã de Munique, andava à procura das ondas perfeitas que se contava existir ao redor do arquipélago da Indonésia. No imaginário dos surfistas Bali era uma espécie de jardim do Éden – um litoral carregado de ondas virgens e uma paisagem tropical intocada. Mas o paraíso mudou, é agora um outro lugar. “Nas lojas vias tudo embrulhado em pele de banana e usavam-se cascas de côco para se beber. Tudo matérias orgânicas, sem prejuízo para o meio ambiente. Mas hoje é tudo fechado em plástico e a poluição na ilha tornou-se impressionante. Há tempos ouvi falar de uns números que diziam que é possível construir um arranha-céus com o plástico que aparece à deriva todos os anos nas águas daquela ilha.”

O retrato da Bali moderna afogada em plástico não é exclusivo àquele território do sudeste asiático. Nas jornadas em busca das ondas mais improváveis e escondidas do planeta, Xandi ia encontrando mais e mais detritos nos areais. Muitos tinham a cor original queimada pelo sol e pelo sal, denuncia de uma longa existência em decomposição à deriva dos litorais, fosse em África, na Ásia, ou até em Portugal. O mesmo sucede nas profundezas do Atlântico e do Pacífico, onde estes resíduos têm uma morte lenta, que se arrasta por séculos.

Saturado de assistir ao crescente flagelo da poluição marítima, Xandi e um grupo de amigos decidiram intervir, em meados de 2005, durante uma viagem de surf pelos Açores.

“Eu, o João Parrinha e o Luis de Dios, com quem viajo há muitos anos, estávamos numa zona do norte de São Jorge onde apenas existia uma pequena vila”, descreve Xandi. “Para procurarmos ondas tínhamos de caminhar por enseadas ao longo da costa. Entretanto chegámos a um sítio com uma visão fantástica: de um lado, quedas de água entre uma paisagem verde imaculada; do outro, o Atlântico selvagem. Só que no meio, como que a dividir a terra do mar, estava um traço de lixo colorido.  Tinha uns 10 metros de largura e talvez três de altura e estendia-se pelo menos por um quilómetro. Percebia-se que estava ali há imenso tempo sem que ninguém lhe chegasse perto, porque era uma zona isolada, sem estradas de acesso. Foi um momento decisivo para, enquanto surfistas atentos ao problema, fundarmos o projecto Skeleton Sea.”

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Com uma galeria de arte que também é sede na Rua da Bacoreira, em Santo Isidoro, a Skeleton Sea é um agitador de consciências que alerta para a emergência global da poluição marítima através de obras construídas com lixo resgatado das praias e do mar. A direcção do projecto foi óbvia, definida à partida com base no background polivalente que Xandi e os amigos partilham no campo das artes. Se um é fotógrafo, o outro é pintor e o outro é escultor ou shaper de pranchas, um caldeirão de habilidades que serve um manifesto comum: manter os oceanos e as praias limpas. “Quando vou à praia, acontece-me de vez em quando encontrar um pedaço de lixo que depressa associo a uma peça de arte”, diz Xandi. “Um pneu velho, por exemplo, faz-me lembrar o olho de um polvo.”

Quando Xandi e os amigos se aproximaram da serpente de lixo que rasgava a paisagem natural de S. Jorge, aperceberam-se de que ali estava uma chocante quantidade de matérias e detritos, suficientes para alimentar o seu novo projecto durante décadas. Havia bóias de vidro chinesas enroladas em cordas de nylon, anzóis, objectos de metal enferrujados e plástico. Tanto plástico. Daquela recolha nasceram as primeiras peças de arte que, depois de reunidas, figuraram em pequenas instalações que o grupo montou na ilha. Mais tarde, durante uma jornada pelas Canárias, a terra natal de Luis de Dios, produziram uma série de esculturas que viriam a ser expostas, um ano mais tarde, em Munique, naquela que foi a primeira exposição da Skeleton Sea. “A reacção do público deixou-nos muito motivados”, recorda Xandi. “Toda a gente se mostrou surpreendida com as obras, mas também com a mensagem forte que transmitiam. Fez-nos sentir que tínhamos de criar novas esculturas e organizar mais exposições.”

Desde a decisiva viagem aos Açores que a Skeleton Sea conta com mais de 10 anos de actividade, e nem por isso dá sinais de abrandar. Para além das actividades na galeria-sede, que incluem workshops de escultura e de shaping de pranchas de surf em madeira, o projecto apresenta exposições e instalações regulares na Ericeira. São dezenas as obras que recordamos ver espalhadas pela vila, como aconteceu com o ‘rosto da poluição’, em Ribeira d’Ilhas, ou as réplicas de atuns e piranhas feitas com diferentes tipos de detritos e que adornaram, em tempos, o Parque de Santa Marta. No Verão de 2013, a fachada da discoteca Ouriço foi a tela para um trabalho de pintura e colagens intitulado Wall Call. E quando as obras não estão em mostra pela Ericeira e outras localidades portuguesas, é porque estão a correr circuitos de festivais dedicados à cultura surfer e protecção dos oceanos em países como a Alemanha, Espanha e Emirados Árabes Unidos. “No fundo, o que nos dá força para continuar é o acolhimento positivo que temos vindo a receber das pessoas. De outro modo não podia ser.”

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A receptividade e interesse generalizado em torno da Skeleton Sea reside, em boa parte, na coragem do projecto em transformar a narrativa complexa, por vezes até demasiado científica, da poluição marítima e do aquecimento global numa experiência interactiva e tangível para qualquer faixa etária. “Sem dúvida que a Skeleton Sea aborda o assunto de forma diferente”, diz Xandi. “Podes mostrar estatísticas e números ou apontar o dedo às coisas que as pessoas deviam evitar utilizar, mas com a arte não precisas de dizer nada. As pessoas observam e compreendem nos seus próprios termos.”

Em matéria de estatísticas, Xandi não contorna os factos e alerta que os números da poluição marítima são assustadores. A UNESCO estima que todos os anos são produzidos 220 milhões de toneladas de plástico, dos quais 8 milhões têm como destino os oceanos. É o equivalente a preencher cerca de 160 vezes toda a área da Ericeira com camadas de plástico de sensivelmente meio metro de altura. Visto de outro prisma, muitos destes plásticos sobrevivem mais de dois séculos em decomposição nas praias e a cada novo ano causam a morte a 100 milhões de aves marinhas e a 100 mil mamíferos aquáticos. Todavia, a poluição dos oceanos e ecossistemas marinhos não se reduz apenas aos efeitos da presença de plástico. Há mais factores que contribuem de modo significativo e irreparável para a destruição do meio aquático, como as práticas irregulares de agricultura e pesca, o tratamento inadequado de águas residuais, actividades industriais, o turismo costeiro ou a deficiente arquitectura de portos e alfândegas.

Além de ser o lugar a que chama casa, Xandi tem na Ericeira como que o seu posto de observação das alterações ambientais. É assim desde os anos 1980, época em que visitava a região com assiduidade, especialmente depois de iniciar o que viria a tornar-se uma amizade duradoura com João Parrinha, então um dos pioneiros do surf na costa jagoz. Juntos somaram horas as deslizar nas direitas de Ribeira d’Ilhas e dos Coxos numa época em que o sobre-lotamento dos picos era ainda uma miragem. Mas mais do que as ondas jagozes, foram os laços entre Xandi e Parrinha que fizeram da Ericeira a escolha evidente para montar a sede da Skeleton Sea. Além disso, a Ribeira e os Coxos que outrora partilhavam quase sem ninguém por perto atraem hoje milhares de visitantes. Sejam surfistas experientes ou novatos, chegam à vila provenientes de todos os cantos do mundo em busca das ondas mais consistentes da Europa. Virtudes que em Outubro de 2011 consagraram parte do rico trecho da costa jagoz com o título de Reserva Mundial de Surf.

A distinção, atribuída pela organização não-governamental Save the Waves Coalition, assemelha-se nos seus termos ao património mundial. O seu objectivo primário é proteger os habitats de surf e ambientes naturais circundantes da ameaça dos desenvolvimentos urbanísticos. Um estatuto que, na opinião de Xandi, motiva deveres acrescidos na educação de surfistas e visitantes da Ericeira sobre as consequências nefastas e globais da poluição marítima. “Somos uma Reserva Mundial de Surf e até temos um museu a celebrar essa distinção. Mas quando o visitamos, só lemos informações sobre as nossas ondas, como quebram, e como são constituídos os nossos reefs. Não há nada sobre a poluição dos mares. Pergunto então onde está a nossa responsabilidade enquanto Reserva? Quem é que cuida da costa ericeirense? Quem é que está a agir para proteger as nossas praias?”

E enquanto usufruidores dos oceanos, os surfistas e a comunidade, em Portugal como no estrangeiro, têm desempenhado o seu papel na promoção do respeito pelos oceanos? “A comunidade surfer compreende a situação e tem a motivação para cuidar e limpar aquilo que ama”, afirma Xandi. “Existem organizações como a Surfrider Foundation ou a Save Our Seas que trabalham nesse sentido, tal como acontece com as comunidades surfer locais. Repara, as pessoas olham para os surfistas como figuras cool, com um estilo de vida fascinante, o que os torna nos embaixadores e mensageiros perfeitos. Depois há marcas como a Billabong ou Quiksilver ou Rip Curl, que são visíveis tanto em zonas de surf como nas cidades porque estão associadas a qualquer coisa de cool. Se todos estes elementos demonstrarem a importância de preservar os oceanos e o meio ambiente, então já estão a fazer muito para mudar consciências.”

Uma generosa parte das actividades recentes da Skeleton Sea visaram em especial as gerações mais novas. Foi o que aconteceu com o projecto Seedlings, um programa educativo que decorreu no ano lectivo 2015-16 em parceria com o agrupamento local de escolas António Bento Franco. Financiado pela União Europeia através da Gestão Integrada das Águas Marinhas e Costeiras, a iniciativa permitia a realização de workshops de arte e sensibilização para o meio ambiente junto de crianças entre os 7 e os 10 anos de idade. Os resultados do programa deram lugar, em Abril do ano passado, à exposição “Os Rebentos” na Sala Atlântico do Parque de Santa Marta. “O processo de observação e experimentação funciona muito bem com as crianças”, explica Xandi. “Elas revelam uma melhor compreensão e aprendizagem sobre o grande problema do lixo nos oceanos através de experiências interactivas. Isto é muito importante porque eles são os cidadãos do futuro.”

Nesta altura, a Skeleton Sea continua a trabalhar junto das escolas na promoção da literacia dos oceanos. Para o próximo mês está marcada a exposição de uma obra realizadas por alunos de 14 escolas da área metropolitana de Lisboa – “Cada escola vai criar a mensagem “Salvem os Oceanos” em 3D e depois vamos realizar um concurso para eleger a mais original.” Ao mesmo tempo, a plataforma tem organizado formações específicas para professores de arte, alargando o espectro de acções de educação que a plataforma artística proporciona. “A crescente poluição marítima é, sem dúvida, fruto da falta de informação, principalmente em países do terceiro mundo – o que é óbvio, eles têm problemas maiores do que o plástico que vai parar ao mar. Mas, por outro lado, hoje em dia é tudo embrulhado em plástico, e isso é um problema de consciência industrial. Depois há aquelas pessoas que sabem das consequências, mas escolhem ignorar. É por isso essencial continuarmos a criar mais e mais arte e a educar a pessoas para protecção dos oceanos e a reciclagem de bens. No fundo, para preservar os ritmos da natureza.”

Numa época em que se questionam notícias e descredibilizam conclusões científicas em torno do aquecimento global, a energia contagiante e o inspirador sentido de causa da Skeleton Sea aproximam a comunidade e sensibiliza-a para a emergência da poluição marítima e ambiental. “Como deves imaginar, um projecto como a Skeleton Sea é muito difícil de manter, não é um projecto viável do ponto-de-vista financeiro”, lamenta Xandi. “Sobrevive muito graças ao dinheiro que investimos dos nossos bolsos. Por isso vamos lutando para aguentar o máximo possível enquanto alimentamos o sonho de ter o apoio da comunidade para abrir um centro de arte Skeleton Sea.”

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