Rui Vieira Nery e José Miguel Júdice entre os defensores do Museu da Música em Mafra

 

Fotografia: DR

 

A polémica em torno da transferência do Museu Nacional da Música, há 25 anos provisoriamente instalado na estação de metro do Alto dos Moinhos, em Lisboa, está a agitar o meio cultural português.

Se para alguns o Palácio Nacional de Mafra não tem condições para ser a nova casa desta colecção, para outros esta é uma escolha óbvia.

Entre os partidários da transferência, anunciada no final de Janeiro deste ano, encontram-se por exemplo o musicólogo Rui Vieira Nery e o comentador José Miguel Júdice.

Para o estudioso da música Rui Vieira Nery, em Mafra o museu pode converter-se num centro muito interessante, embora para isso precise de condições e, sobretudo, “de um investimento grande”.

José Miguel Júdice, reputado advogado e comentador político, também defendeu a mudança para Mafra no seu espaço de opinião na SIC Notícias, considerando que Mafra está a pouco mais de meia hora do centro de Lisboa, enquanto que para atravessar a capital por vezes se demora uma hora, além de que no Palácio Nacional se encontram os notáveis seis órgãos e o conjunto de carrilhões, singulares ao nível mundial. Resumindo, considera Mafra “um sítio óbvio para ter o Museu da Música”, além de defender a descentralização porque “é preciso mandar património para fora de Lisboa. O país não é só Lisboa”.

Museu da Música. - ph. DR

Museu da Música. – ph. DR

Outros partidários da opção mafrense são João Vaz e Graça Mendes Pinto.

João Vaz, organista e professor universitário ligado à génese do Museu da Música – juntamente com João Pedro d’Alvarenga, foi um dos responsáveis pela instalação da exposição temporária em 1994 –, afirmou ao Público que “a solução de Mafra oferece a possibilidade de acolher toda a colecção do museu de uma maneira definitiva”. João Vaz, que também foi consultor do restauro dos seis órgãos da Basílica de Mafra, lembra que sempre se soube que um dia o museu teria de sair do Alto dos Moinhos e que não surgiu até agora “nenhuma alternativa de um espaço que pudesse”, como Mafra, albergar a totalidade do acervo.

Já a directora do Museu da Música, Graça Mendes Pinto, garantiu ao site do mesmo jornal diário que ao longo dos anos foram desenvolvidos “vários estudos técnicos de pré-projecto para a instalação do museu no Palácio de Mafra”, em que foram tidas em conta “as necessárias condições ambientais para a preservação da colecção”.

A nova casa do Museu da Música será a ala norte do Palácio Nacional de Mafra, aquela que oferece maior “estabilidade” (em termos de humidade relativa e temperatura) ao longo do ano. Os corredores dessa ala estendem-se por largas centenas de metros, o que dotará o museu de uma área expositiva muito maior do que a de que hoje dispõe no Alto dos Moinhos e permitirá “apresentar em contexto muitas peças das várias secções dos seus acervos”, nota Graça Mendes Pinto. Actualmente, o museu tem exposta apenas 20% da sua colecção de instrumentos e “algumas peças” do seu acervo fonográfico, documental e iconográfico. Em Mafra, a realidade será outra.

Vozes discordantes e um périplo com fim à vista?

Um protocolo assinado em Janeiro oficializou a transferência do museu para o Palácio Nacional de Mafra em 2021, mas semanas antes da respectiva assinatura o movimento de cidadãos Fórum Cidadania Lx lançou o debate em torno da questão. Num documento publicado no seu site, o grupo deixou um “apelo à Ministra da Cultura” para que a transferência seja alvo das “melhores das ponderações”. Defendendo que “Lisboa não deve prescindir do património deste Museu Nacional, com vários instrumentos classificados de tesouros nacionais”. O grupo sublinha também a ligação histórica do museu à cidade e a “importância da educação patrimonial” que vem desenvolvendo através de concertos e conferências e da participação da comunidade universitária em trabalhos de investigação.

O périplo do Museu da Música remonta, pelo menos, a 1971, quando saiu do Conservatório Nacional, em Lisboa. Desde então, passou por vários locais da capital e fora dela. Depois da sua primeira casa no Bairro Alto, seguiu-se o Palácio Pimenta, no Campo Grande, e, mais à frente, a Biblioteca Nacional, locais onde o espólio foi depositado e nunca chegou a estar exposto. A colecção passou ainda pelo Palácio de Mafra, até que, na sequência de uma iniciativa conjunta da Lisboa 94 – Capital Europeia da Cultura com o Metropolitano de Lisboa e a Direcção Geral do Património Cultural (DGPC), foi assinado um protocolo do qual resultou a instalação do museu no Alto dos Moinhos.

Em 2014, nos tempos do executivo PSD/CDS-PP liderado por Passos Coelho, o secretário de Estado da Cultura Jorge Barreto Xavier assumiu a intenção de transferir o museu para o Palácio de Mafra. Entretanto, o Governo mudou e com ele o destino pretendido para a colecção. Em Novembro de 2017, Luís Filipe Castro Mendes, antecessor de Graça Fonseca no Ministério da Cultura (MC), anunciava a decisão de dividir o Museu da Música em dois pólos, um a funcionar no Palácio Foz, em Lisboa, e o outro no Palácio de Mafra.

A 31 de Janeiro, porém, a ministra da Cultura assinou um protocolo de parceria entre a Câmara de Mafra e a Direcção Geral do Património Cultural (DGPC) com vista à comparticipação financeira da instalação do museu no Palácio de Mafra: a autarquia contribuirá com um milhão de euros, os restantes dois (de um investimento total de três milhões de euros) virão do Ministério da Cultura. As obras terão início este ano e o museu deverá abrir ao público em 2021, anunciou então Graça Fonseca.

De acordo com os últimos dados da DGPC, o Palácio de Mafra recebeu 340.695 visitantes em 2018; no mesmo período, o Museu da Música foi visitado por 16.043 pessoas.

À tese de que Mafra não tem vínculo com o passado musical nacional, o Ministério da Cultura contrapõe que a presença dos seis órgãos de construção portuguesa, do conjunto de carrilhões que se encontra actualmente em restauro e do acervo de obras musicais depositado na biblioteca “permite construir um discurso museológico coerente”.

Pode ler aqui na íntegra o artigo original do Público.