Paulo Ossião: “O ambiente é tão rico e expressivo que me convida a reproduzi-lo”

 

Texto: Helder Alfaiate e Hugo Rocha Pereira | Obras e fotografia: Paulo Ossião

 

O pintor Paulo Ossião inaugurou Sexta-feira, no Palácio Nacional de Mafra, uma exposição de aguarelas que transmite novas perspectivas sobre pormenores das salas, jardins, esculturas e fachada do monumento. Fomos conversar sobre o artista, não apenas sobre esta mostra (enquadrada nas comemorações do tricentenário do Real Edifício e que ficará patente até Setembro) mas também sobre outros assuntos: das referências à escultura, passando pela sua relação com esta região.

 

Qual é a sua relação pessoal com Mafra?

Sendo natural e tendo vivido sempre em Lisboa, a proximidade de Mafra proporcionou a passagem por muitas vezes no local. Visitava a Ericeira, e o “Convento de Mafra” sempre foi uma referência na paisagem a que não podemos ficar indiferentes, até pela própria grandeza do monumento.

 

Como conseguiu captar tão bem o “espírito do lugar”?

Tive ocasião de visitar cuidadosamente todo o edifício, e penso que me pergunto em cada recanto, em cada objecto, qual a história e a relação existencial que nos transmite.

Interessa-me sobretudo conseguir compreender a intimidade das vivências ali passadas e através das pintura marcar a minha impressão

Nesta pinturas a monumentalidade barroca ganha uma expressividade contemporânea e o peso de toda aquela pedra ganha uma certa leveza.

É claro que, tendo eu esta ligação à pintura e ao desenho, quando observo o ambiente envolvente penso interpretá-lo na linguagem das formas e cores, das sombras e luzes. No caso, o ambiente é tão rico e expressivo que me convida a reproduzi-lo. É na verdade tão grandioso e completo… e com a aguarela tento, de certa forma, recriá-lo, é o meu papel.

 

Como é que surgiu a ideia de pintar o Palácio Nacional de Mafra? Sei que não é o primeiro Palácio Nacional que pinta, fale-me um pouco sobre isso.

Penso que, como um visitante normal, tenho a natural curiosidade em conhecer os palácios e monumentos nacionais. Causou-me particular “impressão” uma visita que fiz ao Palácio da Ajuda, particularmente ao atelier de pintura onde trabalhou o rei D. Carlos. Tendo eu este especial interesse pela técnica da aguarela, ali encontrei de algum modo um motivo curioso. E tendo sido por acaso convidado na altura a fazer uma exposição sobre o palácio, não poderia recusar, pois se tratava de um desafio que me agradou. Posteriormente fiz uma outra exposição sobre o Palácio da Necessidades e vários outros. Interessa-me sobretudo conseguir compreender a intimidade das vivências ali passadas e através das pintura marcar a minha impressão, que penso é, de certo modo, a finalidade da mesma, marcar e transmitir um sentir ou um momento. Neste caso, o desafio surgiu através do galerista da Ericeira, Helder Alfaiate, que propôs a ideia, já que se trata do grande monumento de toda a região.

Palácio Nacional de Mafra - obra Paulo Ossião

Dá-lhe especial gosto que esta exposição surja enquadrada nas comemorações do tricentenário?

Claro que, sendo enquadrada nestas comemorações, a exposição será certamente mais visitada, o que é para mim, como para todos quantos mostram o seu trabalho, especialmente importante.

 

No Verão de 2015 fez uma exposição na Casa de Cultura da Ericeira. Que recordações guarda dessa mostra?

Gostei especialmente de expor naquele espaço, onde tentei sobretudo mostrar a meu “olhar” sobre a Ericeira.

 

Na sua pintura usa a técnica da aguarela. Foi sempre assim? O que o conduziu à aguarela?

Penso que a aguarela exige uma especial sensibilidade, daí que não sei explicar porquê esta atracção pelas tintas de água e as transparências, a vibração da luz nos espaços brancos do papel, o trabalhar quase no limite do gestual, com as técnicas ditas “húmidas”, etc. etc…

 

Quando tem um papel de aguarela em branco, como começa?

Um papel em branco é um segredo por descobrir, dilema, desafio completo. Começo por pequenas experiências, sobretudo com desenho (adoro desenhar, lápis, carvão…). Depois a cor. Depois acontece. O trabalho de certo modo ganha um caminho, quase surge por si só, com as imensas surpresas, imensas soluções, infinitas e diferentes formas de tentar chegar lá. O “lá” é o que será difícil perceber como ou quando, já que um trabalho de pintura nunca estará acabado. Muitas vezes, e sobretudo na pintura em aguarela, nem sempre corre tudo bem… aí, tenho que fazer novo desafio…

a aguarela exige uma especial sensibilidade

Para além da pintura, também se dedica à escultura. O que o motiva na escultura?

A escultura, representando o trabalho a três dimensões é, de forma absolutamente diferente, um trabalho muito mais físico. Não exige o esforço e a concentração de forma intelectual tão intensa como a pintura, mas proporciona um particular prazer e quase sensação viciante em termos de trabalho. Para além de que não passa de mais um desafio, ou uma daquelas “coisas” que nos dão um particular “gosto de fazer e conhecer” na nossa vida.

 

Fale-me sobre os seus primeiros tempos no mundo artístico. Quando soube que iria ser pintor?

Sempre fui especialmente interessado e curioso, como é natural, por tudo quanto se dissesse “arte”. Tive ocasião de conviver desde novo com pessoas com este interesse. Um meu tio pintava coisas interessantes, era especialmente perfeccionista em termos técnicos e ensinou-me alguns princípios muito importantes. A minha mãe desenhava muito bem (bem melhor do que eu, ou de forma diferente) e pintava a óleo, simplesmente por hobby. Fez coisas muito interessantes. Tive um cunhado, com quem convivi, e que continuo a considerar um grande pintor, extremamente criativo: António Alijó. Sempre tive o hábito de visitar exposições e museus, o que considero ter sido muito importante, e para isto a minha mãe contribuiu em grande parte, etc, etc.

 

Quais são as suas grandes referências no mundo artístico?

As minhas referências neste meio são “todas”. Isto quer dizer que começam muito lá atrás. Começam no antigo Egipto, onde considero ter existido uma “arte pura”… Toda a informação que consegui ou consigo recolher e observar de ontem e de hoje… penso que vivemos também um “amanhã”, algo virtual, que procuramos conhecer.

Paulo Ossião - ph. DR

O artista Paulo Ossião