“Paula Rego – Ericeira no Coração”

A Dança, 1988, Paula Rego

 

Obra: Paula Rego

 

Na AZUL temos vindo a publicar vários conteúdos sobre Paula Rego, realçando nomeadamente a profunda relação da artista com a Ericeira, vila onde residiu durante uma época que se viria a afirmar fulcral para a sua vida e obra.

Não somos, porém, os primeiros a abordar este tema; antes de nós outros trouxeram estas memórias à superfície. No suplemento “Vultos e Letras” do jornal Região Saloia, publicado a 12 de Abril de 1995 (edição nº 47 deste periódico, entretanto extinto), encontramos uma reportagem, com autoria de Cristina Duarte e Mano Silva, intitulada “Paula Rego – Ericeira no Coração”, onde a partir de uma entrevista à revista Marie Claire e outras fontes são explorados esses tempos e a influência que tiveram no percurso da consagrada pintora.

Logo na introdução se lê “à Ericeira dedicou a «Dança ao Luar»” – precisamente o quadro que surge no destaque deste nosso artigo. “O seu amor pela vila que a viu crescer está patente em muitos dos quadros da sua vasta obra. Em todas as entrevistas, refere sempre a origem da sua inspiração: Ericeira. Porque esta foi o paraíso da sua infância. Foi a sua casa na idade adulta. É a saudade nos êxitos que pinta. E vive no coração da famosa e grande pintora.”

Ao destacarmos algumas passagens deste artigo datado da década de 90 do Século XX relembramos um património, físico e imaterial, com muitas raízes mas ainda sem frutos na Ericeira.


SENTIA A ERICEIRA PELO CHEIRO

É este o entretítulo que dá o mote para a entrada na forte ligação de Paula Rego à Ericeira, onde começara por passar as férias de Verão, com os avós paternos, na Quinta Casal Ribeira da Baleia, ” onde o avô, José, gostava de organizar caçadas. A avó, Gertudes – era «Jagoz» de gema – nascera na Ericeira e adorava animais. Paula recorda-se dela com os bolsos cheios de pintainhos”.

A avó, Gertudes – era «Jagoz» de gema

Após abordar a ajuda que a família Rego prestava aos mais necessitados da vila (a avó de Paula conhecera a pobreza antes de uma senhora regressada do Brasil a ter adoptado), descreve-se o quotidiano de Paula Rego na Quinta, “um local de encantamento. Paula passava o tempo na cozinha, onde a animação constante contrastava com a seriedade adulta da sala de visitas”. A artista recorda que “havia galinhas mortas, cozinhava-se, passava-se a ferro; tudo coisas boas.” Havia também uma parte lúdica, como brincar com a prima Manuela a vestir bonecas: “Comprávamos as chitas a peso na Rola Paulo“, recordou em entrevista à Marie Claire.

Ao fundo a muralha do forte das Ribas

Ao fundo a muralha do forte das Ribas

Nessa mesma conversa, citada pela Região Saloia, fica bem patente a relação umbilical entre a terra e Paula Rego, que afirma “Sentíamos a Ericeira pelo cheiro e dizíamos já cá estamos“, antes de descrever a Quinta da família: “Havia horta, ciprestes, morangos e eucaliptos, fazíamos piqueniques e almoços debaixo de uma pereira muito grande.”

Comprávamos as chitas a peso na Rola Paulo


PROTAGONISTA DA MUDANÇA

Aqui recorda-se o período, entre 1956 e 63, em que viveu na Ericeira com o marido Vic Willing e os três filhos: “Fizemos os ateliers na adega, separados com uma cortina. Naquela época a Ericeira era muito isolada, tínhamos que ir telefonar à Achada.” Tal não constituía, porém, impedimento a que fosse passear: “Todos os dias ia à praça, ao mercado”, lembra.


RECORDAÇÕES DAS GENTES DO MAR

Falando-se em Luzia, ama e figura incontornável na biografia de Paula Rego, a propósito do quadro “O Tempo – Passado e Presente”, começa por referir-se “a moldura encurvada que aparece no quadro da parede evoca o telhado da casa da Ericeira” para depois se colocar Paula Rego em discurso directo sobre as condições em que viviam os pescadores jagozes: “Durante o Inverno aquela gente não tinha nada. Se o mar estava muito bravo não iam pesca, não havia trabalho. As mulheres dos pescadores viviam numa pobreza confrangedora. Não tinham dinheiro para comprar remédios para os filhos. E como a Igreja proibia quaisquer métodos preventivos, andavam sempre grávidas. Ou estavam sempre a ter crianças ou então recorriam ao aborto, o que erra ilegal. Sofriam horrivelmente, horrivelmente e aquilo deixava-me desgastada”. Esta indignação seria materializada em protestos políticos bem visíveis em quadros como “Salazar a Vomitar a Pátria”.

O Tempo - Passado e Presente, 1990 - Obra Paula Rego

P’LA ERICEIRA

Aqui fala-se sobre diversos quadros que têm a Ericeira como pano de fundo: desde logo “A Dança ao Luar”, quadro em que trabalhava quando o marido faleceu, em 1988, e que integra a colecção permanente da londrina Tate Gallery; mas também outras obras, como  “As Criadas”, “A Filha do Soldado”, “O Cadete e a Irmã”, “Partida” e “O Exílio”.


O JARDIM DA BALEIA

Paula Rego confessa que o painel “O Jardim de Crivelli” (um mural com atmosfera portuguesa) retrata o jardim da Quinta: “No meu quarto, na Ericeira, as paredes estavam cobertas de azulejos de alto a baixo, arabescos em azul e cobalto – a mesma cor com que pintei os azulejos na parte inferior do tríptico. Na sala de estar da Ericeira havia azulejos representando cenas de caça, tinham sido encomendadas pelo meu avô.”

O Jadrim de Crivelli, 1991 - Obra Paula Rego

MULHER-CÃO

Numa das obras que integra a série de quadros representativos da condição da mulher na sociedade também se encontram vestígios da Ericeira. A 17 de Dezembro de 1994, Paula Rego haveria de contar ao Expresso que a manta de pêlo presente numa dessas pinturas foi adquirida na loja Paulimar das Ribas.

ERICEIRA, SEMPRE

Quando Paula Rego regressava à Ericeira (outros tempos…), era dominada pela “saudade e a recordação da adorada Quinta do Casal da Baleia”, de que se despediu em 1979 por dificuldades financeiras. O destino da Quinta e da casa, que considerava o seu lar, é tristemente conhecido.