Paula Rego por quem a conheceu na Ericeira #1

Ana Soares Paula Rego - ph. Filipa Teles Carvalho

 

«Quando estou a pintar um quadro e tenho uma história que não sei onde situar, em termos de ambiente, de cenário, regresso a um sítio que conheci em criança…» – Paula Rego, em Histórias & Segredos, filme de Nick Willing.

 

Texto e fotografia: Filipa Teles Carvalho | Imagens do arquivo pessoal de Ana Soares

 

Esse lugar mítico é a Ericeira. A viver em Inglaterra desde os anos 70, a artista recorda-o frequente e profundamente, na sua vida e obra.

E se «A Ericeira é a memória mais forte que Paula Rego retém da sua vida», como diz Nick Willing, no filme mais recente sobre a vida da pintora, a sua vida nesta vila deixou marcas profundas também em quem a conheceu ou um dia foi feliz na quinta que tanto amava.

Ana Soares é uma dessas pessoas. Lembra-se desse lugar, a Quinta Figueiroa Rego, como um território mágico onde tanto brincou e se sentia sempre protegida. E há recordações que viveu com «a menina Paula» que traz até hoje como presentes bons da vida.

Imagem do arquivo pessoal de Ana Soares

«No dia em que eu nasci, a minha irmã estava aqui. Na quinta.»

Luzia, a ama da artista, era tia-avó de Ana.

Desde que se lembra de si, e aproximadamente até aos doze anos, Ana Soares brincava nesta quinta com a irmã e os filhos de Paula Rego, sobretudo no Verão.

Na visita que fizemos, rápida para ser quase indolor, ao que foi a quinta, resta muito pouco do que Ana conheceu. A casa é hoje um “hostel”, ladeado por um hipermercado e urbanizações. Gracejamos sem vontade que esta combinação bem podia ser uma «polaroid» do caminho que o país parece seguir – falta só o centro comercial. Voltamos a olhar a casa e Ana começa a colher memórias.

Um dia a menina Paula levou-nos a todos ao cinema ver o filme do Peter Pan. Fiquei completamente encantada. Até hoje, Peter Pan e os meninos perdidos são especiais para mim.

Os olhos de Ana perdem-se mesmo assim, às vezes como se quase nada tivesse mudado. Aponta as dimensões de outrora – sabe-as de cor –, onde começava e acabava a quinta, a casa de Luzia, a entrada para a horta, todo o imenso território que explorava em criança, com a irmã mais velha e com os filhos da pintora. Onde corriam, onde fugiu de gansos e onde um dia, teria cinco ou seis anos, fizeram um casamento faz-de-conta em que até Jack, o cão da família, entrou: «Ou era o padre ou a testemunha» (risos).

Ana lembra-se bem das árvores, fazem-lhe falta os eucaliptos, enormes, e enquanto olha o sítio onde deveriam estar observa as outras árvores que, pensa, estarão a renascer.

Tenho saudades da Quinta, do espírito que ali se vivia. O ambiente era alegre e havia Cultura permanentemente. Sentia-se isso. E tenho muitas saudades do verde.

Do baú da infância, há uma memória que mantém bem viva: Peter Pan. «Um dia a menina Paula levou-nos todos ao cinema [da Ericeira] ver o filme do Peter Pan. Fiquei completamente encantada. Até hoje, Peter Pan e os meninos perdidos são especiais para mim. Em criança era só brincar ao Peter Pan…».

Teresa, a irmã mais velha, e Ana Soares na quinta. «Para mim, ali tudo era mágico.»

Teresa, a irmã mais velha, e Ana Soares na quinta. «Para mim, ali tudo era mágico.»

Aponta o lugar de tudo o que um dia ali existiu: a adega onde Paula Rego pintava e local que chegou a ir espreitar, em criança, «os quadros enormes» que achava «esquisitos», sublinhando rapidamente: «Mas não me faziam medo e eu era uma criança que tinha medo de tudo, até da sombra. Mas aqui não. Aqui havia um ambiente mágico. Sentia-me sempre bem e segura, sentia uma protecção. Não sendo uma casa, por vezes era como se fosse…».

Quando chegava «Babá», nome mais familiar da mãe de Paula Rego, no seu carro branco, «os miúdos iam logo a correr à vinda deles.»

O que mais me encanta na Paula Rego é aquele sorriso que ela mantém, igualzinho ao de criança. Fico contente. É para mim aconchegante. Sempre foi, sempre achei aquele sorriso sincero e aberto e desde pequena que me transmite alegria.

Paula Rego não fechava os olhos à necessidade dos outros, muito pelo contrário: «Ela sabia que nós não tínhamos possibilidades de comprar roupas, principalmente quando éramos mais miúdas. Dava-nos lindos vestidos com malmequeres, morangos, florzinhas amarelas, folhos… tão alegres, comparados com as nossas roupas mortiças, sem piada nenhuma. Era ajuda a pessoas pobres, sim, não tenho problema nenhum em dizer isso.»


JACK, O PRIMEIRO

Jack era o cão da Quinta, amado por todos. «O Jack é o cão das nossas vidas». Ana viria a dar esse nome aos seus cães, homenageando o primeiro Jack – que nas fotografias parece bem consciente da sua importância.

Teresa, a imã de Ana, Ana e Jack na quinta, junto às «casas dos coelhos.»

Teresa, a imã de Ana, Ana e Jack na quinta, junto às «casas dos coelhos.»

LUZIA, A AMA DEDICADA

Luzia, tia-avó de Ana e a ama dedicada de Paula Rego. A pintora viria visitá-la várias vezes após a dramática saída da Ericeira, confirma Ana. Gostava muito dela. Era uma dedicação mútua. Na venda da propriedade estava incluída a condição de Luzia continuar a viver na sua casa na quinta até ao final da vida.

No livro “Behind the Scenes”, dedicado a Paula Rego em 2008, o crítico de arte John McEwen refere-se a ela como a derradeira resistente deste espaço que desempenhou um papel fulcral na biografia da artista: “A avenida de eucaliptos plantados por Vic e Paula já não existe e a própria relva foi reduzida a pó com o movimento constante dos camiões pesados. Salva-se a residência, bem conservada no seu aspecto delicado, painéis de azulejos e pormenores arquitectónicos que lembram Macau nos confins do Império, bem como a pequena habitação cercada de canas onde permanece Luzia (a ama de sempre), rodeada de galinhas e alguns objectos dos tempos passados. Fiel até ao fim.”

Luzia

Luzia foi empregada da família desde sempre, desde o tempo «do Senhor Engenheiro, como ela dizia cheia de admiração, porque ele era o pilar dos tempos áureos da quinta, tempo esse de que ela tinha muitas saudades. Luzia é que comandava as ‘tropas da criadagem’ e no Verão era sempre preciso mais gente. Chamava então a minha avó, a minha mãe e outras mulheres da família para trabalhar. Ela era muito respeitada por todos».

Mais tarde, e como Luzia apenas sabia ler e pouco, ditava a Ana as cartas que queria escrever e enviava depois para Londres a Paula Rego.

Teresa, avó de Ana Soares e irmã de Luzia, a cozer pão na quinta.

O SORRISO À “MENINA PAULA”

Ana lembra-se muito bem do sorriso de Paula Rego. Viu-o inúmeras vezes, ao vivo e a cores, e no filme de Nick Willing teve oportunidade de o rever.

«O que mais me encanta na Paula Rego é aquele sorriso que ela mantém, igualzinho ao que tinha em criança. Fico contente. É para mim aconchegante. Sempre foi, sempre achei aquele sorriso sincero e aberto e desde pequena que me transmite alegria.
Acho que a melhor maneira de eu definir o famoso sorriso da menina Paula é dizer que é um sorriso de criança grande e feliz e sem qualquer tipo de maldade. A Paula Rego é uma pessoa que não tem um pingo de maldade. Como foi nos valores da venda da quinta. Por isso a Luzia odiava o tal de “Branca” (achando que estava a enganar a menina Paula) e tentava sabotar-lhe os negócios o mais possível. Foi de tal forma que ele pegou num avião e foi a Londres de propósito negociar com a Paula Rego. Hoje isso dá-me muita vontade de rir!»

Uma memória e um sorriso que se tem propagado na vivacidade dos dias: «Quando estávamos em família, miúdos e em momentos de descontracção, a minha irmã às vezes fazia um sorriso específico, espontâneo, e nós dizíamos logo: “ó, lá tá ela a fazer ‘sorriso à menina Paula’. Ainda hoje isso acontece às vezes (risos).»

Já adulta, Ana chegou a ir a Londres, com a irmã, numa visita à artista onde foram muito bem recebidas e que foi «muito emocionante».

A sua ligação com esta família iria ser transformadora, pelo que lhe proporcionou. A irmã ficou muito próxima de um dos filhos de Paula Rego, e de Londres chegavam músicas, nomes de bandas e livros, influências que lhe dava uma trabalheira encontrar por cá. Mas valia bem a pena. Foram, para Ana, contaminações preciosas que não podiam ter acontecido de outra forma. «A Cultura faz muita falta às pessoas…», reconhece num suspiro alegre, enquanto seguimos rumo à vila sem olhar para trás.


Paula Figueiroa Rego nasceu no dia 26 de Janeiro de 1935 em Lisboa, Portugal.

A artista foi distinguida com a Grã-Cruz da Ordem de Sant’iago de Espada em 2004 e em 2010 recebeu da Rainha Isabel II a Ordem do Império Britânico com o grau de Oficial, pela sua contribuição para as artes, além de numerosos títulos e prémios. Aquele de que mais se orgulha, segundo o que conta no filme, é o 1.º prémio de Summer Composition, Slade School of Fine Art, Londres, Reino Unido.

Tem uma ligação bastante forte à Ericeira, muito presente no filme sobre a sua vida, recentemente exibido nos cinemas e editado em DVD.

Em Cascais existe uma casa-museu dedicada à pintora e à sua obra, a «Casa das Histórias Paula Rego».