Os sons turvos do quotidiano

Turvos

 

Texto: Hugo Rocha Pereira | Fotografia: DR

 

Os Turvos são um alfacinha (L.A. Lucas) e uma mafarrica (T.A. Falcão) que se conheceram a beber tequilha na Ericeira, tornando-se um casal pouco tempo depois. Gostam de vinho doce, cerveja amarga e produzem música doméstica, da pop ao black metal, passando por tudo o que está no meio, em temas pessoais. Só começaram a divulgar estes retratos sonoros do quotidiano no fim de Setembro, mas já tiveram airplay na Rádio Zero (na passada quinta-feira) e na Antena 3 Rock – ontem. Fomos conversar com esta dupla, que se dedica a criar algo de novo a partir duma panóplia de influências e humores.

 

Como nasceu este projecto?

Nasceu de um ultimato. Para mim, toda a música que faça sozinho ou com a Tânia sempre foi para ser ouvida apenas por nós e mais ninguém. Depois de várias músicas criadas, finalizadas e produzidas, a Tânia obrigou-me a começar a pôr as músicas online para outros ouvirem. Ou isso ou acabava-se a pequena parte do orçamento familiar e qualquer folga que tivesse para a música. Depois foi escolher o nome que melhor nos representasse como músicos, algo que mostrasse uma mistura de bagagens emocionais e influências musicais que não fossem imediatamente aparentes.

 

Os Turvos apresentam-se como “um alfacinha e uma mafarrica” – onde fica a Ericeira no meio disto, além de se terem conhecido cá a beber tequilha?

A Ericeira sempre foi e sempre será uma segunda casa para nós. Os meus bisavós, avós, pais e agora os nossos filhos sempre tiveram uma ligação muito forte com a Ericeira, e desde que nasci passo férias e fins-de-semana na vila, sempre que posso, assim como a Tânia. Apesar de andarmos por ai desde que nascemos, só em 2001 é que nos encontrámos pela primeira vez e nos conhecemos no aniversário de um amigo em comum a beber tequilha na Fonte do Cabo.

 

Vocês são designers, o que se reflecte no excelente artwork do projecto. Como se cruzam o design e a música?

Para nós cruzam-se de uma maneira natural. Como designers sempre estivemos habituados a misturar tendências e estilos, assim como a procurar e usar ferramentas para criar algo de novo. E é isso que tentamos fazer com a nossa música: juntar um pouco de tudo aquilo que gostamos de uma maneira coerente, sem nos prendermos a um tipo de instrumento ou género musical.

 

Qual era a vossa experiência musical anterior?

Não era muita. A minha experiência fica-se por tocar baixo numa banda punk em Macau em 1996 e passar por alguns ensaios de garagem com amigos. A da Tânia por tocar guitarra, piano e cantar numa banda de igreja, assim como cantar no coro de Mafra e dar aulas de piano.

 

Qual é a vossa repartição de tarefas neste projecto de música doméstica?

No princípio as músicas eram criadas e tocadas quase na íntegra por mim, e a participação da Tânia resumia-se quase a ser músico de sessão e gravar as parte de piano mais complicadas. Agora, depois de muito a chatear, passámos a decidir os dois a composição e produção de cada música. Espero já ter conseguido “obrigá-la” a criar as melodias vocais, assim como gravar as vozes femininas nas próximas músicas que vamos lançando. Esperemos para ver.

 

Como é o vosso processo de composição? Utilizam alguns instrumentos analógicos ou são puros XXI century digital boys (and girls)?

O nosso processo de composição muda um pouco de música para música, mas a maioria das vezes começamos com uma linha de baixo e bateria; e a partir daí vamos criando outras melodias e harmonias com guitarras, sintetizadores, samplers, iPads, etc, até chegarmos ao que, invariavelmente, será a parte final da música. Quando estamos contentes com esse final, declinamos o resultado para as outras partes da música. Em relação aos instrumentos analógicos, usamos apenas guitarra eléctrica e baixo, sendo que tudo o resto é digital: amplificadores, pedais, pianos, bateria, sequenciadores, etc. Isto em grande parte deve-se a ser mais económico comprar um plugin digital do que o seu equivalente analógico, o digital não ocupar espaço e também o único tempo que temos para tocar e gravar ser a partir das dez da noite, depois de pormos os nossos filhos a dormir, o que torna necessário não fazer muito barulho e de preferência termos os headphones postos.

 

Da pop ao black metal vai uma grande distância. Isto reflecte mais os vossos gostos e influências musicais ou as mudanças de humor de cada um?

Acho que ambos. Em relação às influências, eu sempre fui mais virado para tudo o que tivesse distorção e tivesse a ver com Metal; já a Tânia era mais virada para um Alternativo mais Pop/Rock, mas apesar disso os nossos gostos foram convergindo e passaram a ser cada vez mais ecléticos. Um exemplo disso são as playlists que fazemos: podem começar com o “Vais Partir” do Clemente, de seguida “Lucifer” dos Behemoth, depois “If I Had a Heart” da Fever Ray e acabar com “Cry me a River”, do Justin Timberlake. Só com o Leonard Cohen é que não há acordo: eu adoro, ela odeia. No que toca às nossas mudanças de humor, as minhas são mais Pop sueco comparadas com as dela, que são mais Black Metal norueguês do início dos anos 90.