Os que observam à janela e os que são observados

 

Texto: Sérgio Miguel Santos Silva | Fotografia: André Vicente Gonçalves

 

Seis relatos vagamente inspirados em factos reais que devem ser lidos como breves ficções para chegar à moral da história.

 

Tomás de Torquemada e Bermudo, o sacerdote de Toledo

Bermudo era um jovem sacerdote numa freguesia de Toledo. A sua dedicação à fé Cristã nunca o impedia de estar de bom humor. Por vezes até de mais. Os tempos não eram propícios a abordagens leves da fé. Os assuntos sérios tratavam-se com gravidade e por isso Bermudo estava habituado a que houvesse, aqui e ali, paroquianos ou outros clérigos que não o apreciassem especialmente. Mas estava longe de imaginar o seu destino.

No dia sete de Maio de 1487 a Santa Inquisição queimou, num Auto de Fé em Talavera de la Reina, vinte e três pessoas. Nove mulheres e catorze homens. Entre eles estava Bermudo, o sacerdote de Toledo acusado de terríveis heresias que foram ditas bem alto a quem as quisesse ouvir. Enquanto era lido o processo, cobriram-no de vestes e mantos como se fosse dizer a missa. Então, o Bispo começou a despi-lo. Enfiaram-lhe um trapo pela cabeça e deram-lhe uma corda para o atar à cintura. Eram estes os trajes dos restantes companheiros de infortúnio, daquele e de muitos dias que lhe antecederam e que vieram depois. Ordenaram que se sentasse com os outros vinte e dois e foi assim que ouviu todas as heresias de que eram também acusados.

Finda a cerimónia, foram entregues à justiça secular e levados a uma planície. Aí foram queimados – juntamente com as suas heresias – perante gente vinda de várias paróquias. Gente que nem oito dias antes tinha o padre Bermudo em boa conta e que o louvaria publicamente sem reservas.

Embora não tenha sido Tomás de Torquemada o criador da Inquisição, foi o seu grande impulsionador. Era este o grande responsável pela fogueira onde ardeu o Padre Bermudo e por outras fogueiras onde arderam para cima de 10.000 pessoas. Tomás de Torquemada foi especialmente brutal na repressão dos cristãos-novos ou, dito de outra forma, dos Judeus. Deixou um documento que era uma espécie de manual dos inquisidores. Aí podia ler-se, por exemplo, que não havendo provas de heresia devia deixar-se o herege em liberdade, porque um herege é sempre apanhado em flagrante delito e era melhor não deixar de sobreaviso estes inimigos de Deus e do Rei.

No entanto, um dos principais expedientes da inquisição era a denúncia, e foi através da dela, muitas vezes anónima, que centenas de pessoas foram condenadas à humilhação, à tortura e à morte. É irónico que Tomás de Torquemada fosse, apesar do seu ódio aos judeus e da perseguição implacável que lhes fez, de origem judaica.

Quanto ao tragicamente bem humorado padre Bermudo, sacerdote de uma freguesia de Toledo, ardeu na fogueira da Inquisição por, do altar abaixo, substituir “tomai, todos, e bebei, este é o cálice do meu sangue…”, as palavras da escritura para a consagração do vinho, pela expressão “bebe a correr, porque o povo está a ver”.

Na idade das trevas o humor era negro.

um dos principais expedientes da inquisição era a denúncia

Joe, os seus homens e Royal

Joe era um famigerado escravo negro que conseguiu fugir à servidão nos campos de algodão da Carolina do Sul em meados do Séc. XIX. Mas não era apenas um fugitivo. Durante essa fuga, teria também assassinado um homem branco. Esse foi o motivo que o tornou num homem tão ilustre quanto perseguido. Várias famílias das comunidades vizinhas, vivendo num permanente sobressalto com um homem de tal forma perigoso em liberdade, ofereceram recompensas pela captura de Joe. Também o Estado promoveu esta caça promovendo nova recompensa pela sua entrega. Mesmo assim, Joe conseguiu iludir durante quatro anos o cerco que lhe foi montado.

Era ao seu esconderijo que chegavam, de tempos a tempos, novos evadidos. Aqui encontravam uma base para a sobrevivência, organizados em grupo. Um bando de foras-da-lei, dizia-se na comunidade.

Royal foi um destes escravos fugidos que encontraram a toca de Joe. Mas nada disto era simples, era preciso ter um bom grau de certeza de não ser uma emboscada. Joe era cauteloso. Não era sem motivo que havia quatro anos que se encontrava em liberdade sem ser um homem livre. Havia qualquer coisa estranha em Royal, o seu discurso não fazia completo sentido. Mas parecia exausto, esgotado, não tinha a certeza de há quanto tempo estava em fuga. Estava confuso. Não era a primeira vez que chegava alguém naquelas condições. Depois da hesitação inicial, Joe e os outros homens – seriam à volta de uma dezena – decidiram ajudar Royal. Afinal, todos eles tinham estado numa posição semelhante. Não ficariam bem com tal falta de solidariedade. Abriram, então, o esconderijo. Mas nunca chegaram a ver Royal, apenas um grupo de trinta brancos armados até aos dentes que dispararam até não haver um único de pé. Royal recebeu as recompensas oferecidas pelas famílias e pelo estado. E continuou escravo.

Blonde Poison e os exterminados

Stella Goldschlag fez por merecer a alcunha que recebeu: Blonde Poison. Veneno Louro, literalmente traduzido.

Nasceu em 1922, uma criança loira e de olhos azuis, o que explica uma parte do nome pelo qual ficou conhecida. Era filha de um casal de Judeus de classe média. Na escola era conhecida pela sua beleza e pela sua vivacidade. Quando em 1933 Hitler assumiu o poder na Alemanha, Stella, assim como as restantes crianças de origem Judaica, foi proibida de frequentar as escolas públicas e continuou a sua formação numa das escolas entretanto formadas pelas comunidades Judaicas locais.

A família Goldschlag tentou uma fuga de Berlim para uma vida nova nos Estados Unidos depois da Noite dos Cristais, em Novembro de 1938. Essa foi a noite em que saíram às ruas de toda a Alemanha milícias paramilitares, auxiliadas por um grande número de civis – e com a cumplicidade das autoridades. Atacaram Judeus, destruíram as suas casas, negócios e Sinagogas. Stella tinha uma aparência impecável, excelente voz e nenhum embaraço em fazer valer o seu charme. Essas qualidades, segundo uma reportagem do Jerusalem Post, talvez pudessem fazer dela uma estrela do Jazz nessa nova vida. Até porque, pouco tempo depois, se casou com um músico de Jazz, também de origem Judaica. Mas não conseguiram os vistos necessários e essa nova vida nunca chegou a acontecer.

O que aconteceu foi uma coisa muito diferente. Em 1942 os Nazis começaram as deportações em massa para os campos de concentração. A família Goldschlag passou à clandestinidade. Stella conseguiu documentação falsa que a fazia passar por não-Judia, com a ajuda da sua aparência ariana. Mas em meados de 1943 foram apanhados pela Gestapo.

Stella concordou em tornar-se ‘catcher’ – um termo que designava um pequeno número de Judeus que entregavam ou denunciavam outros Judeus às autoridades Nazis. Este acordo teria como objectivo poupar a vida dos seus pais assim como a sua.

Tendo vivido escondida, sabia exactamente como e onde procurar. Era muito mais eficaz do que qualquer agente da Gestapo. Servia-se da sua notável memória, do carisma, beleza e poder de sedução. Não hesitava em recorrer ao sexo para obter o que necessitava. Diz-se que recebia 300 Marcos por cada judeu entregue e que o fazia com grande entusiasmo. Um tal entusiasmo que nem os mais dedicados elementos da Gestapo demonstravam. Numa só noite entregou sessenta Judeus às suas sentenças e o número de total de Judeus que terá denunciado varia entre os 600 e os 3.000, dependendo das fontes. O destino destes era invariavelmente os campos de concentração e a morte. Foi este também o destino dos seus pais, primeiro deportados e, depois, mortos num campo de concentração numa região da Checoslováquia ocupada pela Alemanha. O destino do seu marido foi diferente apenas no local para onde foi deportado e morto: Auschwitz. Fica explicada também a resto da alcunha.

Apesar de não terem cumprido a sua parte do acordo, Stella Goldschlag continuou a colaborar com o regime Nazi até ao final da Segunda Guerra Mundial. Casou-se com Rolf Isaaksohn, Judeu que também trabalhava para o Terceiro Reich.

Com a ocupação de Berlim pelos aliados, foi condenada a dez anos de prisão pelo Exército Soviético. Finda a pena, converteu-se ao Cristianismo e assumiu-se como feroz anti-semita. Se isto era uma brincadeira, em 1994 deixou de lhe parecer engraçada. Stella Goldschlag atirou-se da varanda do seu apartamento, em Freiburgo, aos 72 anos.

Judeus que entregavam ou denunciavam outros Judeus às autoridades Nazis

Hedda Hopper, a lista negra e os proscritos

Hedda Hopper foi corista na Broadway e, depois de 1916, actriz em Hollywood. Quando a sua carreira terminou, não tinha deixado qualquer marca indelével na história do cinema. Ficou famosa por outros motivos.

O primeiro desses motivos eram os chapéus. Tinha muitos e nunca a sua cabeça foi apanhada em público a descoberto de um chapéu. O segundo não se conta em duas frases.

Em 1935 a sua carreira estava em franca decadência. Os papéis escasseavam em quantidade e qualidade. Nunca tinha sido uma atriz particularmente talentosa e grande parte dos seus melhores anos tinha desempenhado papéis de mulher de alta sociedade. Embora tivesse feito outras personagens, era esta a sua especialidade. Mas os 50 anos que agora tinha, atiravam-na para fora desse estereótipo. Além do mais, a transição para o cinema sonoro também não lhe trouxera, como a muitos outros actores, nada de bom. E foi precisamente em 1935 que se deixou convencer pelo jornal Washington Herald a assinar uma coluna semanal sobre intrigas nos bastidores de Hollywood.

Mudou-se em 1938 para o L.A. Times e começou, na sua nova coluna intitulada Hedda Hopper’s Hollywood, a cimentar a sua nova reputação e o seu lugar na história. Usando as suas amizades, conhecimentos e contactos, conseguidos ao longo de vinte anos de carreira, uma boa parte da sua actividade consistia em revelar escândalos sexuais, relações extraconjugais, envolvendo estrelas de cinema e aspirantes. A celebridade vende e o sexo ainda mais. Os seus artigos foram progressivamente sendo publicados por inúmeros jornais de todo o país e a sua audiência, no pico da fama, chegou a 35 milhões de pessoas. Dispunha do poder, que poucos alguma vez tiveram, de promover ou arruinar carreiras – a segunda dava-lhe mais prazer.

Mas não se ficou por aqui. No rescaldo da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos da América viveram um período de grande fervor nacionalista, securitário e conservador. Era o início da Guerra Fria e o início daquilo a que se chamou de Caça às Bruxas. O Congresso deu novo vigor à House Un-American Activities Comitee (HUAC), uma instituição que identificava membros do Partido Comunista, cidadãos alegadamente comunistas não afiliados, e outros cidadãos considerados desleais para com os valores e princípios do governo Americano. Uma das actividades mais investigadas foi a produção cinematográfica. Alguns membros desta entidade, assim como do governo, estavam convencidos de que muitos profissionais do cinema estavam secretamente a incluir propaganda comunista nos seus filmes.

Hedda Hopper, profundamente conservadora, republicana e anti-comunista – um bastião da moral, nas suas próprias palavras -, desempenhou um papel muito relevante na constituição da infame Lista Negra de Hollywood, colaborando de forma muito próxima com a HUAC e com o FBI. Nessa lista foram incluídas, de 1947 até cerca de 1960, centenas de profissionais que foram proscritos e impedidos de trabalhar. Agia como informadora da HUAC e do FBI, recebia destas entidades, por outro lado, informações sigilosas que publicava depois em primeira mão. Charles Chaplin, sobre quem escreveu muito e de forma violenta, foi uma das suas vítimas. Depois de uma viagem Inglaterra em 1952, foi impedido de regressar aos Estados Unidos. Viveu na Europa até ao final da sua vida. Hedda Hopper destruiu tantas carreiras e tinha tanto prazer em fazê-lo, que, certa vez, mostrando a sua mansão em Beverly Hills, chamou-lhe “a casa construída pelo medo”.

Não deixa de ser curioso que Hedda, tão conservadora, tivesse sido usada, obviamente debaixo do seu excêntrico chapéu, num cartaz de propaganda Nazi, como exemplo da “decadência Americana”.

Não menos curiosa é a história de como mudou de nome. Tendo nascido Elda Furry, casou-se em 1913 com William DeWolf Hopper, um homem que tinha sido casado quatro vezes. As suas ex-mulheres chamavam-se Ida, Edna, Ella e Nella. Talvez não seja assim tão surpreendente que frequentemente se baralhasse nos nomes das suas ex-mulheres e no nome de Elda. Foi assim que Elda decidiu consultar um numerologista e mudar o nome para Hedda. Divorciaram-se em 1922 evitando assim mais confusões.

Ainda tiveram um filho que, provavelmente herdando o prazer da mãe pela destruição, integrou, durante a Segunda Guerra Mundial, nos Serviços Estratégicos do Exército, uma equipa de demolições.

desempenhou um papel muito relevante na constituição da infame Lista Negra de Hollywood

Judas Iscariotes e Jesus Cristo

Judas entregou Jesus Cristo aos Romanos, e ao seu destino, em troca de umas quantas moedas de prata que lhe fizeram mais peso nos bolsos no momento em que decidiu enforcar-se no ramo mais forte de uma Olaia. Toda a gente sabe esta história.

 

Os que observam à janela e os que são observados da janela

 

Há sempre motivos para fazer denúncias: heresias intoleráveis; luta pela sobrevivência; protecção dos nossos queridos; guerras; ameaças à segurança; à moral; aos valores. Trinta moedas de prata, ou os respectivos equivalentes históricos. Ameaças à saúde; vírus; quarentenas.

Vivemos circunstâncias extraordinárias. Há sempre circunstâncias extraordinárias. Sempre houve, mas a História não iliba ninguém só por esse motivo.

 

2020

Em Portugal

Autarcas do interior pedem às populações para “denunciar” emigrantes que furem a quarentena obrigatória

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Setúbal cria email para cidadãos denunciarem ajuntamentos

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Não usar linha 112 para denunciar incumprimentos da quarentena, apela PSP

 

Em Espanha

Los policias de balcon que insultan a discapacitados y sanitarios por estar en la calle

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El peligroso placer de insultar desde los balcones