Os Guardiões e a Reserva Mundial de Surf: Pedro Moreira Rato

 

Fotografia: DR

 

Se o programa das Reservas Mundiais de Surf, que consagrou a Ericeira em 2011, foi criado pela Save the Waves Coalition, a S.O.S. – Salvem o Surf (que visa proteger e preservar o surf, potenciando o desenvolvimento sustentável dos desportos de ondas) acaba por representar de certa forma uma congénere portuguesa desta organização internacional. Pedro Moreira Rato, dirigente da entidade que integra o Concelho Municipal de Gestão da Ericeira World Surfing Reserve, apresenta a respectiva visão e balanço deste Guardião – o único de âmbito nacional. Com esta entrevista ao representante da S.O.S. na Ericeira – e após termos ouvido a Vereadora Célia Batalha Fernandes da Câmara Municipal de Mafra e Tiago Matos da Associação dos Amigos da Baía dos Coxos –, ficam a faltar apenas as ideias de Miguel Barata de Almeida, presidente do Ericeira Surf Clube.

 

Qual é o balanço que a S.O.S. – Salvem o Surf faz da Reserva Mundial de Surf da Ericeira (RMSE), já a caminho do 10º ano após a respectiva consagração, em 2011?

Infelizmente, não podemos dizer que seja positivo, mas também não achamos de todo negativo.

O Projecto da Reserva Mundial deu à comunidade de surf a possibilidade de participar e contribuir nos aspectos que dizem respeito à orla costeira:
– na tomada de decisão do seu futuro;
– na resolução de problemas existentes;
– na alteração de mentalidades relativamente a problemas ecológicos e à percepção da fragilidade de todo este ambiente.

Mas, ao mesmo tempo, a inércia de todo o sistema e uma percepção mais economicista contraria aquilo que, no nosso entender, deveria primar por uma Reserva, têm atrasado e inclusive criado mais problemas à própria Reserva, onde a ideia de que o surf não comporta um número infinito de gente não foi bem entendida. Dai acharmos que a Reserva enfrenta neste momento graves problemas derivados dum aumento súbito e excessivo de gente sem que houvesse condições e que a própria Reserva da Ericeira não comporta.

a S.O.S. tem sido o elo de ligação entre a Reserva e a Save The Waves

Entre as funções desempenhadas pela vossa instituição no âmbito da Reserva, quais destacam?

A S.O.S. tem sido, desde 2015, o elo de ligação entre a RMS da Ericeira e a Save The Waves Coalition, dando feedback constante de todos os avanços e contratempos, sugerindo e aconselhando os demais.

No entanto, a nossa principal função tem sido motivar e impulsionar, com constantes chamadas de atenção, sugestões e muito trabalho apresentado em prol da Reserva, para que esta não pare nem ninguém seja esquecido na participação das tomadas de decisão. Somos a instituição que, no bom sentido, tem vindo a espicaçar os outros Guardiões para que mais e melhor seja feito. Tudo o que temos feito em prol da Reserva, gostamos de ver e que seja visto como trabalho conjunto dos quatro Guardiões no âmbito do Conselho Restrito da Reserva por uma Ericeira melhor.

Como tem sido a colaboração entre as várias entidades que integram o Conselho Municipal de Gestão?

Em relação ao Conselho Restrito da RMSE, tem existido uma excelente colaboração e relação entre os quatro Guardiões, com uma disposição total para o diálogo, ressalvando apenas o desalinhar pela Câmara Municipal de Mafra (CMM) relativamente a certas matérias para com os restantes três Guardiões, compreensível pelas repercussões de certas decisões em tantos objectivos da CMM, que têm custado tempo à RMSE e com isso o acumular de mais problemas. Já no que ao Conselho Alargado da RMSE diz respeito, e fruto de falta de encontros periódicos, esta colaboração deixa a desejar.

existem três grandes feitos conseguidos pelo Conselho Restrito da Reserva

Quais têm sido os factos mais positivos da Reserva desde 2011?

Para alem das pequenas acções, que seguramente têm sido passos importantes na gestão e manutenção da Reserva, a SOS gostava de salientar os três grandes feitos conseguidos pelo Conselho Restrito:

– O Regulamento 7/2017 – Regulamento do Conselho Municipal de Gestão da Reserva Mundial de Surf da Ericeira.

– O Plano de Gestão da RMS Ericeira 2018/2020

Com o Regulamento 7/2017 deu-se o início formal da Gestão da RMSE, que facilitou a concretização do Plano de Gestão.

– O POC Alcobaça/Cabo Espichel

As referências no POC aos desportos de deslize nas ondas, qualidade das ondas por nível e à RMSE são o princípio de uma legislação nacional de maior abrangência com o intuito de atingirmos os objectivos a que nos propusemos desde início.

Existem alguns pontos negativos?

Como foi referido atrás, o excesso de gente e o aumento da densidade populacional dentro da RMSE, para além de ter diminuído em muito a qualidade de vida dos residentes e principais utilizadores e cuidadores da própria Reserva, tem trazido desordenamento, tanto dentro de água como fora.

Fora de água:
– Aumento do trânsito com pressão nas falésias e praias;
– Aumento de caravanas e similares sem regras;
– Aumento de lixo;
– Desrespeito de regras básicas, com prejuízos evidentes para a flora e também a faunas locais;
– Especulação imobiliária e valorização dos terrenos dentro da RMSE, onde deveriam ser proibidas construções;
– Construções sem critérios de cariz local, onde deveria ser respeitado o modelo de uma traça única.

Dentro de água:
– Aumento de Escolas de Surf dentro da Reserva (onde não deviam existir);
– Aumento do número de alunos por escola ao mesmo tempo na água;
– Aumento de lixo e descargas de resíduos da Estação de Tratamento de Águas Residuais;
– Diminuição significativa da fauna e flora marinhas.

falta transformar-se de facto numa Reserva, onde o objectivo seja a protecção e manutenção da natureza

O que falta para a Reserva cumprir eficazmente o ideal que esteve subjacente à sua criação?

Transformar-se de facto numa Reserva, onde o objectivo seja a protecção e manutenção da natureza tal e qual como ela é, com a mínima interferência humana, como imagem de exemplo. Para isso urge criar defesa no Plano Jurídico Nacional, que defenda esta magnifica e única faixa costeira da cobiça e ganância alheia, protegendo-a para o futuro e gerações vindouras.

Já foi aprovado o plano de gestão para a Reserva Mundial de Surf da Ericeira, relativamente ao biénio 2020-2021?

Não, por culpa da conjuntura actual.

 

Gostariam de acrescentar alguma coisa?

A S.O.S. alerta para a necessidade de consciencialização global da fragilidade desta pequena zona magnífica e rara do património mundial, apelando à sua defesa generalizada e ao afastamento da exploração publica ou privada para outro fim que não seja a sua manutenção, de forma a que se evite mais a desvalorização deste património.