Os Guardiões e a Reserva Mundial de Surf: Célia Batalha Fernandes

 

Fotografia: DR

 

Na 4ª-feira cumpriram-se nove anos sobre a consagração da Reserva Mundial de Surf da Ericeira. Estando, portanto, já a caminho do décimo aniversário deste valioso património, a AZUL inaugura uma série de entrevistas aos Guardiões da única World Surfing Reserve do continente europeu com a Vereadora Célia Batalha Fernandes, entre outros pelouros a responsável da Câmara Municipal de Mafra pelo Turismo, Desporto, Praias e Orla Costeira, realidades umbilicalmente ligadas a este trecho que alberga sete ondas de qualidade ímpar. Pretendemos, futuramente, medir também o pulso às perspectivas dos representantes do Ericeira Surf Clube, Associação dos Amigos da Baía dos Coxos e S.O.S. – Salvem o Surf, as outras entidades que partilham responsabilidades no que toca à gestão da Reserva.

 

Qual é o balanço que a Câmara Municipal de Mafra faz da Reserva Mundial de Surf da Ericeira, já a caminho do 10º ano após a respectiva consagração, em 2011?

Mais do que a notoriedade internacional, o galardão de Reserva Mundial de Surf da Ericeira, atribuído pela Save the Waves Coalition, tem sido, ao longo destes nove anos, um estímulo quer em termos de preservação ambiental, quer em termos da intervenção continuada nas mais diversas áreas relacionadas com a qualificação do destino Ericeira.

o Conselho Municipal de Gestão  tem sido o fórum de articulação, cooperação e partilha do objectivo comum que é a defesa da Reserva

Entre as funções desempenhadas pela vossa instituição no âmbito da Reserva, quais destacam?

Nas diferentes áreas de intervenção municipal, destacam-se primordialmente as acções tendentes ao garante da participação de todas as entidades públicas e privadas relacionadas com a Reserva, por via da criação do Conselho Municipal para a Gestão da Reserva Mundial de Surf da Ericeira e respectivo Conselho Restrito, bem como o trabalho de conservação e valorização costeira, ao nível das infraestruturas, e de sensibilização ambiental, junto dos surfistas, das escolas ou dos visitantes.

 

Como tem sido a colaboração entre as várias entidades que integram o Conselho Municipal de Gestão?

O referido Conselho tem sido, por excelência, o fórum de articulação, cooperação e partilha do objectivo comum que é a defesa da Reserva, integrando as principais associações ligadas ao surf no nosso território, assim representando o espírito da comunidade surfista local.

Na entrega de prémios da Final Nacional de Surf Esperanças, disputada recentemente em Ribeira d’Ilhas.

Quais têm sido os factos mais positivos da Reserva desde 2011?

A responsabilização colectiva em termos de protecção ambiental, assim como o reconhecimento internacional deste importante activo pela comunidade surfista têm sido os factos mais positivos deste percurso de nove anos, que ficou também marcado pelo recente reconhecimento da Reserva no novo instrumento de gestão territorial em vigor, o Programa da Orla Costeira (POC), e pela implementação de diversos projectos de promoção da sustentabilidade do destino, dos quais destaco: as intervenções necessárias à manutenção da autenticidade local, apreciadas por quem nos visita; a implementação da taxa turística, que imputa aos visitantes a responsabilidade de comparticipar os custos com a prestação de serviços e com a qualificação do destino; ou a criação de áreas de contenção para suster o crescimento do Alojamento Local em zonas premium, onde é atingida a capacidade máxima desta tipologia de alojamento.

Ribeira d'Ilhas - ph. Luís Firmo

Ribeira d’Ilhas – ph. Luís Firmo

Existem alguns pontos negativos?

Não se registam quaisquer pontos negativos decorrentes desta distinção, muito pelo contrário. Já neste tempo de pandemia da COVID-19, há a reconhecer, contudo, um problema que é transversal à costa atlântica portuguesa e, consequentemente, também a todas as praias do Concelho de Mafra. Trata-se do estacionamento e da pernoita abusiva de auto-caravanas, carrinhas e outros veículos adaptados, cujos ocupantes são, na sua maioria, provenientes de países do norte da Europa e não respeitam regras de higiene. Antes mesmo deste fenómeno, já a Câmara Municipal havia procedido à instalação de pórticos rebaixados para impedir o acesso de auto-caravanas aos spots de surf, complementada com a criação de áreas de serviço para esta tipologia de veículos. Perante a situação actual, a autarquia está a proceder à instalação de mais sinalética de proibição, afixada nos locais, e já diligenciou, junto das forças de segurança, o reforço da fiscalização e da consequente aplicação de multas.

A Reserva Mundial de Surf significa um trabalho sempre inacabado

O que falta para a Reserva cumprir eficazmente o ideal que esteve subjacente à sua criação?

A distinção como Reserva Mundial de Surf significa, no nosso entendimento, um trabalho sempre inacabado, pois implica assumir, como Guardiões, um compromisso de cuidar em permanência, de modo a garantir que este património único possa ser legado para as gerações futuras. Como se faz esse caminho? Faz-se através de acções regulares e articuladas, visando o fortalecimento da consciencialização da comunidade, tanto ao nível da protecção da ondas, como ao nível da preservação e difusão da cultura de surf local, o que tem sido feito, inclusivamente, por intermédio de abordagens inovadoras, a exemplo do Centro de Interpretação da Reserva Mundial de Surf da Ericeira, das exposições em galeria e ao ar livre subordinadas a temas intimamente ligados à Reserva, privilegiando o envolvimento da comunidade, da edição de livros dedicados ao público infantil, da realização ininterrupta do Festival de Cinema de Surf, com a estreita participação da Save the Waves Coalition, da distinção e evocação de surfistas que marcaram os grandes momentos do surf nacional e internacional na Ericeira, da produção de material informativo sobre a Reserva (sinalética, mapas, conteúdos digitais, guia de surf) ou do projecto da construção do Parque Ecológico da Ericeira, a localizar junto à praia da Empa.

Em representação da WSR na III Feira Náutica do Tejo, em 2014.

Já foi aprovado o plano de gestão para a Reserva Mundial de Surf da Ericeira, relativamente ao biénio 2020-2021?

Em 2018 foi aprovado o referido plano de gestão. Considerando que, actualmente, está em fase final o processo de certificação de Mafra como Destino Sustentável e que este visa a prossecução dos Objectivos para o Desenvolvimento Sustentável (ODS), da Organização das Nações Unidas, nomeadamente em matéria de protecção global do ambiente e do combate às alterações climáticas, deste processo serão emanadas as linhas orientadoras determinantes para a revisão do plano de gestão da Reserva.