Novo livro de Alice Vieira com Ericeira dentro

 

«(…) Tudo o que tenha a ver com a Ericeira – para bem ou para mal – é sempre notícia. Vivi na Ericeira muitos anos e por isso, para mim, ela nunca será uma terra como as outras (…) Paixão é assim mesmo, não se discute.»

A escritora tinha adiantado, em entrevista à AZUL , a publicação da obra que agora nasce. Levantamos aqui uma ou duas “páginas” desta novidade literária.

 

Texto e fotografia: Filipa Teles Carvalho

 

«Só Duas Coisas Que, Entre Tantas, Me Afligiram – Pequenas Memórias» é o novo livro de Alice Vieira, com chancela da «Casa das Letras», e foi lançado esta quarta-feira, na Livraria Buchholz, em Lisboa.

O pequeno fragmento que abre este artigo é de «A Ericeira, Há Muitos Anos», texto do novo livro que reúne histórias e crónicas do dia-a-dia da escritora, muitas delas publicadas no Jornal de Mafra.

«A Ericeira, Há Muitos Anos» será muito especial para os que amam a vila, a Literatura ou ambas.

Nesta obra espreitamos escritores maiores a salvar papagaios de papel perto da Rua de Baixo, ou tios inesquecíveis em teatros que cheiram sempre «a fumo». O conto «Candelabro» é precioso.

Alice Vieira cruza o quotidiano e testemunha a História contemporânea portuguesa e ilumina-lhe pormenores, juntando-lhe vivências sob um olhar sensível e arguto. Dos que retêm a vida.

Olhamos por exemplo, o tempo em que «havia tempo – coisa que hoje já ninguém sabe o que é», conselhos de miúdos («nenhum homem merece que se engorde por causa dele»), a teimosia dos postais («o vidro é sempre frio» ), escrevendo «porque sim. Que – convenhamos – é a melhor e a mais forte das razões.».

Entramos na sua casa, onde antes de 1974 acolheu quem fugia da polícia política: «Temos hóspedes?» – perguntava naturalmente o filho pequeno… sentimos os olhos de Chaplin cravados em nós e até ganhamos alguma familiaridade com o senhor Santini – o dos gelados, pois claro.

Entre largas doses de humor habitam coisas muito sérias e escritores portugueses de que hoje pouco se fala (Abelaira, Gomes Ferreira, Alçada Baptista, etc.) e memórias desses convívios onde até os risos se transformam em Primavera. Há páginas onde moram carros azuis inolvidáveis, festas por tudo e por nada, grandes e despretensiosas lições de vida, saborosas lembranças de «palavras de outros tempos» – como flausina ou escanifobético – ou frases tão portuguesas como «– Eu é que me sinto!», relativas às intermináveis maleitas das eternas senhoras. Por aqui e por ali, entra a modernidade, o Carnaval e a imaginação (que é «tudo») e até o “LOL” e as SMS.

Espreitamos aqui escritores maiores a salvar papagaios de papel perto da Rua de Baixo, na Ericeira, ou tios inesquecíveis em teatros que cheiram sempre «a fumo»

Há escritores e narrativas que não temos que empurrar com nada. Vão sozinhos, para dentro das nossas mentes, sem esforço nenhum. Isto não quer dizer que ficamos os mesmos, nem pensar. Ficamos maiores e, arrisco dizer, melhores.

São assim os livros da Alice Vieira. São cultos sem serem pomposos – ouvem-se como uma voz íntima com subtilezas e elegâncias; neles uma cadeira para o riso e outros assentos para a ironia, para a condição humana e grandes corredores para a memória. E sempre chão para reflectir. Janelas abertas, sem bafios mentais.

São os livros-bolha.

Definição possivelmente arrepiante para a crítica literária, toda a gente que gosta de ler compreenderá o que são os livros-bolha.

Levam-nos directamente a nós, aos interiores alheios, ou por ruas que cheiram a «chumbo» e a «açúcar queimado», onde fervilha o Jornalismo de outros tempos e vivem as pessoas. Ou por outros lados.

Este é um livro polvilhado de sorrisos e segredos, como uma máquina de slides, onde nada é mecânico. Nele vivem os clássicos e o eternamente jovem em recortes vivos.

Tecnologias, escutem: Está bem viva a Literatura que nos leva pelo mundo e também para dentro das conchas e do «cheiro das plantas». Enquanto viverem as emoções e estremecermos, ei-la. Provam-no bons textos com textos dentro, como os que Alice Vieira nos traz nestas «memórias». O do poeta Maiakovski é exemplo disso.

Estima-se que o cheiro e o calor do papel, em livro, sejam insubstituíveis e incomparáveis no prazeroso momento de viver outras vidas alimentando intensamente a nossa. Aquilo a que, em verbo, se chama ler.