Nick Willing: “A Ericeira é a memória mais forte que Paula Rego retém da sua vida”

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Entrevista: Ricardo Miguel Vieira | Fotos: Arquivo Família Rego

 

Nas artes, como em muitas outras áreas da vida, os segredos valem ouro. Seja na música, no cinema, ou na pintura, a profundidade dos significados e intenções expressos pelo autor nas suas peças nem sempre resulta evidente para a audiência. Há canções que requerem uma escuta prolongada, filmes que exigem nova reposição, pinturas que impõem uma contemplação minuciosa. O escrutínio dessas obras, por seu turno, semeia incontáveis linhas e interpretações repletas de juízos sobre o que na realidade são os mistérios e enigmas das experiências de vida dos autores. E poucos terão resguardado tão bem os segredos que as suas obras encerram como Paula Rego.

Nascida a 26 de Janeiro de 1935, a pintora de 82 anos, uma das mais importantes figuras da arte contemporânea, foi ao longo da sua vida um livro fechado, tanto na relação com o público como junto da sua família e amigos mais próximos. Os quadros, porém, sempre foram o porto seguro da artista natural de Lisboa. Foi nos desenhos catárticos e de emoções transbordantes que Paula Rego expôs inquietações e viajou pelos acontecimentos e lugares que marcaram a sua vida – e que deram vida à sua arte. Entre todos esses lugares (físicos mas também emocionais), nenhum outro terá um impacto tão profundo na vida e obra da pintora como a vila da Ericeira.

Paula Rego não se recordará do primeiro dia em que visitou a Ericeira – ainda era uma pequena bébé –, mas tem bem presente na mente e no coração o período em que mais tempo aqui passou. Foi entre os anos 1957 e 74, uma extensão temporal que coincide com os momentos mais felizes e sombrios da sua vida – desde a história de amor com o pintor Victor Willing ao nascimento dos três filhos e à emancipação da sua arte, passando ainda pela morte do pai, a doença do marido, a depressão e o golpe de misericórdia que foi a venda da adorada Quinta Figueiroa Rego por épocas da Revolução. Uma série de episódios que estão agora (finalmente!) documentados em Paula Rego: Histórias e Segredos, um filme realizado pelo filho mais novo da pintora, Nick Willing, ainda em exibição em alguns cinemas portugueses, e que revela os mistérios mais profundos da artista portuguesa – sobretudo a importância fulcral da Ericeira nos quadros da artista.

E foi a partir de Londres, cidade onde a pintora vive há cerca de quatro décadas, que Nick Willing, o homem por detrás da lente, conversou com a AZUL – Ericeira Mag e aprofundou a relação de Paula Rego com a vila jagoz.

 

Em entrevistas recentes, confidenciou que a sua mãe foi sempre um mistério para si. Continua a sentir esse mistério mesmo depois de todas as horas em que conversaram para o documentário?

Ainda é um pouco misteriosa para mim, mas sinto-me mais próximo dela do que alguma vez na minha vida. Falou-me de coisas que nunca antes me contou e sinto que a conheço melhor agora. Embora não seja tanto continuar a ser um mistério, mas sim o trabalho dela permanecer um enigma. Mas agora compreendo melhor o que é ser a Paula Rego, ser um artista, e o porquê das decisões que tomou na sua vida. E isso é muito importante para mim, perceber o modo como tratava a família e os amigos. Como me tratava a mim.

 

O que lê agora na arte da sua mãe que anteriormente não conseguia decifrar?

Sempre pensei que conhecesse o trabalho dela melhor que muitos especialistas da arte dela. Essa foi uma das principais razões que me levaram a fazer este filme. Muitos académicos e especialistas que parecem saber muito sobre o trabalho dela escrevem coisas que me fazem pensar ‘que diabo estão eles a falar’. Eu fazia muitas vezes esta pergunta à minha mãe e ela respondia, ‘Não sei, mas isso também pouco importa’. Dizia que ‘eles têm as suas próprias ideias e isso é que é importante. Não tem de ser necessariamente o que estou a fazer, pode ser o que pensam que estou a fazer, e isso continua a ser válido’. É uma coisa que sempre achei engraçado, ela diz que também é muito bom se as pessoas encontram as suas próprias histórias nas pinturas dela.

Mas o que me interessava mesmo descobrir era a história dela, os segredos por detrás das pinturas. E o que acabei por descobrir é que o ponto de partida para ela é uma história que ela escolhe, mas que se vai transformando e que se torna noutra coisa diferente. No princípio, ela não sabe porquê, mas depois apercebe-se que tem que ver com algo muito pessoal sobre a vida dela. Algo que ainda não resolveu e que inconscientemente sente que precisa explorar. Esses são os segredos das pinturas de que ela nunca fala, não deixa ninguém entrar, mas que dão força às suas pinturas. Na verdade, o que dá essa força à sua arte são as coisas autênticas, íntimas e pessoais. É assim com qualquer artista, seja pintor ou músico ou de outra área.

 

Na abertura do documentário, a Paula Rego diz que precisa regressar a um lugar que conheceu quando era pequena para encontrar o pano-de-fundo das suas pinturas. Reconhece a Ericeira como sendo esse lugar?

Sem dúvida. Meu deus, a Ericeira está em tudo! Conhece o filme Citizen Kane – O Mundo A Seus Pés?** O personagem principal está sempre a tentar regressar à Rosebud, a coisa que de certo modo nunca teve na sua infância. A Ericeira é a minha Rosebud e, de certo modo, também da minha mãe. A Ericeira, mais do que qualquer outro, é o lugar onde ela adorou estar em criança e onde sem dúvida foi mais feliz na sua vida. É um lugar que ela recorda com muito carinho, para onde se mudou quando teve a primeira filha e se juntou com o meu pai e onde se estabeleceu como uma grande pintora. A Ericeira é possivelmente a memória mais forte que retém da sua vida.

 

E contou-lhe como é que sucedeu a primeira vez que visitou a Ericeira?

Quando ela era bebé, os seus pais tiveram de se mudar para Inglaterra para que o meu avô pudesse terminar o seu curso na Marconi. Naquela época, era muito difícil andar de um lado para o outro [entre Lisboa e Londres], não havia aviões comerciais como agora. Tinhas de [ir de carro até França e] apanhar o barco [no Canal da Mancha]. Além disso, a II Guerra Mundial estava mesmo ao virar da esquina. Então ela foi viver com os avós na Quinta [Figueiroa Rego] quando ainda era bebé. É por isso que digo que a Ericeira era como a Rosebud dela, porque foi o lugar mais feliz da infância dela e onde de certo modo cresceu.

Os pais dela acabaram por regressar a Portugal e por volta dos três anos de idade ela foi diagnosticada com Tuberculose e o médico aconselhou que fosse viver perto do mar. Então os seus pais construíram uma casa no Estoril, onde viviam, embora ela nunca tenha gostado daquela casa. Ainda a temos, estive lá recentemente. É uma casa adorável, mas que contém em si uma mistura de sentimentos. Mas eles regressavam sempre à Ericeira nos fins-de-semana e no Verão. Eu também cresci no Estoril, mas passava sempre a época de Verão na Ericeira.

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Paula Rego com o pai, José Figueiroa Rego, e a mãe, Maria de São José Paiva.

“A Ericeira, mais do que qualquer outro, é o lugar onde ela adorou estar em criança e onde sem dúvida foi mais feliz na sua vida.”


O período em que a Ericeira se tornou mais presente na vossa família está bastante retratado no documentário. É sinal de que também guarda a vila como um lugar especial para si?

A Ericeira também é uma memória muito forte para mim, passei muito tempo na Quinta até aos meus 18 anos, altura em que a tivemos de vender. Aquelas filmagens da Quinta e da vila nos anos 70 [que surgem no documentário] foram captadas por mim. Na sequência onde surgem as Ribas, a praia do Sul e [o forte de] Mil Regos tentei recriar o ambiente da Ericeira naquela época, mas cheguei a um ponto em que bloqueei. Então lembrei-me da canção “Naufrágio” da Amália Rodrigues, aquelas duas guitarras que criavam um sentimento de tristeza, saudade, excitação, sensualidade. A Ericeira dos anos 70 era um lugar muito romântico e sexy.

 

Os períodos de férias e lazer na Ericeira eram particularmente produtivos para Paula Rego? Como é que era o dia-a-dia na Quinta?

Foi um período muito evocativo, muito poderoso, onde bebíamos o terrível vinho carrascão que todos achávamos delicioso (risos). Eu ia com um garrafão buscar vinho, custava 9 escudos o litro. Ficávamos todos com diarreia púrpura e os dentes esverdeados (risos). Bebíamos aquilo como se fosse Ribena [nr. um sumo de frutos vermelhos muito popular no Reino Unido].

Foi uma época mágica, muitos artistas britânicos importantes, como Michael Andrews ou Peter Snow, chegavam a passar o Verão na Quinta, que se tornou numa espécie de colónia para eles. Eles ficavam fascinados pela luz da Ericeira – uma coisa de que a minha mãe nunca tirou partido; ela fechava-se na adega a pintar a paisagem que tinha dentro de si mesma. Então tínhamos estas festas incríveis em que bebíamos vinho carrascão o dia todo. A Quinta era então uma espécie de santuário de artistas.

 

E esse ambiente inspirava a sua mãe a criar novas obras?

O alimento criativo da minha mãe sempre esteve dentro dela, muito raramente estava no exterior. Ela explorava as experiências que vivia no seu íntimo. Claro que estas eram tocadas pelas pessoas e lugares e eventos mágicos da sua vida, isso surge no seu trabalho quando está a pintar sobre a sua infância ou quando regressa a lugares como a Ericeira. Mas o que ela está na verdade a fazer [nas suas pinturas] é a regressar a uma relação ou sentimento que ela pretende compreender melhor.

 

E para além da Quinta, que outros lugares da Ericeira gostava a sua mãe de frequentar naquela época?

Ela adorava ir dançar ao Ouriço com o meu pai. Eu quase nunca conseguia lá entrar, mas os meus pais e as minhas irmãs iam lá muitas vezes. Ela também gostava de comer no restaurante Pátio dos Marialvas, perto do Café Xico. Aliás, nós vivíamos no Xico, era o nosso quartel-general na Ericeira. Nós tínhamos muitos amigos e família na vila, como a nossa prima Ana Maria e a avó Bitó. A avó Bitó tinha uma casa muito grande, logo à direita das Ribas, e onde a minha mãe também ia muito.

Nós também íamos à praia de Mil Regos todos os dias. No filme, as imagens da minha mãe semi-nua na praia foram captadas naquela praia. Naquela altura, não se podia conduzir até lá, tínhamos de caminhar pelo empedrado. Íamos de manhã e apanhávamos uns moluscos para o almoço. Quando ela era mais nova, ainda antes do hotel existir, ela ia com os pais para a praia do Sul.

Muitos desses lugares aparecem nas pinturas dela. Se reparar, num dos últimos quadros que pintou, “O Último Rei de Portugal”, aparecem as Ribas, porque aparentemente foi aí que conseguiu um barco para fugir para Gibraltar e depois para Inglaterra. Penso que a minha mãe fez essa pintura por se recordar de como também ela fugiu da Ericeira.


 

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Paula Rego com o marido, Victor Willing e os três filhos – Victoria, Nick e Caroline.

“A Quinta Figueiroa Rego era então uma espécie de santuário de artistas.”


A sua mãe também acompanhava as tradições da vila?

Recordo-me de irmos à igreja algumas vezes, o que sempre achei engraçado. Mas o ritual mais importante para ela era ir ao cinema no Casino. Foi ali que ela viu a ‘Branca de Neve e os Sete Anões’ quando era mais nova. Foi a sua introdução ao cinema animado, o que mudou a sua vida.

 

No documentário, a sua mãe fala dos seus trabalhos em torno do tema do aborto e menciona mesmo acontecimentos dramáticos com mulheres de pescadores da Ericeira naquela época. Ela aprofundou consigo alguma dessas histórias?

Uma história que ela se recorda de forma vívida é a da senhora Feijão, que um dia nos bateu à porta a pedir dinheiro porque precisava abortar. Ela vivia no cimo da Quinta, tinha 10 filhos e o marido, muitas vezes bêbado, batia-lhe imenso. Um dia ela precisava abortar porque não podia ter um 11º filho quando já nem conseguia cuidar dos dez que tinha, então acabou por vir pedir-nos ajuda.

A minha mãe recorda-se muito das situações de desespero das mulheres porque, nos anos 1960 e 70, havia muita pobreza na vila, as pessoas sofriam muito. As histórias da Ericeira nem sempre são animadas ou coloridas. Para a minha mãe, também continham muito sofrimento e dor.

 

Como é que Paula Rego reagiu à venda da Quinta Figueiroa Rego?

Ficou de coração partido, aliás todos ficámos. Foi o episódio mais doloroso das nossas vidas porque tudo correu mal, e por culpa nossa. Perdemos a Quinta, não tínhamos dinheiro, o meu pai estava muito doente e a minha mãe foi-se muito abaixo. Creio que ela perdeu um pouco o discernimento com aqueles acontecimentos, porque vimo-nos forçados a deixar o país, não havia ali mais nada para nós. Eles tinham de encontrar trabalho em Portugal como artistas, mas era muito difícil viver-se dessa actividade naquela altura.

Acabámos por vender a Quinta por muito pouco dinheiro, fomos forçados a isso penso que para pagar a dívida da fábrica do meu avô que, depois de morrer, passou a ser gerida pelo meu pai. A Quinta foi hipotecada inicialmente para pagar a dívida, mas acabou por ser vendida pelo equivalente, hoje, a 50 mil euros. Estamos a falar de uma quinta com mais de 11 hectares [nr. cerca de 11 campos de futebol], uma floresta à volta e muitas casas. Se tivesse sido vendida 10 anos mais tarde, teríamos conseguido o suficiente para pagar a dívida. Mas naquele momento estávamos completamente falidos e não sabíamos sequer se conseguiríamos voltar a fazer dinheiro – a minha mãe não fez dinheiro até meados dos anos 1980.

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Paula Rego com o marido Victor Willing.

“A minha mãe recorda-se muito das situações de desespero das mulheres da Ericeira porque havia muita pobreza na vila, as pessoas sofriam muito.”


É por isso um evento que ainda traz à sua mãe muita dor e saudade. Poderá ela um dia regressar à vila?

Foi como perder um amante, exige aceitar essa perda, o que demora muito tempo. A Quinta e a vila da Ericeira foram os lugares mais importantes e mágicos da nossa vida, e uma das razões pelas quais é muito difícil para a minha mãe regressar a Portugal. Ela adora imenso Portugal, mas perdeu o coração do que ali havia para ela: a Quinta onde o seu pai cresceu, onde ela cresceu e onde os filhos dela cresceram. Ela tem uma ligação muito forte a esse lugar mágico e, quando tudo se perdeu, tornou-se muito difícil regressar. Eu próprio tenho dificuldades em regressar. Sou uma pessoa que não chora, mas acontece quando vou à Ericeira. É muito triste.

 

Há imagens recentes da Quinta Figueiroa Rego no documentário, o que significa que esteve na vila há pouco tempo e que certamente viu as mudanças nos terrenos da Quinta. Como é que reage às transformações daquele lugar onde outrora cresceu?

Imagine o que é perder uma das coisas que lhe são mais queridas para depois regressar e encontrá-la destruída. É realmente uma pena que tenham arruinado a Quinta ao construírem casas em redor. Uma das características dos portugueses é que não sabem preservar as suas preciosidades. Talvez agora estejam a tornar-se mais sensatos, mas a Ericeira era um lugar espantoso até terem começado a construir mais e mais prédios horríveis. A zona velha da vila continua muito bonita – o Jogo da Bola, por exemplo –, mas agora quando regresso encontro qualquer coisa nova que me faz pensar, ‘pronto, estão a tentar arruinar a vila de novo’.

Mas deixe-me dizer que adoro como a Ericeira se tornou num lugar cool para o surf. O meu desejo é que a vila se mantenha tradicional, funky e cool.

 

Em Cascais existe a Casa das Histórias de Paula Rego. Não lhe parece que a Quinta Figueiroa Rego seria ideal para criar um espaço museológico com jardim onde a vida e obra de Paula Rego fossem celebradas?

Não me parece que haja interesse nisso. Ironicamente, vendemos a Quinta a um senhor chamado Guerra que apareceu por lá com uma mala cheia de contos. Ele esburacou a terra, cheia de argila, para a poder vender. Depois mandou as árvores abaixo, também para vender a madeira. E depois vendeu lotes de terreno para construção. Fui à Quinta recentemente para fazer umas gravações e ainda lá estão buracos enormes e só o edifício é que sobreviveu porque já estava erigido, senão também já tinha vindo abaixo. Não é mais o lugar feliz e com jardins bonitos, agora parece uma pequena vila fantasmagórica.

 

Ainda assim, acha importante que o documentário fosse exibido na Ericeira?

O vosso cinema desapareceu, o que é muito triste. Onde é que o projectávamos? Eu acho que as pessoas da Ericeira iriam gostar [do documentário]. Mas eu tenho muitos amigos na vila e mesmo assim não sei bem se estão por dentro da arte. A Paula Rego viveu na vila, mas não sei até que ponto as pessoas seguiram o seu trabalho.

“A Quinta e a vila da Ericeira foram os lugares mais importantes e mágicos da nossa vida, e uma das razões pelas quais é muito difícil para a minha mãe regressar a Portugal.”


A sua mãe vive há quatro décadas em Londres, uma cidade que não está próxima do mar. Porém, o mar, certamente da Ericeira, aparece muitas vezes até nas suas obras mais recentes. Que relação tem Paula Rego com o mar?

Ela sempre disse que o mar é o pior dos sítios para se pintar. O que ela dizia é que se vais pintar para ao pé do mar, acabas por ficar o tempo todo a olhar para ele. O mar é hipnótico e puxa-te para ele. Não é uma inspiração, é algo que te prende a atenção e energia. É como pintar fogo, acabas por ficar o tempo todo a olhar para ele.

A minha mãe agora pinta sob a luz do dia, mas antigamente gostava de o fazer debaixo de luz eléctrica. Sentia-se mais segura, havia menos monstros e criaturas a rastejar do mar ou do fogo para vir ter com ela.

 

Apesar de não fazer planos de visitar a Ericeira, a sua mãe tem saudades de Portugal?

Muitas mesmo. Ela não pôde vir à estreia do documentário, onde estiveram presentes o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e o antigo Presidente Jorge Sampaio, mas surgiu numa chamada via Skype onde disse amar Portugal e todos os amigos que aí deixou. Ela não pode andar de um lado para o outro por causa do seu coração fraco, o médico não lhe permite. Mas ela tem imensas saudades de Portugal.

 

Depois de ter conversado durante tanto tempo com a sua mãe, que razões encontra para que ela seja tão reservada a falar da sua vida e, no entanto, tão aberta sobre si mesma na sua arte?

Os segredos dão força aos seus trabalhos. Se contamos um segredo às pessoas, este perde força, então ela guardou os seus segredos durante toda a sua vida. Mas também por sentir alguma vergonha, por exemplo, de ter sofrido depressão. O facto de ter tido amantes ao longo da vida também é compreensível que ficasse em segredo.

No filme só revelo os segredos que são relevantes para compreender as suas pinturas. Uma das razões porque acho que existem tantos livros sobre o trabalho dela é porque a minha mãe nunca deu qualquer ajuda aos escritores. Mas felizmente consegui convencê-la a desvendar as verdadeiras histórias por detrás das suas pinturas.

 

**Há diversas teorias sobre o significado de Rosebud na película de Orson Wells de 1941. Mas o realizador, numa nota sobre o filme enviada à imprensa naquela época, explica que “no subconsciente de Kane [a personagem principal], Rosebud representa a simplicidade, o conforto, e acima de tudo, a ausência de responsabilidade na sua casa. Também tem que ver com o amor da sua mãe, o qual Kane nunca perdeu“. 

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