Nana da Repolha

Nana da Repolha - ph. Filipa Teles Carvalho

 

Papas na língua não tem e é sem dúvida uma mulher de acção. Aparece-nos como um calmo vulcão de autenticidade e transparece uma força invulgar. Para ela, peixes e mariscos não têm segredos. Conhece-os bem e de há muito. No que respeita ao amor à vila e suas tradições, é uma verdadeira embaixadora.

 

Texto e fotografia: Filipa Teles Carvalho

 

Maria Fernanda Serra Silva Abrantes nasceu na Ericeira a 15 de Novembro de 1940. É conhecida por todos por Fernanda Repolha ou Nana da Repolha. A alcunha já vem do tempo da bisavó e foi-se transmitindo até lhe chegar.

Vende peixe no mercado da vila desde menina e desses tempos, mais antigos, é a que persiste. O seu «minha querida menina» faz-nos sentir imediatamente abraçados por esta mulher que, quando nos olha nos olhos, parece deixar falar a vida.

Nasceu bem perto da praça onde hoje podemos encontrá-la e era minúscula quando o pai a colocou dentro do barrete (de pescador) e «abalou» da casa que vinha literalmente abaixo: «Eu tinha três meses quando veio o ciclone. Era tudo casas velhas… o senhor que morava no primeiro andar veio p’rá casa da minha mãe, a casa dele por cima da nossa. O meu pai pôs-me dentro do barrete e fugiu comigo dali, contava a minha mãe. Eu era pequenininha…cabia lá.»

Filha de pescador, já a mãe vendia peixe. É do tempo em que numa casa viviam duas famílias, do tempo de perguntar: «- Mãe quando é que é o Domingo, que eu quero comer um bife de 15 tostões…?»

Eu gosto muito da minha Ericeira. A minha Ericeira é linda!

Foi como se tivesse 20 anos que atravessou a estrada para ir ao restaurante em frente ver na televisão um amigo fazer uma salada de polvo vendido por ela. Olhava o aparelho e aparecia um sorriso imenso. Elogios logo a seguir, para a cozinheira da casa. Nada fica por dizer. Tanto diz – «arrepiada» – a alguém que não pode ser cínica, como diz ao presidente da Câmara que as recentes grandes superfícies abertas junto à vila estão a condenar o comércio tradicional.

Os polvos “de Fernanda" também vão à televisão.

Os polvos “de Fernanda” também vão à televisão.

Apoia o neto, que com ela continua o negócio, e o carinho e dedicação, mútuos, saltam à vista. É ele, Alfredo Agostinho, que nos conta que a avó é uma excelente compradora/vendedora e que sempre foi destemida no negócio, mesmo quando as coisas não parecem fáceis. Que a avó adorava a feira dos alhos («tem imensa pena do fim desse evento»), assim como caneja de infundice, e que é uma grande devota da Nossa Senhora da Boa Viagem: «enquanto tiver saúde podem crer que marcará presença descalça e com a sua canastra bem decorada na cabeça».

Da infância na Ericeira, Fernanda assegura ter só boas recordações. Fez a quarta classe e é com um sorriso natural que afirma: «eu de contas era o que quisesse».

Vai depois buscar um dia específico, aquele em que teve de fazer «a redacção». Aconteceu depois do Natal e a redacção era sobre isso: como haviam passado a ceia.

Nessa altura o pai já não ia ao mar há três meses. «Ora o que é que eu fiz?», conta. «Fiz a redacção: Passei o Natal bem, o meu comer foi sopa de feijão encarnado com massa. Bem… eu chorei. Todos da minha turma apresentaram outras coisas muito boas, tudo tinha peru, isto e aquilo. E a professora disse: – Fernanda, tu é que comeste sopa de feijão com massa? Sim, senhora, a minha mãe não tinha outra coisa. Cheguei a casa e a minha mãe viu-me triste; perguntou o que se passava. Eu lá falei do peru e das coisas que todos tinham posto. A minha mãe disse: – Filha, quando a professora te perguntar, tu dizes: «Da goela para baixo é tudo um piru». Fernanda diz isto de uma forma engraçada, transformando o «e» em «i», com a convicção e o sorriso de quem ganha uma arma que não magoa.

E assim, ao próximo «coitadinha da Fernanda» dito pela professora, não perdeu a oportunidade de brilhar com esta resposta-pérola.

O peixe não tem segredos para ela. E afiança: «Não tenho medo de comprar. E o meu neto sai a mim».

O peixe não tem segredos para ela. E afiança: «Não tenho medo de comprar. E o meu neto sai a mim».

Ainda sobre esse tempo, continua: «A minha mãe nunca me deixou andar aí na boa-vai-ela. Eu comecei logo a vir com ela para esta praça, aos 10 anos. Ganhava 10 tostões por dia. A escamadeira pesava mais que a minha mão. A escola fechava e a minha mãe não me queria por aí.

Tudo o que é da Ericeira é bom, nada é mau.

Continuou a trabalhar na praça, «já uma mulherzinha grande», e não se esquece que ganhava 25 tostões por dia.

Começou a namorar aos 16 anos com o marido, com quem está casada há 58. Foi a uma marcha da Ericeira – que ganhou aquele ano – e foi aí que se viram pela primeira vez. Ele era de Lisboa, de Benfica. Namorou três anos, ele sempre fora, nos Bacalhoeiros – «Chegava a demorar três meses a receber-se uma carta.»

Quando lhe pergunto sobre as qualidades que pensa ter, responde: «é ser boa, gostar de dar. Eu parece que tenho uma coisa na cara que vem tudo ter comigo.»

Ao que aprecia mais na vida, Fernanda não hesita nem um pouco: «TUDO! Marido, filha, netos e vida em geral: tudo! Tenho amor à minha vida e a eles.»

Manter a alegria é uma decisão: «Eu tenho sempre alegria. Quer dizer, às vezes tou muito chocha e de repente digo: - Eu não posso tar assim!»

Manter a alegria é uma decisão: «Eu tenho sempre alegria. Quer dizer, às vezes tou muito chocha e de repente digo: – Eu não posso tar assim!»

Os dias que mais gosta são «A Espiga e o Natal. O meu pai (na Espiga) fazia lá a caldeiradinha, e à noite era febras. Naquela altura, não havia formas. Eu fazia um bolo dentro do tacho. E levava-se para a Espiga. Levava os cobertores, tudo. E ficava-se lá a conviver todo o dia.»

Reconhece que foi grave perder-se a lota na Ericeira e que o Porto tem que ter condições. Antigamente o peixe era vendido na lota, “ao chui” (forma de licitação em que o vendedor cantava, até que alguém o mandava parar, fechando a compra).

«Era muito peixe-espada, pargos, gorazes, chaputa», isto quando a lota ainda era lá em baixo, continua Fernanda.

E como era isso do “chui”?

«Então, era assim: Por exemplo: 29, 28, 27… – chui! – É Maria Repolha. Faziam um carreirinho de peixe e eu calculava, isto é bom para mim; e eu dava o “chui”.»

Até que um dia isso acabou.

«Tudo isso acabou», desabafa Fernanda com pesar. Mesmo assim, ainda se luta: anda-se a «escrever» para ver se consegue retomar-se a lota.

Adora o que faz. «Quando vejo coisas lindas eu fico doida. Lagostas… gosto tanto…».

Quando não é bom já não vem. Se está hesitante em comprar alguma coisa que não seja excelente e pergunta ao neto, ele responde: «Tu lavaste a cara?» (risos).

Nana da Repolha - ph. Filipa Teles Carvalho

Sobre o mar há outra palavra a juntar à beleza. É a palavra respeito.

Tem memórias de quem tenha ido, «numa leva de mar», um primo que nunca mais apareceu. Por causa disso, era pequena mas lembra-se bem, o pai de Fernanda, camarada, esteve 15 dias fechado no quarto, às escuras.»

se as pessoas não vierem aqui e forem comprar a outros lados, eu vou fechar a minha loja.

Fernanda confirma uma terra em mudança: «A minha Ericeira muda, tá a mudar. É pena eu já ser tão velha, que eu tenho tanta pena da minha Ericeira…».

Acha que tem sido muita coisa bem feita, mas não esconde o que representam para ela e para o comércio local os hipermercados: uma ameaça. «Minha querida, se as pessoas não vierem aqui e forem comprar a outros lados, eu vou fechar a minha loja. Vai dar cabo da Ericeira. Eu disse ao Presidente [ndr: da Câmara Municipal de Mafra]. E o rapaz do talho disse a mesma coisa. A minha Ericeira fica feia. Três hipermercados, uns ao pé dos outros.»

É uma pessoa bem-disposta, coisa que outros confirmam e Fernanda Abrantes não nega: «Eu posso tar a morrer que tou sempre assim. (risos) gosto muito de brincar, gosto de pular, de fazer arraial, gosto de tudo.»

É uma pessoa bem-disposta, coisa que outros confirmam e Fernanda Abrantes não nega: «Eu posso tar a morrer que tou sempre assim (risos). Gosto muito de brincar, gosto de pular, de fazer arraial, gosto de tudo.»

«Eu vou muito à boate», atira Fernanda, a rir. «Saio da minha casa, mais o meu neto, à meia-noite e um quarto, entro às quatro horas da manhã, diga lá se não é? Chego aqui e digo que venho da boate».

E o mundo, Fernanda, o mundo precisa de quê? Que desejos tem para ele?

«Paz! Paz! Paz! Paz e sossego! Paz na Ericeira e no mundo!»

Nana da Repolha - ph. Filipa Teles Carvalho