Memórias do Surf Jagoz: José Gregório

 

Fotografia: DR

 

Impressão Digital

José Gregório Cardeira Varela, também conhecido como Grego

Nascimento a 23 Novembro de 1973 na Nazaré

Director da Quiksilver Portugal

Quando é que começaste a surfar? Foi na Ericeira ou noutro sítio?

Comecei a surfar em Junho de 1986 em Carcavelos. A primeira vez que surfei na Ericeira foi na Primavera de 1987 em Ribeira d’ilhas e, mais tarde, nos Coxos.

éramos os primeiros surfistas profissionais a fazer dos Coxos a nossa casa

Quantas pessoas surfavam pela Ericeira quando começaste a apanhar ondas aqui?

Quantas pessoas surfavam não sei, mas já eram algumas nessa época, lembro-me de já haver uma grande comunidade nos Coxos, com pessoal que vinha da Linha do Estoril, de Lisboa e alguns que passavam aqui férias. Lembro-me de serem os big riders do país naquele tempo. A maior parte deles são hoje em dia meus amigos e quase todos continuam a surfar nos Coxos. Muitos destes nomes que falo têm hoje em dia entre 50 e 60 anos, são todos de uma geração acima da minha. Lembro-me de olhar para muitos deles como verdadeiros heróis, O Nick Uricchio a surfar São Lourenço com o mar gigante sozinho, os Ruivos (exímios tube riders) e muitos mais. Só algum tempo depois, por volta de 91/92, é que a minha geração, juntamente com o Paulo ‘do Bairro’, começou a surfar nos Coxos mais regularmente e a fazer subir o nível dentro de água. Éramos os primeiros surfistas profissionais a fazer dos Coxos a nossa casa.

 

Em que picos ou praias costumavam surfar mais?

Coxos, Pedra Branca e Reef eram as ondas escolhidas, mas também surfávamos muito Ribeira d’Ilhas e os beach breaks a Sul da vila, Mais tarde começámos a surfar a Cave.

lembro dias de mar grande em que tinha de ficar à espera que alguém aparecesse para não surfar sozinho

Que memórias guardas desses tempos dourados?

Dias de 30/40 tubos nos Coxos, surfávamos muitas horas e sempre a contar quem fazia mais tubos. E depois ainda íamos para a Pedra Branca. Uma coisa de que me lembro bem também eram alguns dias de mar grande em que tinha de ficar à espera que alguém aparecesse para não surfar sozinho, não havia telemóveis para chamar amigos nem o crowd que temos hoje.

tenho orgulho em pertencer a esta comunidade

Quais foram as maiores mudanças desde que começaste a surfar?

Talvez o nível de surf dentro de água, que tem vindo sempre a evoluir, e também o facto de entre as primeiras gerações dos Coxos quase ninguém ser nativo da vila, quase todos os locais vieram de fora por causa da qualidade desta onda. Hoje em dia já temos uma geração de miúdos locais que nasceram e cresceram na vila. A história e cultura que a comunidade de surf dos Coxos deixou criou um exemplo de localismo e civismo sem exemplo no país. Os Coxos é o pico onde as regras são mais respeitadas sem qualquer violência. Tenho orgulho em pertencer a esta comunidade.

Continuas a surfar? Com que regularidade? Procuras fugir do crowd?

Sim, continuo a surfar muito, talvez 4 ou 5 vezes por semana e organizo sempre os meus dias em função das marés e ventos. Tenho o meu lugar no pico dos Coxos e sempre que está bom tento lá estar porque gosto muito desta onda.

hoje em dia a Ericeira é a capital do surf europeu

A essência do surf na Ericeira também mudou?

O surf na Ericeira, no meu entender, passou por varias fases desde os anos 80. No princípio era aquele sítio agreste e inóspito das ondas grande e tubulares, onde cresceu toda uma comunidade de grandes surfistas; depois nos anos 90, com a explosão dos eventos de surf e a moda do surfwear, a Ericeira foi palco dos maiores campeonatos do país. Mais tarde, em 2008 veio a crise que acalmou muito as coisas na vila. Mas a partir de 2010 com a chegada da Quiksilver Boardriders e a criação da Reserva Mundial de Surf [ndr: em 2011] a vila foi ganhando o seu espaço no cenário europeu e hoje em dia não tenho a menor duvida que a Ericeira é a capital do surf Europeu. Apesar da indústria historicamente estar instalada em Hossegor e Biarritz, as condições naturais encontram-se aqui. Este paralelismo também acontece na neve, onde temos a indústria baseada em Munique mas todos os praticantes vão para os Alpes. Toda a costa, da Caparica àNazaré, é para mim os Alpes da Europa para o surf. Temos todos os tipos de ondas: para aprendizagem, beach breaks, reefs, ondas tubulares de classe mundial e a maior onda do mundo, o Everest do Surf, a Nazaré. No meu entender, ainda estamos no principio da exposição da nossa costa como destino preferencial do surf europeu.

não podemos ficar de braços cruzados em cima do trabalho feito

O que mudou após a consagração da Reserva Mundial de Surf?

Como já disse um pouco atrás, a Reserva foi um dos factores que melhor expôs a qualidade das ondas da Ericeira ao mundo. Na altura o ainda Vereador e hoje em dia Presidente da Câmara Municipal, Hélder Sousa Silva, propôs-me fazer um evento de surf nos Coxos. Foi a partir daqui que lhe dei a ideia da Reserva Mundial de Surf e expliquei a necessidade de preservar o nosso património por muito mais tempo do que um evento de surf que apenas ia queimar os Coxos e não tinha continuidade futura – aliás, estamos a ver hoje em dia que os eventos tem muito pouca importância. Tivemos a sorte do Hélder ser um Presidente de Câmara com uma visão muito diferente dos demais colegas e ter abraçado este projecto, que se tornou o ex-libris da vila. Como em tudo na vida, não podemos agora ficar de braços cruzados em cima do trabalho feito. A Reserva tem de ser mantida e a nossa costa preservada ao máximo para não se estragar a imagem que foi passada. Todo este turismo do surf que nos visita gosta de qualidade, estamos a falar de jovens europeus instruídos de classe média que viajam para aqui porque sabem que vão encontrar um sitio limpo, organizado e diferente de Torremolinos, por exemplo. Neste momento, estamos a enfrentar uma vaga de caravanismo e campismo selvagem que está a pôr em risco a qualidade da Reserva Mundial de Surf. Há que dar continuidade ao trabalho feito até agora. A Reserva é de todos e tem de ser mantida por todos. A Ericeira só tem a ganhar em preservar e manter a sua qualidade.