Memórias do Bodyboard Jagoz: Tiago Pinto

 

Fotografia: DR

 

Impressão digital

Tiago Manuel Gonçalves Palhares Pinto

Nascido a 30 de Abril de 1972 em Lisboa

Consultor SAP

 

Quando é que começaste a surfar?

O Boogie Board foi inventado em 1971 pelo Tom Morey e eu nasci um ano depois. Alguns anos a seguir, o filho de um colega de trabalho do meu pai começou a trazer para a Ericeira os primeiros “Morey Boogies”, como eram apelidados na altura. O Zé “Tubarão” Marques da Costa é, sem dúvida, um dos principais responsáveis pela introdução do bodyboard na Ericeira e em Portugal. Eu já tinha experimentado tanto surf como bodyboard na infância, até porque o meu irmão já praticava assiduamente bodyboard, aí desde 78. Já existia a icónica Mach 7-7, depois das pioneiras 136, 142 ou 148, mas é em 1984, nos meus 12 anos, que o pai do Zé me traz uma Mach 10 de San Diego. A partir daí são 36 anos de bodyboard que faz parte constante da minha história.

a introdução do BB em Portugal está associada às pessoas que trabalhavam em companhias aéreas

Quantas pessoas surfavam pela Ericeira quando começaste a apanhar ondas por cá?

Surf já havia alguns. Bodyboard, quem começou por cá foi o meu irmão, Pedro Pinto, dois juízes do Porto, o Miguel Theriaga na Linha do Estoril e o Vasco Mensurado em Peniche. E ainda o Rodrigo Bessone na Caparica. Cá na vila, a seguir ao meu irmão foi o Miguel Barata, o Duarte “Dunhas” Lopes, o Carlos “Carinha” Soler, por volta de 1982, e poucos mais. A introdução do bodyboard em Portugal está estreitamente associada às pessoas que trabalhavam em companhias aéreas e à facilidade que tinham em trazer “as novidades” lá de fora. A partir daí a disseminação do desporto foi muito rápida e acompanhou o grande boom internacional. Eu comecei oficialmente em 1984 e fui o primeiro no meu círculo de amigos mais próximos. Imediatamente larguei as pranchas de esferovite e os colchões Repimpa e abracei a Mach 10.

 

Em que picos ou praias costumavam surfar mais?

Comecei na Praia do Sul, onde ainda hoje sou assíduo. Mas os picos da Foz do Lizandro, a Pedra Branca e o Reef, a Moita na Praia do Norte e, por vezes, Ribeira d’Ilhas, eram lugares comuns. Além de todos os picos da zona, infinitamente explorados ao longo dos anos.

os tempos dourados continuam até hoje

Que memórias guardas desses tempos dourados?

Há que perpetuar os tempos dourados. E eu insisto em fazê-lo até hoje. Ainda ontem surfei três horas e hoje sinto “aquele” dorido muscular muito bom. Havia incomparavelmente menos crowd na água e lembro-me de competir no circuito nacional, se bem que durante pouco tempo, porque a competição não era “a minha cena”, e de fazer algumas grandes viagens com a prancha debaixo do braço. Sendo o bodyboard algo indissociável da minha vida, mais para a esquerda ou mais para a direita (risos), os tempos dourados continuam até hoje.

vivem-se sensações de enorme prazer, difíceis de explicar a quem não pratica um desporto de deslizar nas ondas

Quais foram as maiores mudanças desde que começaste a surfar?

O bodyboard, como desporto, viveu realmente anos de ouro durante os anos 80 e 90 do Século XX. Depois “passou de moda” e sofreu muito, ressurgindo graças aos “teimosos” australianos que continuaram a investir a todos os níveis. Mais recentemente, parece que há um sentimento renovado de esperança, com mais gente a abraçar novamente as esponjinhas. A nível técnico, longe vão os tempos em que se furavam as pranchas para lhe pôr umas quilhas ou um leash no pé, como no surf, coisa que nunca fiz. Houve muita experimentação a nível de materiais das pranchas, como os cores em Arcel ou os decks em polietileno de alta densidade ou mesmo bottoms sem slick, algo impensável nos dias de hoje. Mas no fim chegámos a um consenso maioritário, com os decks em polietileno de menor densidade, os cores em polipropileno ou polietileno de densidades variáveis e os bottom slicks em Surlyn. Agora experimentam-se diferentes stringers (longarinas internas que, a par dos materiais do core, garantem a elasticidade e “memória”) que reajam às diferentes temperaturas de água ou diferentes estilos de performance. Também há menos pranchas sem embossos ou contornos no deck e com dois ou quatro canais no slick. Há muitos shapes e opções no mercado, é só escolher. A nível de performance o bodyboard de hoje está muito mais acrobático nas manobras, com os Air Roll Spins (ARS), os backflips ou os Invert Airs, depois dos El Rollos ou dos spins. Mas será sempre na leitura e aproveitamento da onda e, principalmente, no estilo e no flow que está a essência que distingue quem sente o bodyboard como eu acredito que deve ser. Nós cá temos, e sempre tivemos, atletas de topo, femininos e masculinos, infelizmente pouco reconhecidos e pouco apoiados, já que o surf leva normalmente primazia sobre o underdog bodyboard. Temos regularmente campeões europeus e portugueses a ganhar etapas do circuito mundial, mas ninguém fala disso e não recebem medalhas do Presidente da República. Para nos mantermos actualizados continua a ser imprescindível esgatanhar e procurar informação, antes nas revistas e agora online. Mas o acesso à informação sobre os pormenores do bodyboard continua a ser difícil.

Continuas a surfar? Com que regularidade? Procuras fugir do crowd?

Continuo assiduamente e durante todo o ano. Há poucos anos emigrei durante um ano, para uma cidade sem mar, e sofri bastante. Quanto ao crowd, costumo dizer que prefiro ondas de um metro sem ninguém (ou só com os muito poucos amigos que ainda me acompanham) do que ondas de dois metros com dez ou mais gajos na água. Já não tenho paciência para os “joguinhos” da prioridade no pico.

 

A essência do bodyboard na Ericeira também mudou?

Entre 1984 e 1995 parece que toda a gente tinha um bodyboard. Mulheres, crianças e até famílias inteiras. Depois o bodyboard sofreu muito por falta de investimento da indústria e, mais recentemente, o surf virou moda. Agora parece que o bodyboard vai um pouco a reboque e há um ressurgimento do desporto. A nível local foram muitos os que mudaram do bodyboard para o surf, mas também há muitos que foram desenvolver as suas vidas pessoais e profissionais e que agora voltam a buscar a saúde e a diversão no mar ao fim-de-semana e nada melhor que o bodyboard para ajudar a renovar a vida.

O que mudou após a consagração da Reserva Mundial de Surf, em 2011?

A massificação pode ajudar a indústria e qualquer investimento em proteger a nossa costa e as nossas ondas é muitíssimo importante. O pior são os interesses comerciais e imobiliários que rondam estes investimentos e que podem toldar a positividade dos mesmos. Isso acontece muito com pessoas que nem estão ligadas directamente ao bodyboard ou ao surf. O desmesurado e descontrolado crescimento do número de escolas de surf ou alojamentos associados tem, muitas vezes, efeitos negativos na essência do desporto. O Miguel Barata de Almeida tem investido muito da sua vida na manutenção dessa essência, principalmente no âmbito do Ericeira Surf Clube. Eu continuo a advogar o desporto, mantendo-me actualizado e promovendo a sua prática. Vivem-se sensações de enorme prazer, difíceis de explicar a quem não pratica um desporto de deslizar nas ondas, em total sinergia com a energia do mar. Quer escolham o bodysurf ou o surf, o windsurf ou o skimming, o importante é a diversão. O bodyboard faz definitivamente parte do meu coração e espero continuar a disfrutar de um bom tubo ou dum grande El Rollo por muitos e bons anos.