Memórias do Bodyboard Jagoz: Miguel Barata de Almeida

 

Fotografia: DR

 

Impressão digital

Miguel Nuno de Mello Barata de Almeida

Nascido a 14 de Setembro de 1968, em Lisboa (por acidente)

Formador/Professor [ndr: actual presidente do Ericeira Surf Clube]

 

Quando é que começaste a surfar?

Como grande parte da minha geração, comecei na Praia do Sul com as primeiras experiências nas ondas durante o final da década de 70. Até ter o meu primeiro Bodyboard, em 1982, os saudosos colchões “repimpa” preenchiam-nos os longos dias de Verão e fomentaram o bichinho pelas ondas. Surgiram também neste período as primeiras pranchas de esferovite. Como se partiam com grande facilidade, aproveitei muitas e fui substituindo os “repimpa”. Até tive uma prancha feita por um amigo com shape de um Morey Boogie 136, em esferovite, contraplacado e revestida com cola de madeira.

O nosso Grupo – o Team Barafunda – começou em 1982

Quantas pessoas surfavam por cá nessa época?

O nosso Grupo – o Team Barafunda – “oficialmente” começou em 1982. Éramos um grupo com cerca de 20/30 miúdos, que nas férias se juntava e ainda hoje tem fortes relações de amizade, em que somente eu e o meu irmão vivíamos na Ericeira. Os primeiros Bodyboards surgem neste período, através de uns amigos que viviam em San Diego e de um primo seu que cá passava férias e fazia parte do nosso grupo. Rapidamente, conseguimos também adquirir uns desses modelos Morey Boogie 136 e a partir daí a paixão dura até hoje. Quem se fixa como praticante de Bodyboard fui eu e o Pedro Pinto, logo seguidos do Duarte “Dunhas” Lopes. Neste período já existiam diversos surfistas locais um pouco mais velhos que nós, tais como o Luís Reis, João Carlos Mano, Álvaro Botelho, Pedro Mira Godinho ou o “Figuinhos”, aos quais se juntavam o Luís Azambuja, Miguel Palma, o saudoso Alex Barros, Zé Menezes, Miguel Montez, Diogo Sarmento ou o Jorge Almeida, que desde miúdos passavam cá férias.

Em que picos ou praias costumavam surfar mais?

Iniciámo-nos na Praia do Sul, onde o “Cú de Galo” e o “Sítio dos Homens” foram os primeiros picos, secundados depois pelas Furnas, Papuços e Tubarão (ainda não havia pontão na Praia do Sul). O nome “Pico do Futuro” vem desta altura. Falávamos entre nós, ao olhar para o pico, que no “futuro”, quando evoluíssemos, iríamos lá surfar. Nos anos seguintes iniciámos um processo de emancipação, descobrindo, mais para Sul, Limipicos, Malhadinha ou a Lage dos Tubos. Por aí nos fixámo durante alguns anos, descobrindo também os fundos de areia do Lizandro e São Julião, progredindo também para o Algodio, São Sebastião, Matadouro, Empa ou Ribeira d’Ilhas.

íamos para a praia muito cedo e chegávamos a casa em cima da hora do jantar

Que memórias guardas desses tempos dourados?

Eram dias de sonho. Intermináveis. Íamos para a praia muito cedo e chegávamos a casa em cima da hora do jantar. Estivesse nortada, glass, marés vivas, flatadas ou nevoeiro tínhamos sempre uma enorme disposição para estarmos todos juntos na praia, a desfrutar da nossa juventude. Saíamos depois do jantar, íamos todos à vila, invariavelmente encontrávamo-nos em Santa Marta ou no Salão de Jogos. Todas as noites, antes de regressarmos a casa, passávamos pela Praia do Sul para ver o mar e procurar antecipar as condições para o dia seguinte.

entrávamos com camisolas de gola alta, fazíamos 2 a 3 ondas e saíamos a correr para perto das fogueiras

Quais foram as maiores mudanças desde que começaste a surfar?

Logo para começar, o aparecimento do primeiro importador de pranchas (Grosal) e das primeiras surfshops – a Utilmar foi pioneira na Ericeira. Algo que não havia quando comecei. Os meus primeiros modelos novos Morey Boogie 140 e Mach 7-7, e também barbatanas Churchil, vinham de San Diego. Não havia material em Portugal. Houve uma evolução nas pranchas, com introdução dos slicks, promovendo maior velocidade. Surgem também as primeiras barbatanas apropriadas ao Bodyboarding. Nem imaginam a diferença para as “Simotal” com que nos iniciámos. A evolução na qualidade dos fatos também foi evidente, até aos dias de hoje – os primeiros invernos, ainda sem fatos, fazíamos fogueiras nas praias, entrávamos com camisolas de “gola alta”, fazíamos 2 a 3 ondas e saíamos a correr para perto das fogueiras para nos aquecermos. Os primeiros fatos foram sempre comprados em segunda mão a “bifes”. As compras eram sempre feitas no dia, ou na véspera, de se irem embora de regresso aos seus países. Calções, t-shirts ou pranchas também se adquiriam assim.
Poucos eram os que tinham mais de uma prancha e mais que um fato, o que é impensável nos nossos dias. Hoje em dia, temos uma quantidade de praticantes e agentes económicos como nunca. O Surfing está na moda, está também a chegar a alguns grupos sociais que outrora nem sequer ousavam experimentar.

Continuas a surfar?

Já entro menos vezes. Para além de procurar entrar com as melhores condições, a forma física já desapareceu e o Ericeira Surf Clube ocupa-me muitas horas dos meus dias. Sempre que posso, gosto muito de poder estar na água, a conviver com os amigos e a procurar distraí-los para conseguir ir apanhando as minhas ondinhas. Este Verão estou a gostar muito de ver o meu filho Manel, com o seu grupo de amigos do Grupo Desportivo União Ericeirense, a entrarem religiosamente todos os dias, ainda sem muito jeito, mas com muita atitude e vontade de aprenderem. Que seja o futuro do Bodyboard da Ericeira.

 

A essência do Bodyboard na Ericeira também mudou muito?

Mudou muito. Se entre finais dos anos 80 e meados de 2000 havia muitos praticantes de Bodyboard na Ericeira, actualmente estamos a pagar o preço da moda ser o Surf e os miúdos (o garante das gerações de futuros praticantes) estão na sua maioria focados no surf. No entanto, temos ainda vários “resistentes” que não desarmam e continuam a desfrutar ao máximo do Bodyboarding. Começaram agora a surgir alguns miúdos a desfrutarem do Bodyboarding, temos de os agarrar!!! No Ericeira Surf Clube, continuamos a manter o nosso Circuito de Bodyboard, de forma a que também os mais velhos possam continuar a estar próximos uns dos outros e a puxarem pelos mais novos.

Com amigos na Praia do Sul.

O que mudou após a consagração da Reserva Mundial de Surf da Ericeira?

Esta consagração tem naturalmente aspectos positivos e negativos. Se, por um lado, significa que as nossas ondas são de elevada qualidade, devendo ser protegidas, tal como a sua área envolvente, surgiram também novos negócios associados, criaram emprego, transformaram socialmente a vila e a região. Quando era miúdo, poucos eram aqueles que, para além de serem Pescadores, trabalharem em lojas ou cafés, conseguiam trabalhar na Ericeira. E até estas profissões eram bastante sazonais ou dependiam das condições climatéricas e do mar. Hoje em dia já é possível para muitas famílias. O Surfing, garantidamente, tem tido uma grande importância nesta evolução. Por outro lado, o crescente aumento do número de praticantes nacionais e estrangeiros provocou um significativo fluxo migratório, com muitos a radicarem-se cá. Com isto passou a haver uma maior pressão ambiental, imobiliária e no mar, colocando, a meu ver, alguns problemas que tardam em ser corrigidos. A Ericeira tem características muito próprias. É para ser estimada, protegida e valorizada. Não é para ser abusada e destruída lentamente. O grande desafio para o futuro será encontrar o ponto de equilíbrio para a mantermos o mais sustentável possível.