«A memória mais antiga é de dançar o ‘twist’ [com Paula Rego] no terraço na Ericeira»

Paula Rego - ph. Arquivo Família Rego

 

Fotografia: Família Rego

 

Numa tocante e reveladora entrevista concedida recentemente ao site Ponto Final, a propósito duma bienal de mulheres artistas em Macau amadrinhada por Paula Rego (a quem a fragilidade crescente dos 83 anos não permitiu a presença física, sendo representada por uma das filhas), Victoria Willing faz uma viagem no tempo e no espaço que não poderia deixar de incluir a Ericeira, que desempenha um papel crucial na biografia e obra da mais destacada pintora viva da nossa época e um dos maiores vultos da arte europeia contemporânea.

Seleccionámos alguns trechos relativos à Ericeira da conversa que teve a actriz e dramaturga como interlocutora e cuja introdução fala sobre “Dançar, dançar horas infinitas no terraço luminoso da casa da Ericeira, nos anos iniciais em que o tempo passado com a mãe era absorvido com a intensidade de quem divide a atenção, em cada dia, com a devoção estendida à criação artística. Colar o rosto à porta da adega convertida em estúdio e esbarrar no silêncio, na impossibilidade de penetrar um mundo secreto onde a pintora se entrega ao exercício contínuo de deitar sobre o papel e a tela personagens recortadas, narrativas resgatadas de um inconsciente onde a dor funda aos poucos se desvenda.”

A memória mais antiga é de dançar o ‘twist’ no terraço na Ericeira, Quando os Beatles cantavam ‘She loves you, yeh, yeh, yeh’. A dançar, a dançar com ela, no terraço na Ericeira, é a memória mais remota. Ela gostava muito de dançar.

 

Nessas altura era, nessas alturas quando estávamos na Ericeira, no Verão. Ela tinha lá um sítio onde trabalhava, que era uma adega. E depois era Verão, podíamos ir à praia, tomar banho, beber vinho e dançar. Ela trabalhava muito bem nessas alturas, e é quando ela trabalha melhor que está mais feliz, sempre foi assim, quando ela tem ideias e consegue concretizá-las.

Paula Rego - ph. Arquivo Família Rego

Eu e o meu irmão, ele só tem menos 18 meses que eu, lembro-me que éramos pequeninos, estávamos na Ericeira, no Verão, e eu e o Nick pensámos: ‘Vamos fazer umas pinturas e vender, fazer uma exposição na sala e vender à família’. E fizemos montes de desenhos, ‘vamos vender a vinte escudos cada um!’. Pusemos os quadros na parede, os do meu irmão venderam-se todos, eu não vendi nem um. E nesse dia pensei: não, isto não é para mim. Mas não é só isso, com pais assim e uma família assim, não é uma questão de: “Oh, it’s lovely darling”, é mais: “It’s not very good, do it again, do it better”

 

Eu pensei [vir a ser actriz] logo aos cinco anos, quando eu vi uma casa na Ericeira que era de uma família distante e tinha um teatro na cave, um teatro grande. Faziam lá peças no Verão, eu fui cantar com a minha irmã e a minha prima Ana. Fomos cantar “London bridges falling down”, e no fim da canção eu não consegui sair do palco, alguém teve que vir e levar-me, porque as pessoas estavam a bater palmas e eu fiquei ali, comecei a cantar outra vez.

 

Acho que ainda espreitamos, ainda estamos a tentar entrar para a adega [o estúdio na Casa da Ericeira]. ‘Deixa-me entrar, mãe!’ [recorda, enquanto bate na mesa como quem bate à porta]. ‘Não, estou a pintar, vai-te embora’. ‘Deixa-me entrar, pai, deixa-me entrar!’ [continua a bater na mesa]. ‘Não, a tua mãe disse vai-te embora’.

Pode ler a entrevista integral aqui.