Lourenço Katzenstein: “Estou focado numa boa temporada de ondas grandes e tubos”

 

Texto: Hugo Rocha Pereira | Fotografia: Álvaro Fr

 

Lourenço Abreu Katzenstein lançou recentemente o clip “Irish Dreams”, em parceria com o seu amigo e parceiro de ondas Daniel Fonseca. Na sequência da estreia do vídeo no Adega Bar 1987, colocámos algumas questões ao surfista da Ericeira, cuja ligação às ondas e à terra dos ouriços começa na geração anterior; o pai Miguel é “apenas” um dos fundadores da icónica Semente Surfboards. Mas Lourenço vai trilhando o seu caminho e afirmando o seu nome, que começa a ser familiar a quem está atento às ondas grande. É assim com ondulações XXL, amizades, viagens e Ericeira que se faz, sobretudo, esta entrevista.

 

Como e quando surgiu esta amizade entre ti e o Daniel Fonseca?

É engraçado como nos conhecemos. Eu já conhecia o irmão do Daniel, o Guilherme [Fonseca] há alguns anos, visto que ele foi patrocinado pela Semente desde muito cedo, mas não passávamos de conhecidos, nem sabia que o Gui tinha um irmão [risos]. Por volta de 2014, quando comecei a ter dinheiro para investir nas ondas grandes, a primeira coisa que decidi fazer foi tirar o curso de pilotagem e resgate com mota-de-água da Jet Resgate, o que acabou por se tornar numa das melhores decisões que tomei! Não só pelo dinheiro que isso me poupou ao longo destes últimos anos (o conhecimento adquirido nesse curso evitou bastantes erros de principiante), mas também pelas grandes amizades que fiz, tanto com o Ramon e a sua família (a quem tenho de agradecer imenso por tudo o que fazem e fizeram por mim, sem a ajuda deles não estaria onde estou hoje), mas também com toda a equipa da Jetresgate. E foi nesse mesmo curso que conheci o Daniel! Durante o curso fizemos “parceria” juntos e quando o mesmo chegou ao fim falámos e decidimos que queríamos os dois continuar com o tow-in e a busca de ondas grandes e pesadas. E foi a partir de aí que nos tornámos grandes amigos, a combinar varias surfadas juntos, sessões de treino, e sempre que o mar está bom falamos um com o outro para ver onde vamos surfar! Claro que com esta amizade com o Daniel também acabei por criar uma grande amizade com o Guilherme. Quando surfamos na zona de Peniche o Gui também está sempre com pica para ondas tubulares, grandes e pesadas, e acabamos por ser os três a puxar uns pelos outros!

sempre preferi ir surfar para spots mais dominados por bodyboarders

Nunca sentiram aquela rivalidade clássica de surfista vs bodyboarder?

Essa rivalidade para mim não faz sentido. Claro que estamos constantemente a picar-nos um ao outro [risos], mas não passa mesmo de uma brincadeira. Não sinto essa rivalidade com o Daniel até porque não sinto com os outros bodyboarders. Desde muito novo que sempre preferi ir surfar para spots mais dominados por bodyboarders, como o Reef ou a Pedra Branca, do que surfar em Ribeira d’Ilhas por exemplo, o que fez com que sempre admirasse os bodyboarders pela sua atitude! Por esse motivo acabo por me dar com bastante malta do bodyboard e há dias que mesmo eu pego numa prancha de body e vou-me divertir. Durante a viagem que fiz à Irlanda ainda fui tentar apanhar umas bombas de bodyboard [risos].

em 80% das vezes estamos de acordo, mas depois entra o factor Nazaré e o factor Coxos

E quando chega a altura de decidirem qual pico surfar, estāo sempre em sintonia?

Essa já é uma pergunta que leva a mais discussão {risos]. Acho que em 80% das vezes estamos de acordo, uma vez que gostamos do mesmo tipo de ondas, mas depois entra o factor Nazaré e o factor Coxos [risos]. Por vezes eu digo para irmos para as Pontes quando está clássico mas o Daniel diz que é uma onda de surfistas que não é boa para o bodyboard; na Nazaré surfamos várias vezes juntos e fazemos varias sessões de treino, mas chega a um tamanho que deixa de ser bom para o bodyboard e aí começa o tow-in ou a remada e nessas condições o Daniel não surfa, fica antes a dar-me apoio na moto. Durante a viagem à Irlanda tivemos uma discussão em que eu queria surfar uma onda e ele não queria, a onda era difícil de ver porque ficava longe e num ângulo estranho, mas a mim parecia-me que dava um bom tubo e o Daniel dizia que era uma onda de surfistas, que ele não se ia divertir. Acabei por conseguir convencê-lo e acabou por ser uma das sessões mais divertidas que tivemos! Era uma onda que parecia uma mistura entre as Escadinhas e os Coxos, uma direita longa tubular. Surfámos com um golfinho nessa onda e essa sessão acabou por me valer uma foto na edição de Agosto da Carve Mag.

Lourenço Katzenstein - ph. Clem McInerney / Carve Mag

Como surgiu a ideia para a viagem que originou este “Irish Dreams”?

Desde o início do Inverno que falámos em fazer uma viagem juntos e destacaram-se logo três destinos: Açores, Canárias ou Irlanda. Com o passar do Inverno fomos sempre vendo as previsões para estes destinos mas ou acabávamos sempre por ter boas condições cá na mesma altura ou por alguma razão um de nós não conseguia ir e fomos adiando. Até que num dia, já no final do Inverno, o Daniel ligou-me a dizer que ia entrar um swell para a Irlanda e imediatamente disse para arrancarmos.

O que destacas dessa viagem-relâmpago à Irlanda?

Toda a viagem foi incrível, fiquei apaixonado pela Irlanda!! Tudo desde as paisagens incríveis ao ambiente natural, surfei com uma foca numa onda na água mais transparente que já vi, noutra onda incrível surfei com um golfinho. No global foi uma viagem que nunca esquecerei e, se pudesse, era um daqueles locais em que comprava uma casa para voltar lá sempre que houvesse swell [risos].

Há vários anos que ando a observar a Cave

Na Irlanda surfaram vários slabs. E por cá, costumas aventurar-te pela Cave? Como descreverias a mutante jagoz?

Há vários anos que ando a observar a Cave, consigo vê-la de minha casa e sempre que posso vou la dar um saltinho e ver como está. Preciso de aprender quais é que são as condições certas para surfar lá, o que nos leva à segunda pergunta. Nunca surfei na Cave, uma vez aventurei-me e entrei sozinho com o Álvaro Fr cá fora a tirar umas fotos. De fora parecia perfeito, mas a amplitude da maré era demasiado grande e ainda estava a vazar. Com o tempo de me vestir, entrar e chegar ao outside o calhau já estava de fora [risos]. Vi das ondas mais perfeitas a quebrar, o drop não parecia difícil, não estava muito rápido nem muito cavado, o pior vinha a seguir, uma secção super cumprida e igualmente rápida com o lip a bater em rocha seca. Ainda me senti tentado a ir apanhar uma, mas o risco era demasiado alto, bastava alguma coisa correr mal e ia directo ao calhau. Decidi ficar só no canal e vê-la quebrar, a tentar aprender o máximo possível. Quero imenso lá voltar, mas gostava de arranjar companhia para ir lá comigo, e de preferência alguém que já conheça bem a onda para me dar umas dicas {risos].

 

Que tal foi o feedback do pessoal na apresentaçāo do filme no Adega Bar?

Acho que a apresentação correu bastante bem, recebemos feedback positivo, o que é bastante motivador e ajuda a que continuemos a esforçarmo-nos e em busca de novos e melhores trabalhos como este.

Lourenço Katzenstein - ph. Sofia Oliveira

Já tinham trabalhado com o Pedro Santos Ribeiro? O vídeo está incrível em termos de realizaçāo e fotografia, nāo achas?

Eu apenas tinha trabalhado uma vez com o Pedro antes desta viagem. Este ano lancei outro vídeo com o Nuno Miguel como principal câmara e como realizador/editor e nesse vídeo aproveitei e fiz duas sessões com o Pedro. Todo o trabalho que desenvolvemos durante a surftrip correu bastante bem e o Pedro está sempre com pica para filmar e a dar ideias. Foi ele que começou com a ideia para a introdução, e esta atitude torna a colaboração com ele bastante fácil e divertida! Acho que o trabalho que ele fez a nível de imagens está incrível, dá para realmente transmitir o que vimos por lá!

 

Quais sāo os teus planos para o resto do ano?

Estou novamente focado numa boa temporada de ondas grandes e tubos e, claro, com o objectivo de superar o que fiz no ano anterior. Em 2016 tive uma nomeação para os prémios das ondas grandes, este ano já tive uma ou mais nomeações para cada categoria. Este ano quero estar presente em varias sessões de ondas grandes, tanto na Nazaré como noutros spots, e gostava de viajar para o Norte de Espanha, lá têm muita cultura de ondas grandes e também bastantes slabs bons que gostava de explorar. Para além disso gostava de voltar à Madeira, um destino que adoro, e também gostava de ir aos Açores ou às Canárias. Mas as viagens ainda são muito incertas, o surf de ondas grandes é um desporto caro com toda a logística das motas de agua e isso, portanto determinadas viagens acabam por cair um bocado para segundo plano, uma vez que sem patrocínios não consigo ter dinheiro para tudo. Gostava só de agradecer à Semente Surfboards, o meu único apoio, por toda a ajuda que me deram esta ultima temporada. O surf de ondas grandes precisa de pranchas bastante especificas, o que torna o seu fabrico dispendioso. Sem eles [Semente] esta viagem não tinha sido possível: quando decidimos ir nesta viagem tinha partido todas as pranchas para o Inverno e fui à Semente buscar pranchas emprestadas para a viagem!