Lisboa Adormecida

 

Fotografia: DR

 

Lisboa, o poeta das ruas pinta os seus versos no teu cabelo. Lisboa, o poeta das ruas ajoelha-se perante o teu sono. Lisboa, o poeta das ruas reza nos ventos da tua solidão. Lisboa, dá-lhe abrigo. Lisboa, as estrelas lavam as rugas do homem que desobedece ao destino.

Lisboa morena. Noite vaga. Um homem escreve. Vozes distantes. Risos modestos. Um homem escreve. Olhares ternurentos. Beijos fogosos. Um homem sonha.

A necessidade de escrever torna-se vício e as suas mãos tornam-se escravas do próprio pensamento.

Na calçada fria e no calor do vinho o homem é poeta! Sentado numa cadeira de metal, ergue as asas baloiçando os seus dedos na máquina de escrever que repousa numa mesa de madeira. A tinta dança com a folha de papel, acariciando-a lentamente até o pálido branco sucumbir à tentação das palavras e envolvê-las num aconchegado e quente apertado abraço. Nesta sinestesia de emoções, a alma do poeta eleva-se a toda a sua liberdade e ambiciona por mais. A necessidade de escrever torna-se vício e as suas mãos tornam-se escravas do próprio pensamento. A ruína, a miséria não são mais que simples adereços a um coração entregue às quadras e aos sonetos.

Caminho na sua direcção e, numa tentativa falhada de esconder os lábios à vergonha, pergunto: “Poeta, qual é a tua história?” Ele responde-me serenamente: “O desinteresse!” Um sorriso apodera-se da minha voz e, mergulhado no contínuo estalar da impressão do carácter na folha, questiono se este é o rumo que o destino tomou para a sua vida. O homem, sem hesitar, exclama: “A minha vida pertence aos versos! Nunca cedi às vontades desse demónio!”. “Que demónio?”, interrogo-o na minha ingenuidade. “O destino! A felicidade vive não no destino, mas sim no caminho que percorremos! Foge! Foge ao destino enquanto a velhice não te assombra!”. Fascinado com esta resposta, agradeci e abandonei-o na sua paixão.