José Salvador

ph. Arquivo José Salvador

 

Texto: Hugo Rocha Pereira | Fotografia: Arquivo/José Salvador

José Salvador aka “Zé Inglês”

 

Nasci na Ericeira, na casa ao lado da habitação em ruínas em frente às escadas de entrada para a Praça dos Navegantes, lado poente, que dá entrada para o bairro de Santa Marta. A alcunha “Zé Inglês” foi-me posta há 48 anos. Saí da Ericeira com seis anos de idade para ir viver em Jersey (ilha no Canal da Mancha), onde os meus pais trabalhavam, e voltei para a Ericeira nas férias de Verão, com oito anos. Como já estava a viver e a estudar há dois anos fora de Portugal, falava muito mal, misturava inglês com português, e por isso começaram a chamar-me “Zé Inglês”. Voltei para Jersey no final desse Verão e a alcunha ficou para sempre.

 

Saí várias vezes da Ericeira, a primeira quando tinha seis anos, voltando aos 11. Depois, só muito mais tarde: aos 38 fui para Londres e aos 39 para o Cazaquistão e Rússia. Vivo há sete anos na Sibéria, numa cidade chamada Tyumen.

 

Tenho uma companhia de catering, com a qual trabalho para várias companhias petrolíferas e de perfuração. Tenho também outra empresa no Cazaquistão, país ao qual me desloco regularmente. E também vou muito à China, pois trabalho com uma fábrica que produz alojamentos móveis utilizados nas plataformas de petróleo, negócio para o qual tenho uma outra companhia, chamada Globe Camp Solutions. Tudo isto implica muito trabalho e contacto permanente com o pessoal do escritório, mesmo quando estou na Ericeira.

 

O único problema aqui pela Sibéria talvez seja o clima. De resto, tenho aqui amigos e Tyumen é uma cidade muito activa, com muitos e bons sítios para se conviver. Gosto da actividade constante que este país tem e da sua gente. Não gosto muito da comida, não é nada como a nossa.

 

Nunca ando por aqui mais que cinco ou seis semanas. Vou sempre a casa e passo lá três ou quatro semanas, desde que o trabalho mo permita. Por exemplo, como há muito trabalho nos últimos três meses do ano, irei só uma semana no mês de Outubro e uma semana em Novembro. Depois irei passar o Natal e passagem de ano à Ericeira. Não tenho data de regresso definitivo à Ericeira, uma vez que a minha vida é toda aqui por estes países. Como não sou um emigrante tradicional, ando sempre cá é lá, e por isso não há planos para ficar definitivamente na Ericeira ou na Rússia.
Quando regresso à Ericeira gosto de olhar para o mar e saber que estou junto da família e das pessoas de quem gosto e que gostam de mim. Felizmente, tenho muitos e bons amigos. Quando estou fora, sinto principalmente falta da família, mas também do mar, do ar e do sossego da nossa terra.

 

A minha mulher é de origem russa mas nasceu no Cazaquistão, onde a conheci. O nosso primeiro filho nasceu no Cazaquistão mas o segundo já nasceu em Portugal. Vivemos na Ericeira, terra que a minha mulher adora. Ano sim, ano não, vêm todos à Rússia e ao Cazaquistão, pois a minha mulher tem muita família nestes dois países. Os meus filhos mais velhos (a Tânia e o Tozé) já viveram connosco tanto aqui na Rússia como no Cazaquistão, sendo que neste momento estão a viver em Portugal.

 

Em 1974 ou 75, muitos estrangeiros (principalmente americanos) apareceram na Ericeira a fazer surf. Uns anos antes eu já tinha praticado este desporto em Jersey, e sempre achei que seria um desporto de futuro, principalmente na Ericeira. Anos mais tarde, ajudei na organização do primeiro campeonato do mundo realizado na Ericeira, evento promovido por pessoas que nada tinham a ver com a Ericeira. No segundo ano essas mesmas pessoas encontraram algumas barreiras por parte da Câmara Municipal de Mafra para voltar a realizar o campeonato, pois o ex-presidente da Câmara sempre disse que não fazia sentido haver campeonatos de surf na Ericeira se no concelho não existia um clube que se dedicasse a este desporto. Então decidi fundar o Ericeira Surf Club – dei-lhe o nome, fiz o logotipo e os estatutos, baseados nos de outros clubes. E assim começou tudo, com muita garra e bons colaboradores que perceberam o que seria a Ericeira no futuro. Hoje a Ericeira é conhecida em todo o mundo pela qualidade para a prática deste desporto, facto pelo qual nos devemos orgulhar. E o nosso clube precisa da colaboração de toda a Ericeira, pois o surf está a provar ser uma das mais importantes fontes de rendimento da Ericeira, do concelho e de Portugal. Acho que acertei naquilo que há mais de 40 anos pensei: “o surf será o futuro da Ericeira e desta região”.

 

Posso contar duas pequenas histórias que confirmam a importância do surf na Ericeira, uma em Vancouver (Canadá) e outra numa cidade no deserto do Cazaquistão.
Vancouver: visitei a cidade onde decorreram os Jogos Olímpicos de Inverno, entrei num bar e estava a dar surf na Eurosport, penso eu, e reconheci a Ericeira. O bar estava cheio de jovens que praticavam snowboard e na mesa ao lado um deles disse “já estive ali na Ericeira, Portugal. É uma terra fantástica, temos surf quase todos os dias e todos os tipos de ondas, gosto muito e quero voltar”. Claro que não podia deixar passar uma situação destas e comecei logo por dizer “olha, esta é a minha terra”. Ficaram muito surpreendidos com a minha afirmação e começámos numa grande conversa sobre a Ericeira, o surf e Portugal. No fim já todos queriam visitar Portugal e fazer surf na Ericeira.
Cazaquistão: estava de passagem e fui a um bar-restaurante. Na TV passava a Euronews, que na parte do desporto deu a notícia de um campeonato do mundo na Ericeira. Na mesa ao lado estavam uns jovens, e um deles disse para os outros: “olha, os meus primos estiveram este Verão nesta terra em Portugal a fazer surf e gostaram mesmo muito. Também quero lá ir e ver jogos de futebol e fazer surf”. Novamente, não podia deixar passar, e disse-lhe para me avisarem se visitassem a Ericeira, que eu os acompanhava a conhecer a minha terra. O espanto deles foi tal que ficámos até as 5 da manhã na conversa.

 

Todas as pessoas que me conhecem sabem bem que somos todos primos. Um bem-haja e que tenham muita saúde e alegria. Só espero que os novos responsáveis autárquicos vejam a Ericeira como um bem a acarinhar e apoiar em tudo o que é desporto náutico e em geral. Somos jagozes e, por isso, fortes e sempre determinados a defender a nossa terra, o nosso concelho e, principalmente, o nosso mar.

José Salvador em Tyumen, Sibéria.

José Salvador em Tyumen, Sibéria.

José Salvador numa caçada em Omsk, Sibéria.

José Salvador numa caçada em Omsk, Sibéria.

O empresário vive em Tyumen há sete anos.

O empresário vive em Tyumen há sete anos.

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