Helena Almeida: «Nasci nas Furnas»

 

Texto e fotografia: Filipa Teles Carvalho

 

«Bebi dessa tua maresia!
Que me deste ao nascer
De ti tenho a melancolia
E esta vontade de viver!»
João Franco Lapina

 

«A minha mãe nasceu nas Furnas». Mal a ouvi, a frase abanou-me por dentro. «Como assim, nas Furnas? Ninguém nasce nas Furnas», disse eu cheia de certezas…

Mas, sim, conta-nos agora a própria, ela nasceu nas Furnas, na Ericeira. Chama-se Helena Almeida. E quando lhe perguntavam pelo local de nascimento, enquanto criança teve sempre vergonha de dizer. «Mas depois de crescida achava graça porque ninguém tinha lá nascido.» E até hoje, pelo menos que se saiba, ninguém o repetiu: «Feitos talvez tenham sido muitos… (risos), agora nascidos, que eu tenha conhecimento, não.»

Helena aponta-nos um lugar aproximado, uma espécie de abrigo natural feito de uma rocha esventrada onde se podia estar protegido do vento e… gerar. «Uma rocha, a que chamavam ‘Rocha da Nossa Senhora’, e que parecia uma casinha com chão de areia. E foi ali que ela me teve. Devia ser maré vazia…».

O lugar onde sentiu o mundo pela primeira vez é o mesmo onde já fervilharam viveiros de lagosta e onde milhares de pessoas têm admirado a imensidão do mar.

Toda a Ericeira deixou de lhe falar

Rosa (da Valentina), mãe de Helena, tinha 46 anos naquela madrugada de 8 de Setembro. Estava frio e escuro. «Nasci às quatro e meia da manhã. A minha mãe não tinha nada para me vestir. Embrulhou-me numa saia de baixo… (nessa altura ela usava – como as mulheres antigas e as nazarenas – muitas saias); entretanto levou-me para casa e a minha irmã aqueceu uns cobertores e pôs debaixo de mim – senão morria… Isto foi depois, mais tarde, que ela me contou… Porque eu perguntei-lhe: por que é que toda a gente diz que eu sou das Furnas?… Porque é que eu sou das Furnas? Não entendia…

Foi então que ela me explicou que eu tinha nascido de sete meses, que me vestiu depois um vestido de uma boneca que lhe dera uma patroa onde trabalhava… nasci sem unhas, minúscula. E a minha irmã, com 13 anos, é que cuidava de mim.»

Rosa morava na Rua Alves Crespo. «Era viúva e teve-me de um senhor que era casado. Eu sou filha da minha mãe e de um senhor que era vendedor na lota da Ericeira, Luiz Pina, o Cêpê.»

Segundo o que a minha mãe me disse, ela ia com más intenções na direcção das Furnas… visto que não tinha roupa nenhuma preparada, visto que eu seria filha de um homem casado… a ideia dela era matar-se a ela e a mim… só que teve pena, disse-me: ‘parecias uma coelha pequenina a chorar…’ e embrulhou-me na saia de baixo… levou-me assim para casa. Toda a Ericeira deixou de lhe falar.»

Helena Almeida. Também conhecida na Ericeira por Lena dos Navegantes ou Mãe do Quim Jó.

A vida complicar-se-ia: «Só comecei a ser alguém na vida quando fui trabalhar, aos nove anos.» Tive uma infância muito má, a minha mãe era muito pobre; as minhas irmãs, uma tinha cinco e outra sete filhos, e quem os alimentava a todos era a minha mãe. E eu estava incluída no grupo – por isso nunca tinha comer também. Ia ao Asilo (da Santa Casa) beber café, à creche comer sopa… Só tive sapatos aos 12 anos e só os calçava para ir à missa. Durante a semana andava descalça.

 

A minha boneca foi uma pedra

Não recorda grande magia na sua infância e da mãe não teve carinhos nem festas. A memória traz-lhe a amiga Teresinha Morais – que «era muito boazinha…» – e o episódio da boneca preta: «Lembra-me de chorar que queria uma boneca preta que estava na montra do senhor Joaquim e todos os dias a pedia à minha mãe. «Tá bem» – dizia ela, Rosa da Valentina, peixeira, varina. «A mãe manda um tostão para debaixo do junco (espécie de ervas com as quais se cobria o chão de areia e terra). E então ela punha lá sempre um tostão, dois tostões (quando ganhava na venda) e com esse dinheiro lá me comprou a boneca… Fui lavá-la com todo o carinho… resultado: desmanchou-se toda – porque era de papelão… ai o que eu chorei, chorei tanto…

E o que é que a minha mãe fez? Lavou muito bem uma pedra, fez uns olhos, uma boca, e pôs um trapinho a fazer de vestido – ela não podia comprar outra… a minha boneca foi uma pedra… até aos nove anos, altura em que fui servir, tomar conta de duas crianças.»

Onde é hoje a loja Doghouse eram as montras dos escritórios Gaspar (das camionetas), onde Helena se mirava com vaidade fardada, com um avental branco bordado. Levava o lanche até ao fundo da Praia do Sul – onde a senhora tinha a barraca de praia – e ficava lá uma hora, hora e meia com os meninos. Depois tinha que vir com eles, pô-los na cama e «lavar a roupinha deles no tanque.» Tinha nove anos.

Helena quando trabalhava em Lisboa, na casa de um deputado.

E o Natal?

«Não tinha Natais. Era muito religiosa em pequena, muito ligada à igreja… tinha uma fé louca por aquelas imagens… nunca ia para a cama sem pedir: «Oh mãe ensina-me a falar com Jesus…».

«Ao meu lado morava um senhor, motorista, que tinha 11 filhos. A empresa dele no Natal dava brinquedos lindos às crianças. E eles não eram baptizados nem iam à missa. Não existia o Pai Natal, era o menino Jesus que trazia as prendas. A minha mãe, coitadinha, pintava a chaminé e num papelinho bonito punha lá três bombons, três rebuçados… E (ai lembro-me tão bem disto…) eu um dia perguntei: ‘Ó mãe, porque é que eles não vão à igreja e o senhor Jesus dá coisas tão bonitas a eles?’ E ela lá ia desculpando… E eu pensei: então também já não vou à missa, que assim Ele dá-me também bonecas bonitas… Mas a minha mãe continuou sempre a mandar-me ir à igreja.»

Mas Helena um dia deixou de ir. E porque, segundo conta, um padre duvidou da sua idade e quereria, para esclarecimento. ver-lhe o peito. «Levantei-me e vim-me embora… Nunca mais fui à missa. Até hoje nunca mais lá fui.»

No tempo em que lavava toda a roupa que viesse.

Como pessoa fundamental da sua vida e crescimento, recorda um namorado que teve. «Comecei a namorar com ele aos 14 anos e… foi muito meu amigo, muito.» Carlos Boa Noite ainda lhe provoca um sorriso.

«Depois fui para Lisboa, conheci esta vedeta, o pai dos meus filhos (conhecido na Ericeira como João ‘Burriças’)». Não terá sido amor à primeira vista, embora Helena confesse que gostava dele: «Era bonito, jeitoso.» E assim, aos 22 anos, foi mãe pela primeira vez.

João, o agora ex-marido, junta-se entretanto uns minutos à conversa, lembrando histórias – e surgem sorrisos cúmplices que ficaram do tempo em que eram muito jovens e tinham um estabelecimento para gerir e quatro filhos para criar.

 

E como era a Ericeira da sua infância?

«Tão bonita… As camionetas vinham todas ao “Jogo da Bola”… ao Sábado vínhamos ao centro – havia Cinema no Casino e depois no intervalo havia música – a gente chamava-lhe o sonoro (“Teodoro, não vás ao sonoro…”, trauteia). Ficávamos a ouvir a música… ai era tão bonito… (era uma felicidade – porque nós não tínhamos telefonia, não tínhamos nada…). Mais velhinha, já farta de trabalhar, pedia à minha mãe para ir ao baile, não deixava, depois eu fugia – ela ia lá buscar-me pelos cabelos (risos…).»

 

E o que sonhava ser?

«Sonhava trabalhar, para ajudar os meus irmãos (risos…). Não, nunca tive sonhos; a vida foi sempre muito dura, nunca pensei em sonhar nada.

Já teve como seu apenas um colchão e acha ser mãe a coisa mais natural: «somos novas e não pensamos muito que é difícil» Criou quatro filhos, um rapaz e três meninas.

É uma pessoa de cuidar e confirma: «Ser avó é a coisa melhor que há, ainda melhor que ser mãe. Os meus netos passaram todos pela minha mão, todos…». O mais velho tem 27 anos e a mais nova três.

«Hoje ponho-me a pensar: Como é que eu já passei isto tudo?»

Serviu às mesas no restaurante A Parreirinha, no Marialvas, trabalhou em casas, numa fábrica, em hotéis e mais, trabalhou sempre muito e ainda trabalha. Agora bastante menos.

Com o pai dos filhos teve – perto de 20 anos – uma cervejaria onde «toda a família trabalhava». Tempos de «só trabalhar» na cervejaria/snack-bar Navegantes, ainda viva na memória recente da vila.

Desde o tempo em que limpava, ainda criança, por baixo do fogão de casa onde a mãe tinha galinhas e ovos para vender, já cozinhou muito, já lavou muito, já calcorreou milhares de quilómetros a servir às mesas. Muitas e muitas casas, em muitas manhãs, tardes e noites, foram limpas por ela. Incluindo a sua, em que quando os filhos estavam a dormir, era limpa «de alto a baixo».

Vinha todo o caminho a comer o contra-peso do pão, contente

Hoje já não aprecia cozinhar. De limpar ainda gosta e tem fama de dominar técnicas infalíveis. As costas é que vão gostando cada vez menos.

«Agora, qualquer coisa arranja-se dinheiro. Vai-se trabalhar para o arranjar. Antigamente não, não havia, por mais que se trabalhasse.» Cada bocado de pão era precioso: «Íamos ao Gama (ainda padaria) e eu pedia um pão mas com o contra-peso (pedaço cortado que completava o peso do pão na balança). Vinha todo o caminho a comer o contra-peso do pão, contente.» Mas quando chegava a casa a mãe dava por falta dele.

Não se considera a pessoa com mais amor pela vida e actualmente o que gosta mesmo de fazer é «nada».

Nos outros valoriza «a sinceridade e honestidade, as coisas mais bonitas que há» e o que menos gosta é que sejam «falsos e velhacos…».

 

E a Ericeira?

«A Ericeira é linda, para mim sempre foi e continua a ser.»

Quanto a mudanças para melhor, «era não haver tanta pessoa a vir para cá; em parte é uma coisa boa, mas as rendas aumentaram uma fortuna e as pessoas de cá já não conseguem morar na Ericeira, não têm dinheiro para poder pagar uma renda na sua terra, onde nasceram e querem morar.»

Em Helena Almeida é a palavra mãe que sobressai. E as palavras energia, força e avó. Uma voz rouca, bonita, com sorrisos e penas. Um coração onde moram quatro filhos e oito netos. Uma voz que baixa ao contar, rendilhada de histórias, e uns olhos vivos, capazes de ainda brilhar tanto quanto é difícil apanhá-la entre os seus afazeres de mãe, avó, limpadora, amiga, ginasta e de certeza mais uns tantos cargos importantes.

Talvez por ter nascido num lugar que vai dar ao mundo, as suas histórias embalam e apetece ficar a ouvir… até ser, pelo menos, outra vez Setembro por cá.