Ericeira: viver bem, conviver bem!

 

Texto: Ana Catarina Baleia | Obra: Rui Pinheiro

 

A Ericeira é uma vila piscatória cheia de histórias dentro da história que nos acompanha.

A nossa história, as nossas tradições, o avançar dos tempos e com ele o reajustar de hábitos, lugares, e a sensação de passagem do tempo constroem a dinâmica da nossa identidade cultural.

A Ericeira atravessa novamente um lugar de destaque e estrelato: um local bastante apreciado não só pela gastronomia e excelentes paisagens, mas também por uma inigualável e vincada identidade, que fascina e apaixona quem por cá passa, como se vivesse um conto de fadas à beira-mar plantado, gozando da simpatia e hospitalidade jagozas.

De muitos que nos visitam, é significativo o número daqueles que escolhem a Ericeira para se fixar de forma permanente.

Uns, mantendo os seus exercícios laborais na capital, aproveitando o tempo de lazer com desportos populares na Ericeira, ou desfrutando de um contacto privilegiado com a natureza no seu estado bruto ao final do dia, podendo recarregar as energias; e outros que implementam projectos, empresas na vila, criando oportunidades, como se fosse o seu “pagamento” de agradecimento pelo facto de a Ericeira lhes permitir sonhar e viver esse sonho.

o respeito geral é o princípio de tudo

Atravessamos uma fase em que muito se tem debatido o facto de alguns locais se sentirem ameaçados por um crescente número de pessoas que se fixam por cá, não cumprindo eventualmente certas regras de quem toda uma vida investiu e viveu por cá.

Como moradores, residentes ou trabalhadores, seja qual for a nossa contribuição social para com a vila, o respeito pelas tradições, o respeito pelos locais históricos, o respeito pelos lugares de lazer, no fundo, o respeito geral, é o princípio de tudo – e que, infelizmente, muitas vezes tem sido esquecido.

Perdoem-me a forma tão directa como darei este exemplo, mas muito provavelmente no futuro não haverá quem queira seguir a profissão de pescador; no entanto, há que manter estruturas para quem ainda se encontra no activo e, acima de tudo, ao respeitar os nossos pescadores estamos a respeitar e a preservar a identidade histórica e cultural que faz parte da nossa vila.

E é tendo em conta o desenvolvimento social, com toda uma nova evolução de tempos e passatempos, que devemos pensar, reflectir e encontrar o equilíbrio entre viver a Ericeira e viver na Ericeira.

ao respeitar os nossos pescadores estamos a respeitar e a preservar a identidade histórica e cultural

Se, por um lado, o progresso nos trouxe, por exemplo, a possibilidade de não subsistir na nossa vila duma forma meramente sazonal, por outro por vezes os moradores deparam-se com o que podem sentir como uma invasão da sua identidade cultural e, também, como a chegada de novos hábitos que podem perturbar a identidade jagoza, como por exemplo, a pacatez que nos faz viver sem trânsito na nossa vila que é confrontada com um aumento de veículos. No entanto, se colocarmos na balança este pequeno exemplo, podemos compreender rapidamente que o facto de progredir o número de moradores, ou moradores sazonais, aumenta também o fluxo de tráfego rodoviário e também pedonal.

Só podemos beneficiar com certos melhoramentos – como a auto-estrada ou a ciclovia – mas beneficiaremos com isso se soubermos integrar as pessoas na nossa comunidade através dos nossos comportamentos comunitários e cívicos, mostrando-lhes aquilo que as trouxe até cá, o segredo da paixão pela Ericeira – sim, podem fazer dela parte, do seu ritmo diário e da sua rotina.

Quanto ao turismo crescente, a Ericeira recebeu sempre os seus visitantes com um lifestyle único que os faz regressar, levando o nome da vila além-fronteiras, a par dos feitos dos seus atletas, da Reserva Mundial de Surf, etc.

E é só através deste respeito que poderemos manter a nossa identidade, mostrando hoje o que o passado nos deixou de legado, sabendo daí tirar boas práticas para a construção do futuro.

Sem existir civismo, isto serve de alguma coisa? Claro que não.

civismo e espírito comunitário

O civismo e um espírito comunitário são fundamentais.

A Ericeira é a vila de quem a ama, a Ericeira é a pérola de quem a sabe sentir, a Ericeira é o paraíso que nos apaixona mesmo em dias de nevoeiro, porque nos revitaliza com a sua identidade cultural, porque tem história, e essa história é escrita por nós todos os dias.

Se convivermos bem, viveremos bem: a nossa Ericeira depende não só de quem cá vive, mas de quem a vive!

Um brinde à Ericeira e às suas tradições, como a caneja d’infundice.