A Ericeira pelos olhos de: Patrícia Teixeira

 

Fotografia: Miguel Furtado

 

Bilhete de Identidade

Patrícia Guimarães Teixeira (em Ribamar é conhecida por “Tucha”, mas na Ericeira poucos sabem dessa alcunha)

Nascida em Angola a 5 de Maio de 1975. Viveu em Ribamar até aos 19 anos, depois uma década em Mafra e há 14 anos fixou residência na Ericeira.

Jornalista

A Ericeira é a terra com a qual tenho uma “história de amor” há 42 anos

No pátio da antiga Escola Primária da Ericeira, acompanhada por vários colegas – conseguem identificar alguém?

A Ericeira é a terra com a qual tenho uma “história de amor” que dura há 42 anos. Já visitei os cinco continentes e conheci lugares incríveis, mas nenhum conseguiu fazer com que ponderasse a hipótese de um dia sair daqui. Mas confesso que sinto sempre alguma dificuldade em tentar descrever a Ericeira a quem nunca cá esteve. Porque acho muito honestamente que esta vila não se descreve… sente-se!

costumo dizer que a Ericeira tem um mar incompreendido

O que mais ama e menos gosta na Ericeira?

Considerando que o objectivo desta rubrica não é “bajular” a Ericeira e sim responder às vossas questões com a máxima honestidade para que possamos reflectir sobre determinadas questões, espero não ferir susceptibilidades ao partilhar a minha sincera opinião sobre alguns tópicos. Começo por aquilo que mais amo: o mar! Tenho o privilégio de morar numa zona onde a varanda está quase debruçada sobre ele. Quando acordo a primeira coisa que faço é respirar a maresia. Mas, meio em jeito de brincadeira, costumo dizer que a Ericeira tem um mar incompreendido. Porque apesar de ser conhecida como a terra “onde o mar é mais azul”, persiste ainda na memória de muitos que por cá passaram uma ou duas vezes, em tempos que já lá vão, que aqui as águas são geladas, revoltas e que o mar não é assim tão azul. Quanto a mim, a beleza de um mar calmo é a mesma de um mar revolto. Mas sim, é verdade que a água nem sempre é quentinha, também não é mentira que temos grandes ondas (e ainda bem!), mas são também inúmeras as vezes em que somos presenteados com águas calmas, transparentes, com temperaturas bastante aceitáveis e com o famoso azul a deslumbrar a vista de qualquer um.

Amo o charme do centro da vila. Tanto de dia como de noite. A sorte de podermos fazer tudo sem ter de pegar no carro é uma grande vantagem. Outra é o facto de, apesar de terem sido restaurados velhos edifícios, inaugurados novos espaços comerciais, bem como o aparecimento de muitas guest houses, todos com uma arquitectura mais moderna, houve o cuidado de evitar o choque entre essa modernidade e o encanto de alguns edifícios históricos. Uma simbiose perfeita.

Amo o facto de ser uma vila equipada tanto para o repouso como para a diversão. Quem quer agitação, diurna ou nocturna, opções não faltam. Aqui existe sempre algo a acontecer… eventos gastronómicos, campeonatos de surf, feiras, concertos de rua, bares com música ao vivo (destaque para o facto de termos uma das discotecas mais antigas do país, o Ouriço), etc. Enfim, um sem número de acontecimentos. Para quem prefere umas férias ou uma vida mais calma, basta que se afaste um pouco do centro e vai encontrar praias, restaurantes e até bares com muito menos confusão.

Adoro quando o Verão já está a preparar-se para a despedida e o calor se instala na Ericeira, muitas vezes até final de Outubro. As praias ficam quase desertas. Um luxo! E quem cá mora certamente conhece recantos onde consegue usufruir de uma tranquilidade total.

Adoro a nossa gastronomia. Nesta área estamos literalmente muito bem servidos. Não é em qualquer parte do mundo que podemos ver chegar os barcos de pesca com o peixe que nos vai ser servido logo depois.

Adoro o facto de podermos chegar a Lisboa em pouco mais de meia hora.

Amo o charme do centro da vila

Passemos então à parte menos positiva:

Felizmente, e sem hipocrisias, não tenho grandes defeitos a apontar à Ericeira, ou melhor, à gestão que tem sido feita pela Câmara Municipal de Mafra e pela Junta de Freguesia da Ericeira, em conjunto com outras pessoas, empresas e entidades. No entanto, penso que existem zonas, afastadas do centro, cuja arquitectura podia e devia ser mais coerente com o resto da vila e até mesmo com a paisagem em que estamos inseridos.

Outra questão que considero sensível de ser abordada tem a ver com o turismo desenfreado que se instalou na Ericeira, nos últimos anos, principalmente desde que fomos reconhecidos como Reserva Mundial de Surf. E é aqui que referi, no início do texto, que não pretendo de todo ferir susceptibilidades. Embora compreenda que esse turismo é fundamental para o crescimento económico da vila, não posso dizer que não me incomoda, no Verão, ter de esperar horas para jantar em determinado restaurante no centro da vila ou, caso necessite de estacionar, perder muitas vezes uma hora ou mais para conseguir um lugar. E é quando se consegue! Ironicamente, esta questão deixa-me também satisfeita pelas pessoas, muitas delas amigos meus, que investiram em negócios e que dependem desse turismo para conseguir levá-los avante.

existem zonas, afastadas do centro, cuja arquitectura devia ser mais coerente com o resto da vila

Quais são as suas principais preocupações no presente e para o futuro da Ericeira?

Embora a Câmara Municipal de Mafra já esteja a tomar medidas e tenha criado um plano de gestão para resolver esta e outras questões que afectam os locais, presentemente preocupa-me que algumas pessoas que nasceram e cresceram na Ericeira tenham sido forçadas a abandonar as casas (que eram arrendadas, obviamente) onde sempre viveram para que os senhorios pudessem usufruir dos preços altíssimos que se praticam por arrendamentos sazonais a turistas.

No futuro, preocupa-me que esse plano de gestão possa demorar tempo demais a ser concretizado, que as rendas continuem a subir de forma desenfreada ou que a Ericeira se torne de tal forma apetecível para os investidores que não se importam de estragar o cenário com projectos megalómanos, e que eventualmente nada terão a ver com o tal charme da vila. Apesar de tudo quero acreditar que as entidades com poder para travar esse crescimento dispensável já estão atentas e que jamais permitirão que aqui deixemos de ouvir falar português, que não tenhamos direito a praias desertas durante uma parte do ano, que possamos continuar a jantar no centro sem darmos de caras com preços incomportáveis para a maioria e que, não menos importante, consigamos preservar a humildade que faz de nós uma vila onde reina a “boa onda” e o espírito de uma vida saudável.

preocupa-me que pessoas que nasceram e cresceram na Ericeira tenham sido forçadas a abandonar as casas onde sempre viveram

O que é ser Jagoz?

Embora ainda hoje a ignorância de certas pessoas atribua um sentido pejorativo ao termo “jagoz”, para mim ser jagoz é tão simplesmente ser uma pessoa privilegiada por morar numa vila encantadora e por, certamente, ter tido a sorte de crescer ao ar livre e morar à beira-mar.

 

Considera-se Jagoza?

Apesar de ter frequentado a escola primária e o ciclo da Ericeira, morei durante muitos anos em Ribamar e, como tal, sinto o mesmo apego e respeito àquela aldeia. Porém, claro que sim, considero-me totalmente jagoza e não perco uma oportunidade de elogiar a Ericeira.