A Ericeira pelos Olhos de: Nuno Vicente

 

Fotografia: Sérgio Oliveira

 

Bilhete de Identidade

Albino Nuno Sales Vicente

Nascido a 1 de Setembro de 1967 (52 anos) na Freguesia e Concelho do Sobral de Monte Agraço.

Colaborador do Antiquário “Terreiro”, na Ericeira

A Ericeira é a terra da minha eleição

Um mosaico composto por fotografias jagozas com autoria de Nuno Vicente

 

A Ericeira é a terra da minha eleição, contemplando as mais diversas dimensões.

Nasci em Sobral de Monte Agraço, numa época em que a vila nem sequer tinha parque infantil. Poderei dizer que sou um saloio com muito orgulho nas minhas raízes. Felizmente, tive uma meninice muito saudável e feliz, da qual guardo parte das minhas melhores recordações.

Durante essa altura, muitas vezes rumava à Ericeira com os meus pais e familiares. Éramos daquela casta de turistas saloios que muito gostavam desta encantadora vila. As fotografias já amareladas dessa altura, que revejo com um saudosismo que me deixa com um sorriso de orelha a orelha, mostram as barraquinhas às riscas da praia do Sul com o Hotel de Turismo quase sempre nelas presente. Que bem que me recordo, apesar de ter apenas seis ou sete anos de idade.

Chegava cedo com parte da família, brincava nas poças durante a maré baixa e de balde na mão procurava pequenos peixes, ouriços, caranguejos e estrelas do mar, que depois tinha de devolver à procedência, e só saía da água enregelado e pela força dos meus pais.

A fotografia de que mais gosto é de 1941, ainda os meus pais não eram nascidos. Nela estão os meus avós, tios e grande parte da minha numerosa família, a banhos na praia do Sul.

Posteriormente, já com os meus pais presentes, uns dos meus tios casaram-se e fizeram a “boda” no Hotel de Turismo da Ericeira. Que pena tenho de nessa altura ainda ser um projecto (risos).

Mais tarde, o meu pai foi trabalhar para a TAP em Lisboa e como o trajecto era longo e sinuoso, tanto eu como a minha irmã e a nossa mãe com ele viemos. Mas nunca deixámos de passar pela nossa terra natal nem de visitar a nossa Ericeira.

o olhar de contemplação com que tiro as minhas fotografias da nossa Ericeira fala por mim

Fonte do Cabo – ph. Nuno Vicente

O que mais amo na Ericeira

Tenho casa na Ericeira há sensivelmente 17 anos mas aqui resido há relativamente poucos anos, apesar de ter a sensação que a Ericeira sempre viveu em mim.

Amo a Ericeira em todas as suas dimensões, é a terra da minha eleição. Poderia falar desta encantadora vila histórica de braço dado com o mar, das suas bonitas casas brancas com um azul que se confunde com um imenso oceano que nos serve como painel de fundo, das suas bonitas ruas estreitas com todos os seus cantos, recantos e encantos, mas isso acho que toda a gente já sabe ou leu nas milhentas publicações que, ao longo do tempo, foram sendo publicadas um pouco por todo o mundo. Contudo, prefiro falar do que mais amo, da Ericeira como inspiração para uma das minhas actividades favoritas (se não a favorita): fotografar!

Não sou fotógrafo profissional nem nunca tive pretensões de o ser. Sou amador, o que, na minha opinião, até traz vantagens, visto que o tempo disponível e a liberdade de exercício na fotografia é maior. O profissional fica muitas vezes preso a padrões estéticos, limitando a sua visão do mundo, enquanto que o amador consegue muitas das vezes capturar cenas mais invulgares e diferenciadas.

Sempre que posso, vou por aí à caça de novos instantes. Direi apenas que o olhar de contemplação com que tiro as minhas fotografias da nossa Ericeira fala por mim. Podem imaginar as milhares de fotografias que fui religiosamente guardando da Ericeira ao longo dos anos, sendo algumas verdadeiras preciosidades (risos). Tenho algumas publicadas em livros que, modéstia à parte, têm servido para inspirar as pessoas a visitar esta magnífica terra e também para alimentar o meu ego, claro (risos)! Não é porque sejam boas, mas pelo menos ficam para sempre registadas. Agora já não sei se será bom ou mau… (risos). Também publico muitas dessas fotos nas redes sociais, às vezes até deve parecer que não tenho mais nada para fazer. É o “bichinho” da fotografia.

Olhar com o coração é fundamental – Vinicius Aguiar – Fotógrafo

Hércules. - ph. Nuno Vicente

Hércules. – ph. Nuno Vicente

Do que menos gosto na Ericeira

Quem olha para a Ericeira com o coração, custa-lhe muito ver como todos os dias a vila acorda. Copos de plástico por todo o lado, garrafas de vidro, cadeiras e mesas de esplanada vandalizadas, vomitado, algumas vezes até sangue no chão (o que indica desacatos), beatas e lixo por todo o lado.

Compreendo o fenómeno social em todas as suas vertentes, até porque a Ericeira está na moda e facilmente se enche de pessoas oriundas de todos os lados à procura das ondas da Reserva Mundial de Surf, de diversão, da nossa belíssima gastronomia, etc… Todos reconhecemos que a situação está cada vez mais a tornar-se insuportável.

É imperativo que rapidamente a presença do nosso turismo melhore a vida das pessoas que aqui vivem e não o oposto. Porque, no final de contas, o turismo dinamiza a nossa economia local bem como influencia novos investimentos.

O surf não é (como alguns dizem) algo que só veio estragar a vila. Até pelo contrário, o surf combate em muito o turismo sazonal, melhorando a nossa economia. No pouco que percebo sobre o assunto e porque trabalhei mais de vinte anos em unidades hoteleiras, tanto cá em Portugal como fora dele, sei perfeitamente que o fenómeno não se passa só por aqui. Até pelo que vejo, só há uma solução a ser adoptada, como foi em outros locais, que é uma rápida criação e regulamentação para um desenvolvimento sustentável e equilibrado na nossa vila. Mas para isso é preciso que a comunidade local, com a ajuda da autarquia, empresas e outras entidades não governamentais trabalhem em sintonia para o bem de todos nós. E não nos podemos esquecer nunca que é o nosso ecossistema actual que sente em muito a nossa presença. Ontem já era tarde, mas ainda nada está perdido. Eu faço a minha parte e estou sempre pronto para ajudar no que for preciso, dentro das minhas competências, a nossa Ericeira.

Já agora, e para “quebrar o gelo”, posso dizer que não gosto de um prato típico, património gastronómico da Ericeira: a famosa Caneja d’infundice. Para quem nunca comeu este prato, é quase como um mito. Confeccionado a partir de um peixe da família do cação, é muito apreciado nesta terra. Um grande petisco, diz quem gosta, e são muitos os que estão sempre prontos para o comer. Eu já comi um pouco por duas vezes e a experiência não correu lá muito bem… Para mim valeu pelo convívio, pela companhia, amizade e alegria que se vive durante o repasto. Acho que é um prato que se aprende a gostar de comer. No meu caso, apenas vos digo que a última vez que o comi, tive de me despir antes de entrar em casa e mesmo assim o canário deixou de cantar e o gato desapareceu durante alguns dias (risos). Mas para não me alongar muito mais, se tiverem curiosidade é só pesquisarem pelo nome ou perguntarem a alguém que já o tenha comido ou provado.

Sem querer debruçar-me mais sobre temas como: a perda de identidade, a descaracterização da vila, o surf, o excesso de alojamentos locais, os preços das habitações, a falta de estacionamento, etc… Já tanto se falou sobre estes problemas que quero acreditar que todas as entidades competentes estejam empenhadas em resolvê-los o mais rapidamente possível.

Gostaria de sublinhar a segurança e a saúde. É imperativo que o nosso centro de saúde trabalhe com todas as condições necessárias para servir melhor os utentes, com o respeito e dignidade que todos merecem, em igualdade e sem excepções. Bem sei que não depende exclusivamente da Câmara Municipal de Mafra, mas querendo consegue-se sempre fazer melhor! Para terminar, a segurança na vila. Com o aumento do turismo, a Ericeira continua a crescer e, a confirmar-se a tendência, não será muito difícil prever o que inevitavelmente (mais tarde ou mais cedo) irá acontecer.

Sobre o futuro da nossa Ericeira, o que direi? Bem… sei que a incerteza do futuro é uma das principais preocupações do ser humano. Tem de se procurar, através do intelecto, antecipar todas as variáveis possíveis de situações que poderão eventualmente acontecer.

O futuro dependerá daquilo que fazemos no presente – Mahatma Gandhi

Pontão espelho crepúsculo – ph. Nuno Vicente

O que é ser Jagoz?

Para quem não sabe, Jagoz é uma expressão que define uma pessoa natural da Ericeira. Povo que durante muitos séculos era maioritariamente constituído por gente ligada ao mar. Tinham uma identidade muito própria, diferenciando-se dos restantes habitantes da região saloia.

Já há vários anos a viver na Ericeira, constatei junto de alguns dos mais acerrimos defensores do termo “Jagoz” que não se deve designar um jagoz como apenas um natural da Ericeira, mas sim aquele que, apesar de nutrir um grande amor pela sua terra e sendo ferrenho defensor das suas origens, terá que ter ascendência de pai e mãe naturais da Ericeira. Os mais “puristas” dizem que não só de pai e mãe, como restantes antepassados.

Povo de facto singular na sua forma de ser e de falar, não necessita que eu o adjective com palavras elogiosas ou expressões de admiração. São o que são, com todas as virtudes e defeitos, assim como todos nós. Quem os classifica de uma forma pejorativa, até a mim “já me ofende” um pouco.

… e a forma tão típica e engraçada como falam: “Atão nha belha, nã tavas capaz nã binhas. Bueste, nã buesses, olha que o binho na te faz beim!” (risos).

Nossa pátria é onde nos sentimos bem – Aristófanes

Considera-se Jagoz?

O gentílico, isto é, como se chamam os habitantes da Ericeira, são os ericeirenses. Mas respeitando a opinião dos jagozes, sou um ericeirista: que são aquelas pessoas que, por gostarem da Ericeira, decidem vir para cá morar. E assim sendo, sou ericeirista disfarçado de ericeirense (risos).

Gaivotas Algodio – ph. Nuno Vicente