Ericeira Drag City

Manuel Mota - ph. Vera Marmelo

 

Texto: Miguel Arsénio | Fotografia: Vera Marmelo

 

Por mais que o nome da Ericeira viaje pelo mundo, muitas vezes associado ao surf e à sua invejável variedade de ondas, o lugar da vila na história da música independente (lançada à margem de grandes editoras) será praticamente inexistente. O mesmo não significa que alguns espaços da Ericeira não tenham já efectuado um esforço para apresentar algumas bandas e músicos que ficam normalmente arredados dos palcos mais visíveis e populares.

A vida é cheia de surpresas e nada impede, enfim, que a Ericeira se aproxime, mesmo que esporadicamente, do imenso e fascinante universo da música independente. Esse tipo de possibilidades, aliada a um feliz conjunto de coincidências, permitiu que ultimamente a Ericeira desenvolvesse uma ligação especialmente curiosa com a Drag City, editora de Chicago mundialmente reconhecida como um emblema da música independente.

Para que melhor se entenda a importância da Drag City, diríamos apenas que se trata da editora que alberga escritores de canções tão reputados e significantes como Bill Callahan, Joanna Newsom ou Bonnie “Prince” Billy, todos eles nomes de um peso enorme na formação do cancioneiro norte-americano das últimas décadas. Esta visão panorâmica (e apressada) da Drag City não chega sequer a servir de resumo para uma label com um catálogo carregado do melhor rock indie e experimental surgido nos Estados Unidos, desde que existe um circuito de distribuição e concertos para esse tipo de música.

Lacrau - ph. DR

Mas a descoberta da Drag City faz-se escutando os seus discos e foi um desses que serviu de mote a este texto: “Lacrau”, lançado no dia 22 de Junho, resulta de uma colaboração entre Manuel Mota e David Grubbs, e, de acordo com o press release, foi gravado numa tarde quente de Outono em Lisboa. O disco sai com o selo da Blue Chopsticks, editora conduzida pelo próprio David Grubbs como ramificação da grande árvore Drag City.

Onde surge então aqui o nome da Ericeira? Precisamente no texto de apresentação de “Lacrau”, onde é explicado que essa não só era a palavra antiga para designar “escorpião”, como também serve de nome a um restaurante “bom e barato” localizado na Ericeira, o lugar azul onde Manuel Mota habita desde há alguns anos. Quem passeia pela “boulevard” que é a Rua Dr. Eduardo Burnay terá já certamente reparado no tal estabelecimento que há muito tempo se encontra junto da ponte. O nome do mesmo passa a constar de um disco que chega agora às lojas e casas de diferentes partes do mundo através da Drag City.

Manuel Mota - ph. Vera Marmelo

O principal responsável por esta internacionalização do Lacrau e, por conseguinte, da Ericeira será Manuel Mota, guitarrista altamente discreto (quase invisível), embora permanentemente incansável no desenvolvimento de uma linguagem musical altamente personalizada e presente nos discos lançados não só na sua editora Headlights como em tantas outras. A ligação da música de Manuel Mota à Ericeira não é contudo uma novidade e passou a ter uma expressão mais acentuada em vários dos seus discos dos últimos cinco anos, que incluem regularmente composições gravadas na vila e fotografias de paisagens da mesma. Embora seja desde sempre difícil definir a música de Manuel Mota, o evidente é que existe nela uma clara paixão pela exploração das possibilidades dos blues por via de uma utilização peculiar da elipse ou, se quisermos, do silêncio.

O que podemos ultimamente ouvir são os resultados dessa ciência conjugados com algumas atmosferas que não serão de todo estranhas aos ouvidos de quem já teve a oportunidade de sentir a Ericeira num dos seus dias mais frios. Esta aproximação ao imaginário da vila leva-nos a pensar que pode já existir uma “fase ericeirense” no corpo de trabalho de Manuel Mota e que essa viaja daqui para partes várias da Europa, Estados Unidos da América ou Japão (onde o músico é seguido com especial atenção). Agora uma fracção da memória da Ericeira viaja também com “Lacrau”, o disco que a Blue Chopsticks dá a conhecer pela mão da Drag City.

Flyer Alasdair Roberts no Lebre - obra: Miguel Arsénio

Os laços entre a Ericeira e a editora de Chicago contudo não ficam por aqui, já que, em 23 de Abril de 2015, a taberna O Lebre (localizada bem perto do centro da vila) teve a oportunidade de receber um concerto curto, porém a todos os níveis intenso e memorável, de Alasdair Roberts, músico de origem escocesa que é também uma das figuras mais presentes no extenso catálogo da Drag City.

Numa ocasião raríssima para a vila, Alasdair Roberts interpretou, no Lebre e perante algumas dezenas de pessoas, canções tradicionais da Escócia que fizeram todo o sentido aos ouvidos de um público que contaria certamente com muitos filhos e netos de pescadores. Houve até quem chorasse ao escutar o povo na voz de Alasdair Roberts (que teve até a coragem de cantar a cappella).

Para tornar possível essa noite mágica foi certamente essencial o contributo do jornalista Rui Miguel Abreu (sábio residente desta vila) e de Fred Somsen, director de actividades da Drag City em território europeu e um aficionado pela Ericeira como retiro de descanso. Passou também por eles o fortalecimento da ligação que fica aqui relatada. Quem sabe se as coisas um dia não irão mais longe com o EP de Bonnie “Prince” Billy ou Bill Callahan chamado “Belho” ou “Sô primo”.