Embarque

 

Fotografia: DR

 

Com a mãe, rainha D. Amélia, e a avó (rainha D. Maria Pia), D. Manuel II – o ultimo rei de Portugal, então com 20 anos – alcança a barca que os conduziria ao iate Amélia, onde está o tio D. Afonso. Seguem para Gibraltar e depois Inglaterra – esta poderia ser a legenda da fotografia aqui publicada e que, no entanto, deixa muito por dizer sobre este crucial episódio histórico.

Eram cerca das 15 horas de 5 de Outubro de 1910 (que entraria para a História como o Dia da Implantação da República) quando a Família Real portuguesa, vinda de Mafra, onde pernoitou, surgiu de automóvel na vila para embarcar, fugida da revolução que se instalara na véspera em Lisboa.

A afluência nas Ribas era imensa. Tudo silencioso, mas de muitos olhos corriam lágrimas

Os pormenores do que se passou naquela tarde na Ericeira foram relatados por Júlio Ivo, presidente da Câmara Municipal de Mafra no tempo de Sidónio Pais, e que em 1928 inquiriu a população da vila:

“ (…) os automóveis pararam e apeou-se a Família Real, seguindo da rua do Norte para a rua de Baixo, pela estreita travessa que liga as duas ruas, em frente quase da travessa da Estrela (…) Ao entrar na rua de Baixo, a Família Real ia na seguinte ordem: na frente El-Rei D. Manuel; a seguir, D. Maria Pia, depois, D. Amélia (…). El-Rei, e quem o acompanhava, subiram para a barca, valendo-se de caixotes e cestos de peixe (…) O sinaleiro fez sinal com o chapéu, e a primeira barca, Bomfim, levando a bandeira azul e branca na popa, entrou na água e seguiu a remos, conduzindo El-Rei (…).

A afluência nas Ribas era imensa. Tudo silencioso, mas de muitos olhos corriam lágrimas (…)

El-Rei ia muito pálido, D Amélia com ânimo, D. Maria Pia acabrunhada (…) Ainda as barcas não tinham atracado ao iate quando apareceu na vila, vindo do lado de Sintra, um automóvel com revolucionários civis, armados de carabinas e munidos de bombas, que disseram para atirar para a praia se tivessem chegado a tempo do embarque (…) “.