E agora?

 

Texto: Francisco Quintela | Caricatura: DonkeyHotey

 

Agora nada. Não vale a pena ter grandes preocupações com a recusa da criatura em desamparar a loja. Vai acabar por ser bom para toda a gente. Esta atitude de criança birrenta é um culminar de asneiras que começaram bem antes da sua ascenção à Casa Branca. É uma demonstração inequívoca da sua verdadeira personalidade, que foi olimpicamente ignorada enquanto o manto do poder cobria todos os seus passos e fazia com que muitos a ignorassem. Mas agora, passada a festa, começa a ressaca e o famoso “walk of shame”.

É o tempo de reconhecer os erros, de assumir as culpas que vinham sendo diluídas na lógica da multidão, aquele sentimento de impunidade que surge quando participamos no linchamento de uma pessoa, de um grupo étnico ou de um sistema político.

Falo da amoralidade da turba, aquele sítio onde se evaporam todos os sentimentos que nos assombram quando estamos sozinhos. Um dos maiores é a recusa sistemática em reconhecer que a nossa vida não é melhor em grande parte por nossa causa. A tendência para arranjar bodes expiatórios para as suas faltas saltou das clássicas razões psicanalíticas para uma forma de pensamento generalizada, standardizada, assente na lógica de grupo, quase que legitimada (do seu ponto de vista) pela força dos números dos que a praticam. O outro, o estrangeiro, o diferente, como de costume passam a ser o inimigo (se eu sou a elite, portanto o topo, significa que se tu és diferente, então necessariamente és diferente para pior). Os adeptos deste raciocínio costumam reunir-se numa lógica tribal de grande união (forma reconhecidamente eficaz de conseguir manter um raciocínio absurdo), normalmente em torno de um ídolo, do chamado “homem providencial” (já todos ouvimos isto demasiadas vezes).

agora começa a ressaca e o famoso walk of shame

E é aqui que voltamos ao início: é que o homem providencial está-se a revelar o que muita gente sabe o que sempre foi, mas agora não está a deixar margem de manobra para que os seus defensores mais indefectíveis o continuem a ser. De repente percebe-se a cobardia, a falta de vergonha, a total incapacidade de ler, reconhecer e adaptar-se àquela coisinha chata chamada realidade. Em bom rigor, esses indefectíveis continuarão fechados na sua bolha e hão-de defendê-lo até ao fim (nunca esquecer que a criatura representa a possibilidade de a culpa do próprio falhanço não ser deles próprios, representa a possibilidade do triunfo a todo o custo sobre a adversidade, representa a resistência ao jugo dos poderosos (pedófilos e canibais), representa enfim tudo o que lhes permita manter a narrativa de que nada no seu falhanço é da sua exclusiva ou parcial responsabilidade).

Felizmente que há outros: grande parte dos republicanos mais sensatos começaram a perceber que a possibilidade de não se demarcar de tudo isto deixou de ser viável, sob pena de serem corridos do jogo político (que vai voltar a ser jogado segundo as regras da civilização).

Todos esses republicanos moderados, ao olhar para tudo isto, as birras, a insensatez, o narcisismo que finalmente quebrou as amarras e dominou o hospedeiro (a pressão foi demasiada), ao olharem para a insistência no absurdo, para a radicalização demencial de uma boa parte da tribo, para o cerco do Procurador do Estado de Nova Iorque que se fecha, para as dívidas do bicho, a queda do mito do super gestor genial, agora quase arruinado, os crimes que agora poderão ser finalmente investigados, para uma muito forte possibilidade de traição (inacreditável), ao olhar enfim para a queda a todos os níveis do elemento agregador de todo este drama, esses republicanos não terão outro remédio que não seja contribuir para que o “homem providencial” seja definitivamente arrumado no caixote de lixo da História como o trágico caso clínico que nunca deixou de ser.

não nos devemos preocupar com o disparate que se seguirá no curto prazo

Ao olhar para tudo isto, dizia, todos esses republicanos, por muito que detestem a alternativa, ao olhar para o pântano, percebem que estão cercados e não terão outro remédio senão rasparem-se dali para fora, o mais depressa e para o mais longe possível, rezando para que todos nos esqueçamos rapidamente da sua responsabilidade em tudo isto.

É por isso que não nos devemos preocupar com o disparate que se seguirá no curto prazo (contestação das eleições na justiça, tentativas de eliminar votos, ameaças de violência ou motins), quantas mais asneiras a criatura for fazendo maior será o número de apoiantes que não terão alternativa senão afastarem-se.

Não esquecer que a criatura teve mais de setenta milhões de votos e o partido republicano continua seu refém, o que quer dizer que há uma forte possibilidade do seu desaparecimento não ser para já. Daí a vantagem deste disparate final. Pode ser que impluda duma vez por todas.

A outra parte dos Estados Unidos da América (e o resto do mundo) chegou ao limite das suas forças. Não está em condições, nem físicas nem psicológicas, para deixar que tudo isto se repita. Acabou.