Bruno Camilo Silva: “A região Oeste é rica em fósseis de vertebrados”

Adán Pérez García e Francisco Ortega da Sociedade de História Natural de Torres Vedras. - ph. DR

 

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Em Fevereiro de 2011, José Joaquim dos Santos, paleontólogo amador há mais de 20 anos, e outrora carpinteiro de profissão, fez a mais importante descoberta da sua vida: o fóssil de uma tartaruga com 145 milhões de anos, a mais antiga do seu género. Foi na orla costeira do Oeste, na praia do Porto do Barril, fronteira entre o município de Mafra e Torres Vedras.

A tartaruga de espécie Hylaeochelys kappa surge do Jurássico Superior da Bacia Lusitânica, formada pela desunião entre os continentes europeu e norte-americano. A espécie evoluiu de um grupo posterior que habitava no então supercontinente Pangeia. “Este género de tartaruga apenas se conhecia no Cretácico Inferior da Grã-Bretanha [há 140 milhões de anos], mas conhece-se agora esta nova espécie, mais antiga, do Jurássico Superior, o que quer dizer que se trata de um género de tartarugas mais antigo do que se pensava”, explicou à AZUL, por e-mail, Bruno Camilo Silva, director do laboratório de Paleontologia e Paleoecologia da Sociedade de História Natural de Torres Vedras (SHN), onde se encontra o achado.

A Bacia Lusitânica, de águas pouco profundas, formou-se no oeste da Península Ibérica após a cisão continental que deu origem ao Atlântico Norte. À época, as kappa, nome atribuído pelos paleontólogos que estudaram o fóssil, os espanhóis Adán Pérez García e Francisco Ortega (ambos na foto), cirandavam numa extensão costeira entre o Norte de Aveiro e a península de Setúbal, subsistindo num ambiente fluvial característico da bacia. Esta espécie de tartarugas media cerca de meio metro de comprimento e tinha uma carapaça arredondada muito baixa, o que explica que estes répteis tinham a capacidade de nadar, mesmo que não fosse o ponto forte da espécie.

DINOSSAUROS, CROCODILOS, TARTARUGAS

A descoberta das tartarugas portuguesas permite constatar que esta espécie é mais antiga em 5 milhões de anos que aquela que se conhecia da Grã-Bretanha. Este terá sido o facto mais importante do achado, que se tornou num dos mais importantes alguma vez verificados na região, apesar de esta proliferar em fósseis e elementos naturais históricos. “A região Oeste é rica em fósseis de vertebrados porque se insere numa bacia sedimentar ao longo da margem ocidental ibérica, tendo uma extensão de cerca de 225 km de comprimento por 70 km de largura. Os sedimentos do Jurássico Superior da Bacia Lusitânica incluem dinossauros, crocodilos, tartarugas, mamíferos e pterossauros”, asseverou Bruno Camilo Silva. O responsável do SHN explicou que riqueza de fósseis na região Oeste provém de sedimentos com influência marinha, o que permitiu, no Jurássico Superior, “o desenvolvimento das faunas terrestres que hoje se encontram preservadas, em forma de fósseis, ao largo desta região”.

Entre os principais achados efectuados na zona Oeste estão dinossauros como o carnívoro Allosaurus de Cambelas, o Saurópode Lusotitan, ornitópodes como Camptosaurus Draconyx e tartarugas como Selenemys lusitanica e as recentes Hylaeochelis kappa. A Sociedade de História Natural de Torres Vedras, detentora dos melhores laboratórios ibéricos de preparação de vertebrados fósseis, será agora responsável pela preparação, conservação e manutenção do achado que ficará na Colecção Paleontológica de Referência da SNH.